CARTA DE BRAGA – “dos livros e do retorno da História” por António Oliveira

Começo a estar cansado de falar sempre do mesmo tipo, até por ele não ser exemplo nem farol para qualquer transviado, mas receio que, por cá, também haja muita dificuldade em arranjar referências, ao ver os casos que se contam nos ‘manhas de todas as manhãs’, mais as imagens que os acompanham, com senhores que, pela posição institucional, sem citar o tipo de instituição onde exercem a sua influência, até deveriam ter outras atitudes –mas basta pensar um pouco nos títulos– e encontrarão alguns para encontrarem hipóteses e, certamente, respostas.

Mas hoje fui abanado por um título no ‘El País’, do catedrático em Ciência Política e cronista Josep Maria Vallès, que não passava de uma pergunta simples e bem evocatória, ‘Os Estados Unidos ainda podem impedir a queima de livros? E Vallès acrescenta, talvez justificando a questão, ‘Contra a ofensiva de Trump, o país tem-se apoiado até agora em instituições sólidas e em dois séculos de cultura constitucional, mas mesmo isso pode não ser suficiente’‘Poderá repetir-se o que sucedeu em 1933, frente ao edifício da Universidade de Berlim? Não creio que os livros chamem muito a atenção de Trump e dos seus colaboradores’.

Para os mais esquecidos lembro que os estudantes queimaram, numa acção que se tornou simbólica para o nazismo, mais de 25.000 livros frente à Universidade, por serem considerados ‘não-alemães’ e Goebbels, o ministro alemão da propaganda, aproveitou para regular toda a cultura, de acordo com os princípios do partido nazi, entre as quais a perseguição aos judeus que os nazis consideravam suspeitos das organizações culturais.

E por isso mesmo, já são muitos os analistas que chamam a atenção para uma queima virtual, através do controlo das redes sociais, sobre os meios de comunicação independentes, e da paragem do apoio económico à investigação, o que prejudicaria muito a autonomia das universidades. O cronista internacional John Carlin, a gora no ‘La Vanguardia’, escreveu no passado domingo, ‘O chefe do Pentágono removeu 381 livros da Biblioteca da Academia Naval dos EUA, todos relacionados com tópicos que Washington considera ‘antiamericanos’, como racismo, feminismo, transgenerismo, violência policial e deficiência. Não se sabe se foram queimados, mas a lista inclui ‘Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola’, da célebre autora negra Maya Angelou, e ‘Lembrando o Holocausto’, sobre as mulheres vítimas dos nazis’.

Mas no parágrafo seguinte, John Carlin salienta, ‘No entanto, duas cópias do ‘Mein Kampf’, de Adolf Hitler, permanecem nas prateleiras, e ‘The Bell Curve’, que argumenta que pessoas negras e mulheres são menos inteligentes que homens brancos, também foi deixado intocado, mas um outro livro que contesta a tese, adeus’. Salienta mais, ‘Hegseth e seu chefe, não concordam com a diversidade das mulheres, a ponto de terem exigido a eliminação dos arquivos do Pentágono, das fotos do avião que lançou a bomba atómica sobre Hiroshima, por se chamar ‘Enola Gay’, a primeira mulher a passar no curso de fuzileiros navais para soldados negros que lutaram e receberam medalhas na Segunda Guerra Mundial.

E o ‘Le Monde’ também do passado domingo, tem um artigo com um título bem elucidativo, ‘Guerra Cultural: Como Trump Tenta Impor uma Narrativa Falsa da História’, onde salienta que é mais uma das ordens executivas com assinatura estrambótica, as que ele sempre mostra orgulhoso, intitulada ‘Restaurando a Verdade e a Sanidade na História Americana’, a atacar directamente ‘Todas as instituições culturais americanas, em especial representações de escravidão, segregação, feminismo e desigualdade racial’.

Texto que, ainda de acordo com o diário parisiense, ‘Faz parte de uma ofensiva mais ampla do governo Trump contra locais de cultura e conhecimento: museus, universidades e escolas, agora obrigados a adoptar uma narrativa consistente com a chamada visão ‘patriótica’ da história americana, ou correm o risco de ser sancionados’.

Se compararmos as atitudes de Goebbels o tal ministro da propaganda nazi, com a do multimilionário que nunca terá lido um só livro e agora ocupará(?) tal cargo no governo de ‘Um presidente empresário que aparece a mostrar publicamente a assinatura em novos decretos –como Moisés mostrando orgulhosamente as ‘Tábuas da Lei’– mais a democracia americana parece estar a desaparecer.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

4 Comments

    1. E quem quer saber do universo, quando temos temos negacionistas na chefia da potência
      do mundo ocidental?
      E quem se preocupa em olhar à volta em nem sabe interpretar aquilo que vê, por nunca ter lido um único livro na vida?
      E quem quer saber da humanidade, da humildade, da honestidade e do humor, se não forem pagas em dólares?
      Um abraço e obrigado pela sua constância na leitura!
      A.O.

Leave a Reply