Hoje, uma amiga minha faz anos, hoje 24 de abril. Hoje, procurava nos jornais e revistas de esquerda um texto sobre a morte do Papa. E deparo-me com um dado histórico e uma coincidência. O dado histórico que eu desconhecia é o seguinte: amanhã, comemora-se em Itália os 80 anos em que este país iniciou o caminho da sua libertação face aos nazi-fascistas. A coincidência: o governo fascista italiano, o de Meloni, estende o luto nacional até ao dia do funeral do Papa, o mesmo é dizer, minimiza uma data, uma data que está no coração do povo italiano e em Portugal o governo de Luís Montenegro, cada vez mais próximo do Chega, faz exatamente a mesma coisa e com o mesmo objetivo: minimizar a importância das comemorações nesta data, dizendo: estamos em luto nacional. Como é evidente esta coincidência de decisões dos dois governos não surge por acaso, surge porque pelo longo caminho de oitenta anos em Itália e pelo caminho um pouco menos longo de 51 anos em Portugal, muita gente traiu os ideais de que se proclamava defensor, e o resultado é o que está à vista, em ambos os países.
Ao ficar a saber a importância desta data precisa em Itália, percorri ao detalhe os mesmos jornais e sites eletrónicos e encontrei uma série de textos de muita qualidade sobre o simbolismo desta data. E os paralelismos com Portugal são curiosos.
Nesta base decidi fazer uma série sobre o tema intitulado Abril, Ontem, Hoje e Sempre, e dedicá-la à aniversariante, Margarida Antunes, minha amiga e colega de trabalho de décadas, pela data que ela vive hoje e por ser uma acérrima defensora dos ideais de Abril.
Aqui vos deixo o primeiro texto da série.
Júlio Mota
Coimbra, 24 de Abril de 2025
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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
2 min de leitura
Texto 1. O 25 de abril não é um festival
Publicado por
em 23 de Abril de 2025 (original aqui)
O governo está a aproveitar-se maldosamente da morte do Papa para diluir as celebrações do 80º aniversário da Libertação.

Na passada segunda-feira, morreu o Papa Francisco. Na próxima sexta-feira, 25 de abril, comemora-se o 80º aniversário da libertação do nazi-fascismo. Dois acontecimentos que não têm nada em comum, exceto a proximidade no calendário. No entanto, o Governo encontrou uma forma de os fazer colidir: alargando o luto nacional para cinco dias (para João Paulo II foram três, para o Papa emérito Ratzinger apenas um), para incluir precisamente o 25 de abril. A esta decisão junta-se a declaração do ministro Musumeci que apela a celebrações “sóbrias”.
Como se o 25 de abril fosse um festival, um carnaval, uma folia descabida a ser contida com sobriedade. É certo que o 25 de abril é uma festa, mas é a festa da liberdade reconquistada, da dignidade reconquistada. É o fundamento da República Italiana, nascida da Resistência antifascista. Quem apela à “sobriedade” nas celebrações, quem explora um luto para silenciar a memória coletiva, está a fazer um gesto que não é neutro: é um gesto político, perfeitamente coerente, aliás, com a alergia deste governo e de muitos dos seus expoentes ao antifascismo.
Este é precisamente o fio condutor das várias contribuições que o Micromega está a dedicar nesta semana a 25 de abril e que culminarão na sexta-feira com um texto especial porque, infelizmente, a tentativa de esvaziar o conteúdo antifascista da nossa República e da nossa Constituição começou imediatamente, na sequência da queda do regime. E esse esvaziamento nunca parou. Até hoje, quando celebramos oitenta anos com um governo que não se reconhece nas raízes antifascistas da República.
Um governo no auge da República nascido da resistência não teria permitido que a morte do Papa fosse usada para diluir o significado de 25 de abril. Mas este governo não está à altura. Nunca esteve. E ele aproveitou a oportunidade na hora. Afinal de contas, fazem-no desde há anos: deslegitimar o dia 25 de abril, reduzi-lo a uma “festa partidária”, tratar o antifascismo como um lastro ideológico e não pelo que é: a arquitetura da nossa democracia.
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A autora: Cinzia Sciuto [1981 – ] é editora do “MicrOmega”. Estudou filosofia e escreveu A Terra é redonda. Kant, Kelsen e a perspectiva cosmopolita (Mimesis 2015). Ela lida com direitos civis, secularismo e feminismo.


