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Tudo isto é fado, tudo isto existe, e muito! De casal a vizinhos dentro do mesmo andar. De Romeu e Julieta a Senhor e Senhora do Rés-do-Chão Direito – por Carlos Pereira Martins
De Romeu e Julieta a Senhor e Senhora do Rés-do-Chão Direito
por Carlos Pereira Martins
Há quem diga que o casamento é a união de duas almas. Outros, mais realistas, dizem que é a união de dois comandos de televisão, três repartições de finanças e um router que teima em falhar sempre que há uma discussão. Mas a verdade é que, com o passar dos anos, muitos casais atingem um estádio evolutivo raríssimo e digno de estudo sociológico: deixam de ser apaixonados, cúmplices ou até amigos… para se tornarem vizinhos. Sim, vizinhos. Daqueles que dividem o lixo, o elevador e a conta da luz — só que no caso deles, é tudo dentro da mesma casa. E sem acta de condomínio.
No início é tudo bonito: pequenos-almoços bem juntos com sumo de laranja natural e croissants aquecidos, mensagens com corações apaixonados e aquela vontade constante de estar junto… nem que fosse para ir ao Lidl. Mais tarde, os pequenos-almoços passam a ser cada um por si, em horários desencontrados, e as mensagens resumem-se a “trouxeste pão e ovos?” ou “a tampa do tupperware está onde?”. A vontade de estar junto… é substituída pela vontade de estar em paz. Paz essa que só se atinge quando o outro vai ao ginásio ou se fecha na casa de banho com um livro.
O quarto do casal transforma-se num T1 partilhado, com zona de silêncio incluída: um dorme do lado da janela, o outro do lado da parede, ambos com uma espécie de pacto tácito — ninguém invade território alheio sem aviso prévio. Os edredons são divididos com rigor suíço e há uma linha imaginária, estilo muro de Berlim, que não se cruza sem autorização expressa.
Conversas? Claro que há! Mas agora são sobre meteorologia (“Amanhã chove, leva o guarda-chuva”), a próxima ida à lavandaria, o estado das juntas do azulejo da casa de banho ou se a sanita ficou ou não levantada — que, curiosamente, se tornou o grande drama contemporâneo do casamento.
O romance? Esse ainda aparece, mas só na Netflix. E mesmo assim, cada um com os seus fones, porque ele quer ouvir dobrado e ela prefere legendado.
Chega-se ao ponto em que o casal comunica por post-its. Colados na porta do frigorífico, na caixa dos cereais ou até no espelho da casa de banho. “Não esquecer de comprar papel higiénico! ” ,“Comprei frango”. “O canalizador vem às 10h — não abras a porta a estranhos”. Às vezes, num rasgo de entusiasmo, aparece um “Bom dia!” — mas não se entusiasmem: é apenas cortesia de condomínio. Fosse ela a síndica, e ele já tinha multa por ruído noturno.
E o mais extraordinário é que, quando confrontados pelos amigos, dizem: “Está tudo bem! Somos como irmãos!” O que, convenhamos, numa relação romântica, talvez não seja o melhor dos sinais… a menos que se trate de uma telenovela mexicana.
Ainda assim, funcionam. A casa não arde, os filhos não fugiram ainda, e há sempre quem trate do IRS e saiba onde está o dossiê dos recibos médicos desde 2003. Porque, sejamos francos, ser vizinho também tem vantagens: não há grandes zangas, cada um tem a sua gaveta, e a paz reina. Uma paz fria, organizada, quase sueca — com aroma a detergente neutro e roupa estendida no estendal rotativo da varanda.
O amor pode até ter feito as malas e ido viver para qualquer outro sítio — aquele onde mora a senhora divorciada com dois gatos e muita liberdade —, mas o casal do rés-do-chão direito continua firme. De porta fechada, contas em dia, e cada um com a sua série. Afinal, há vizinhos bem mais barulhentos. E, pelo menos, ainda se dizem “boa noite” quando se cruzam a caminho de uma das casas de banho.
…Tão manipulados que idiotizados se tornaram, sem, contudo, perder a paixão pela coerência estúpida e sem qualquer humildade ou sabedoria para rever posições idiotas. …
DISTRAÍDOS E DESTRUÍDOS. …
Perde-se a humildade, a humanidade, a honestidade, o humor. Rejeita-se a honra. …
…Tão manipulados que idiotizados se tornaram, sem, contudo, perder a paixão pela coerência estúpida e sem qualquer humildade ou sabedoria para rever posições idiotas. …
DISTRAÍDOS E DESTRUÍDOS. …
Perde-se a humildade, a humanidade, a honestidade, o humor. Rejeita-se a honra. …
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