Em vésperas de arrancar a 19ª Mostra Internacional de Arquitetura, de que não deixaremos de falar numa das próximas Cartas de Veneza, vale a pena destacar que a cidade está a fervilhar de iniciativas culturais e estreias de exposições de arte especialmente interessantes.
Uma delas é a que acaba de ser inaugurada sob o título L’oro dipinto: El Greco e la pittura tra Creta e Venezia (“Ouro pintado: El Greco e a pintura entre Creta e Veneza”) e que ficará patente até 29 de setembro no Palácio dos Doges. O protagonista da exposição é Dominikos Theotokopoulos, apelidado de “El Greco”, ou seja, o mais original e conhecido intérprete da escola cretense, considerado uma espécie de profeta por mestres modernos como Manet e Picasso.

El Greco (1541-1614) nasceu em Creta e começou a sua carreira como pintor de ícones: após a queda de Constantinopla em 1453, a ilha tornara-se o novo centro dinâmico da antiga tradição de pintura bizantina, atraindo artistas de todo o Mediterrâneo oriental. O artista candiota chegou a Veneza por volta de 1567, que naquela época era considerada uma passagem imprescindível; de facto, o encontro do pintor com artistas como Ticiano, Bassano e Tintoretto foi especialmente marcante e determinou uma verdadeira viragem na sua trajetória. Em seguida, El Greco partiria para Roma e finalmente, em 1577, para Toledo, onde teria a sua grande consagração.
Este percurso invulgar reflete-se na sua obra pela presença de influências variadas: o misticismo característico da arte bizantina, a sensibilidade cromática e os jogos de luz presentes nos trabalhos de Ticiano, uma maneira de conceber o espaço semelhante à de Tintoretto e a mistura de elementos realistas e fantásticos típicos da atmosfera religiosa espanhola.
Nas salas do Palácio dos Doges é possível acompanhar a evolução do artista graças à presença de obras procedentes de coleções italianas e internacionais, como a Fuga para o Egito ou São Pedro. Para além das pinturas, a exposição inclui instalações de vídeo interativas com foco em ícones individuais, documentos raros, reconstruções detalhadas de lugares como a Igreja dedicada a São Jorge dos Gregos em Veneza.



Preciosa notícia. A exposição é de visita obrigatória para os que fazem férias por aquelas bandas, até porque se pode ver até Setembro. A breve incursão ao itinerário de El Greco recorda-nos alguns dos caminhos da História de Arte.