Espuma dos dias — “O Papa Francisco foi um amistoso rompedor de moldes no Vaticano”. Por Brian Casey

 

Em tempo, nota de Júlio Mota:

Hoje morreu um homem com uma dimensão intelectual, bem acima dos incompetentes líderes políticos que nos conduziram à terrível situação em que nos encontramos hoje, onde na União Europeia, por exemplo, verdadeiramente de tanga em tudo, apenas se sabe falar sobre a suposta necessidade de se armar até aos dentes. Morreu o Papa de todos nós, mesmos daqueles que como eu não são crentes.

Para a guerra há agora dinheiro na União Europeia e não há problema de défice, o contrário do que fizeram por imposição dos que agora se querem armar até aos doentes, os alemães, quando impuseram a venda das joias da coroa portuguesa aos estrangeiros, fizeram o mesmo em Itália, quando esmagaram a Grécia, quando encurralaram os milhões de espanhóis no desemprego, quando cortaram abruptamente o fluxo de moeda em Malta, enfim, podíamos continuar. Curiosamente, não se vê um líder político do arco do poder falar em paz e, se alguém se atreve a falar em paz, é imediatamente acusado de estar ao serviço de Moscovo, se se estiver a referir à guerra da Ucrânia, ou ao serviço das forças antissemitas se se estiver a referir a Gaza. A palavra Paz parece ter sido banida do dicionário e tanto pelas gentes de esquerda como pelas gentes de direita. Estranho, é o mínimo que posso dizer.

Em homenagem ao Papa Francisco aqui vos deixo um texto publicado pela revista americana de esquerda, de tendência marxista, The Jacobin, e um outro texto que a propósito da guerra de Trump nos fala do que foi a cegueira e o extraordinário cinismo político e económico da União Europeia, pelo modelo neoliberal, com um exemplo fantástico, o desmantelamento da siderurgia em Dortmund, na Alemanha.

Júlio Mota, 21/04/2025

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 min de leitura

O Papa Francisco foi um amistoso rompedor de moldes no Vaticano

 Por Brian Casey

Publicado por  em 21 de Abril de 2025 (original aqui)

 

O Papa Francisco acena aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro em 13 de junho de 2018, na cidade do Vaticano, Vaticano. (Franco Origlia / Getty Images)

 

Embora tivesse uma reputação conservadora nos seus primeiros anos, o Papa Francisco usou o seu papel como líder religioso mundial para fazer campanha contra a pobreza e a opressão social, desafiando diretamente a apropriação do cristianismo por figuras como J. D. Vance.

 

Dias antes de ir para o hospital em Roma, em fevereiro de 2025, o Papa Francisco enviou uma forte repreensão aos bispos americanos pela sua resposta morna às ordens de deportação em massa do governo Trump. A carta condenou inequivocamente as acções do governo dos EUA.

Foi eloquentemente fundamentado nos ensinamentos sociais católicos e nas escrituras, chamando claramente os membros da hierarquia dos EUA cujas respostas tendiam a ignorar a importância desta política terrível e destrutiva. Houve exceções a esse padrão insidioso, nomeadamente o Cardeal Blase Cupich de Chicago e o Bispo Mark Seitz de El Paso, que classificaram as ordens de deportação em massa como uma tentativa de “eviscerar proteções humanitárias.”

Nesta mesma carta, no parágrafo seis, Francisco ofereceu uma forte resposta à interpretação errónea de J. D. Vance sobre ordo amoris, um conceito de santo Agostinho e são Tomás que encoraja os católicos envolverem-se em obras de caridade. “A verdadeira ordo amoris que deve ser promovida é aquela que descobrimos meditando constantemente sobre a parábola do ‘Bom Samaritano’ (LC 10, 25-37).”

Michael Sean Winters, do National Catholic Reporter, descreveu a interpretação obtusa de Vance como “teologia pacóvia”, enquanto o movimento evangélico católico cada vez mais conservador, Word On Fire, defendeu a interpretação mutilada do vice-presidente.

Esta carta aos bispos americanos mostrou o entendimento de Francisco sobre as múltiplas crises que o catolicismo enfrenta nos Estados Unidos. Foi também um excelente exemplo das suas perspicazes antenas políticas e da sua vontade de não se esquivar do confronto em nome da Igreja, do seu ensinamento e da responsabilidade de defender os mais marginalizados.

Numa era de populismo e crescente liderança autoritária em todo o mundo, pode parecer estranho que, para muitas pessoas, cristãs e não cristãs, o líder moral mais forte do mundo fosse o monarca absoluto celibatário de oitenta e oito anos de uma religião global. Mas o Papa Francisco e a sua vida representaram um feixe de contradições.

 

Pastores entre o rebanho

Como líder espiritual de mais de um milhar de milhões de católicos, Francisco estava consciente da diversidade de pontos de vista na Igreja Católica. Ele celebrou essa diversidade de pontos de vista, culturas e tradições, argumentando que a igreja deveria ser como um hospital de campanha após a batalha, cujos bispos e sacerdotes precisam de ser pastores, entre o rebanho, não abrigados em torres de marfim e câmaras de eco insulares. Ele identificou o clericalismo e o carreirismo como um escândalo na Igreja.

Jorge Bergoglio nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina. Foi ordenado sacerdote da Companhia de Jesus (jesuítas) em 1968, e em 1973 tornou-se superior provincial na Argentina durante a “Guerra Suja” daquele país”. Por causa de sua oposição às ideias da teologia da libertação, que surgiram após a Conferência dos Bispos sul-americanos em Medell, em 1968, Bergoglio afastou-se dos Jesuítas desde o início dos anos 1990, quando foi escolhido para servir como Bispo Auxiliar de Buenos Aires, até à sua eleição como Papa em 2013.

A liderança de Bergoglio dos Jesuítas argentinos enfrentou um novo escrutínio quando ele se tornou Papa Francisco. Esta é uma parte contestada da sua vida e há relatos contraditórios da sua liderança durante este período. Ele prontamente admitiu que era um disciplinador severo, algo que foi óbvio durante o seu papado.

Ele nunca pôde refutar totalmente as alegações de que colocou dois padres jesuítas em risco antes de serem sequestrados e torturados pelo regime militar. Um dos padres sequestrados, Orlando Yorio, acusou-o de os entregar aos esquadrões da morte da Junta, enquanto o outro, Francisco Jalics, disse que também suspeitava que Bergoglio os traiu, mas agora acreditava que essas suspeitas estavam erradas. Francisco argumentou consistentemente que não era capaz de falar contra a Junta na época, apesar de desejar que pudesse.

Na altura da sua nomeação como Arcebispo de Buenos Aires, em 1998, tinha–se tornado um pouco mais solidário com a teologia da libertação, salientando a necessidade de uma opção preferencial pelos pobres, ecoando a Doutrina Social Católica pós-Vaticano II e mostrando vontade de ir às periferias da Arquidiocese para celebrar a missa nos bairros de lata da cidade. A sua humildade pessoal, o estabelecimento de paróquias nos bairros de lata de Buenos Aires e a simpatia pelas formas populares de devoção entre os pobres foram bem documentados.

Ele foi nomeado cardeal por João Paulo II em 2001 e logo foi notado como um homem “aberto à comunhão e ao diálog.”. Essas características tornaram-se marcas do seu papado, que se mostrou popular e divisivo, claro e caótico, e um reflexo das suas próprias idiossincrasias.

 

Legados

Bergoglio era já apontado como um possível sucessor de João Paulo II no conclave de 2005 que elegeu o homem conhecido como “Rottweiler de Deus”, Joseph Ratzinger, como Bento XVI. Ao ser escolhido como Papa após a renúncia do seu antecessor em 2013, Bergoglio escolheu o nome Francisco em homenagem ao homem santo errante do século XIII, São Francisco de Assis. Era uma mensagem para o mundo que o seu papado iria concentrar-se nos pobres e marginalizados e dialogar com o maior número possível de pessoas.

O papado do Papa Francisco poderia ser definido como afirmando a necessidade de uma opção preferencial pelos pobres, sublinhando que tanto os católicos leigos como os religiosos devem viver os evangelhos explicitamente, com o ensino social católico e a justiça social no centro dos seus valores e modo de ser. Apesar da sua fidelidade ao magistério e aos ensinamentos da Igreja, Francisco provocou de forma impressionante a ira dos elementos conservadores. Alguns padres e leigos católicos até argumentaram que ele não era realmente o Papa legítimo.

Havia uma série de questões na mesa de Francisco quando ele sucedeu a Bento XVI, com várias controvérsias entregues a Francisco numa “grande caixa branca“. Uma das questões recorrentes dentro da Igreja tem sido a questão do abuso sexual infantil clerical. Francisco criou a Comissão Pontifícia para a protecção dos menores em 2013. Este gabinete enfrentou um muro de resistência ou indiferença dentro do Vaticano e entre alguns membros da hierarquia.

Um importante especialista em proteção, o Rev. Dr. Hans Zollner, Jesuíta Alemão, demitiu-se da Comissão, citando dificuldades com a burocracia do Vaticano, bem como deficiências em “responsabilidade, conformidade, prestação de contas e transparência”. Marie Collins, uma irlandesa sobrevivente de abuso sexual clerical, deixou a Comissão por razões semelhantes em 2017.

Um dos supostos agressores de maior destaque foi o jesuíta, teólogo e mosaicista eslovaco Marko Rupnik, cuja excomunhão foi revogada por Francisco em outubro de 2022. A investigação contra Rupnik, que foi acusado de abuso espiritual e sexual por várias mulheres, foi reaberta em outubro de 2023. As suas vítimas sentiram-se traídas pela lentidão da investigação contra Rupnik e criticaram Francisco pela sua resposta tardia às alegações contra uma figura influente.

No geral, Francisco tinha um legado misto quando se tratava de salvaguardar e confrontar o abuso sexual clerical. Nos próximos anos, haverá mais alegações e investigações estaduais em todo o mundo, e eles documentarão mais incidentes de abuso, negligência e controle por membros da Igreja.

 

Inteligente e de aço

Francisco escondeu a sua perspicácia política, inteligência e autoconfiança por detrás de uma personalidade paternal que levou muitos a vê-lo como um padre paroquial enérgico e idoso. No entanto, havia um aço em Francisco que já era evidente no seu papel de jovem disciplinador na Argentina. Ele afastou um importante crítico conservador dos EUA, o bispo Joseph Strickland, da Diocese de Tyler. Ele também disciplinou os frades franciscanos da Imaculada pela sua celebração da missa em Latim e ligações com grupos sedevacantistas [católicos que rejeitam as transformações da igreja católica pós Concílio Vativano II], que contestam a legitimidade de todos os papas desde o Concílio Vaticano II.

No início deste ano, Francisco ordenou a dissolução da Sodalitium Christianae Vitae, com sede no Peru, por causa de uma cultura de abuso sexual e psicológico dos seus membros. Carlo Maria Vigan, ex-Núncio Apostólico (embaixador) nos Estados Unidos, foi condenado por cisma em 2024 e posteriormente excomungado. Francisco laicizou o carismático Cardeal norte-americano Theodore McCarrick depois de ter sido condenado por má conduta sexual num julgamento canónico em 2019.

Houve também movimentos contra tendências católicas mais liberais. Francisco repreendeu a Igreja Católica alemã pelo seu caminho sinodal que se propôs a promover uma atmosfera mais inclusiva para os católicos LGBTQ e discutir a ideia de mulheres sacerdotes de forma mais aberta. Francisco estava disposto a acolher os católicos LGBTQ e oferecer-lhes algum tipo de inclusão. Mas havia limites para essa aceitação, mesmo que constituísse um grande desenvolvimento em si mesmo: por exemplo, não chegou a aceitar os direitos dos homossexuais de se casarem dentro da Igreja.

Em 2013, o seu comentário “se uma pessoa é gay e busca a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” ofereceu esperança e entusiasmo a muitos católicos LGBTQ, embora tenham ficado posteriormente desapontados com uma resposta muito menos radical às suas preocupações ao procurarem um acolhimento na Igreja. Em 2023, a Declaração Fiducia Supplicants permitiu que padres católicos abençoassem casais que não eram casados em harmonia com os ensinamentos da Igreja, incluindo casais do mesmo sexo. No entanto, a homofobia continua a ser aceitável para muitos líderes da Igreja que são indiferentes às consequências das suas palavras e acções.

Isto é algo que Francisco não conseguiu confrontar e mudar efetivamente. Uma vez que não sabemos, neste momento, quem o sucederá, não está claro se o novo papa continuará a pressionar por uma igreja que seja mais acolhedora para os católicos LGBTQ, ou se os progressos realizados até agora serão rejeitados.

 

Rompedor de moldes

O evento mais importante iniciado por Francisco, que ainda está a ser incorporado em toda a Igreja, é o Sínodo sobre a Sinodalidade. Isso envolveu a discussão de uma ampla gama de questões, incluindo temas de preocupação de Francisco, como a crise dos refugiados, as mudanças climáticas e o envolvimento dos leigos na Igreja. Membros do clero e leigos passaram vários anos debatendo e ouvindo perspectivas sobre um complexo mosaico de tópicos.

Observadores da Igreja Católica vêem o Sínodo como o acontecimento mais importante da sua história desde o Concílio Vaticano II. Cinco cardeais conservadores expressaram inquietação sobre o Sínodo em 2023: insatisfeitos com as respostas que receberam do Papa Francisco, vieram a público com as suas preocupações. Enquanto isso, vozes progressistas na Igreja criticaram o documento final por não fazer mais para promover a posição das mulheres ou o lugar dos católicos LGBTQ na Igreja.

Apesar de permanecer um conservador social sob a imagem humilde de um pároco para o mundo, o Papa Francisco foi um quebrador de moldes, mostrando uma maior disposição para correr riscos do que os seus antecessores. Visitou mais de sessenta países, incluindo alguns dos mais pobres do mundo, bem como outros que reflectiram o seu compromisso com o diálogo inter-religioso. Ele ofereceu uma voz consistente de compaixão e um quadro ético para lidar com questões de pobreza, mudança climática e marginalização social.

A sua disposição de nomear cardeais baseados em lugares como Mongólia, República Centro-Africana, Teerão e Penang mostrou que ele estava profundamente ciente de que a Igreja Católica é um órgão global. Não é património exclusivo do Norte Global, com o peso político e demográfico a deslocar-se para África e Ásia. Elevar o Arcebispo de Teerão-Isfahan ao cardinalato em 2024 demonstrou uma consciência da importância do diálogo cristão–muçulmano, seguindo os passos do seu homónimo, Francisco de Assis, que se encontrou com o sultão Al-Malik al-Kosevmil em 1219.

A tarefa de escolher o seu sucessor caberá ao Colégio dos Cardeais. Após o consistório de dezembro de 2024, 110 membros do Colégio foram nomeados por Francisco, o que equivale a quatro quintos de todos aqueles que podem votar no novo papa, embora seja tolice pensar que todos esses nomeados são à sua imagem e semelhança.

O activista LGBTQ Simón Cazal, descreveu Francisco como “um líder muito inteligente que compreende os limites, as complexidades e os desafios de navegar numa instituição tão antiga como a Igreja Católica”, e as suas nomeações reflectiram esta compreensão. Francisco era um homem de fé resoluta e firme. Ele estava profundamente ciente da sua própria mortalidade e legado à medida que o mundo entra numa era de crise climática e crescente autoritarismo, desprovido de uma estrutura intelectual para ir além desses perigos em direção a concessões mais saudáveis e progressivas.

 

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O autor: Brian Casey é membro honorário do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, Inglaterra. Ele é um historiador do campo britânico e irlandês durante o longo século XIX (1789-1914) e do catolicismo global no século 20.

 

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