Francisco ou a resistência contra o caminho para o abismo — Sim, Virgínia, a Predestinação de Marx não é falsa (DESCONFORTOS), Por Brad DeLong

 

Nota prévia

Vivemos tempos difíceis. Morreu ontem um dos mais importantes símbolos da resistência contra a tendência atual de caminharmos para o abismo. Morreu o Papa Francisco, o Papa de todos nós. Mando-vos hoje o texto de homenagem sentida de Robert Reich, o homem que bateu com a porta na cara a Bill Clinton quando era o seu ministro do Trabalho. Ao ler o texto de homenagem ao Papa Francisco percebe-se porque é que bateu com a porta na cara a Bill Clinton, o representante da Terceira Via nos EUA.

Vivemos uns tempos difíceis e muito confusos. Há dias recebi dois textos curiosos um de John Ganz – A Fábula de Kautsky (original aqui) – a retomar as teses de Kaustky do primeiro quartel do século XX, quanto ao imperialismo.

E um outro de Brad DeLong sobre Marx (original aqui), ele que anda agora a reler encantado Marx, onde nos assinala que Marx faz parte da nossa cultura judaico-cristã e não é o herético que o mainstream nos quer impor e silenciar. Com efeito diz-nos Brad DeLong:

(…) é preciso ler O Capital não apenas como uma análise, mas como uma obra na tradição profética judaico-cristã, bem como uma obra no que Marx e Engels consideravam ser ciência plena, se quisermos lê-lo bem. Marx realmente via-se como o Darwin da história e da sociologia. E fingir que não era assim é trair a obrigação intelectual e académica que temos para com ele…(sublinhado nosso)

.Como se isto não chegasse, John Ganz parte de férias e num texto de até breve – Tempo Livre (original aqui) – manifesta o seu espanto quando nos diz que o Financial Times parece agora situado mais à esquerda que a revista marxista por mim citada ontem, The Jacobin, como manifesta o seu espanto por a TIME citar o Manifesto do Partido Comunista. Curiosidades que são sinais claros de borrascas que nos esperam.

Por fim, um texto de Harold Meyerson – Francis and his critics (original aqui) – onde assinala o desalinhamento de muitos dos católicos americanos com o pensamento do Papa Francisco.

[n.e. Hoje publicamos o texto Sim, Virgínia, a Predestinação de Marx não é falsa de Brad Delong]

 

Júlio Mota, 22/04/2025


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9 min de leitura

Sim, Virgínia, a Predestinação de Marx não é falsa (DESCONFORTOS)

 Por Brad DeLong

Publicado por   em 16 de Abril de 2025 (original aqui)

 

Marx escreveu unvermeidlich [inevitavelmente]. Isso importa muito mais do que Peter Gordon ousa admitir. Significa que é preciso ler O Capital não apenas como uma análise, mas como uma obra na tradição profética judaico-cristã, bem como uma obra no que Marx e Engels consideravam ser ciência plena, se quisermos lê-lo bem. Marx realmente via-se como o Darwin da história e da sociologia. E fingir que não era assim é trair a obrigação intelectual e académica que temos para com ele…

Devo dizer que estou irritado esta manhã. E então pergunto-me: será que estou a ser injusto com o marxista Peter Gordon, que parece ter fechado a mente para muito do que realmente se passa no pensamento de Karl Marx?

Estarei a ser ? Para ir direto ao ponto: Não. Eu realmente não acho que estou a ser.

A nova tradução de O Capital de Marx, de Reitter/North https://press.princeton.edu/books/hardcover/9780691190075/capital  vol.I, é, pelo melhor que posso dizer, verdadeiramente excelente — e isso fez-me  lê-la novamente, de ponta a ponta, com as antigas traduções de Moore-Aveling e Fowkes também abertas sobre a mesa, por diversão.

E Peter Gordon (ver aqui) faz um belo serviço ao chamar a atenção para isso.

Mas isto de Peter Gordon:

Peter Gordon: Hair-Splitting (ver aqui): ‘A analogia com a ciência natural é infeliz… maliciosa… implica que a liberdade humana deve ceder à necessidade naturalista… Marx não usou o termo [“leis”] no sentido que temos em mente quando dizemos que as leis governam… a biologia… ou os… planetas… Marx… sabia que a economia era uma criação humana e, portanto, suscetível a mudanças históricas e sociais… Nos seus últimos anos, Marx passou a apreciar a diversidade de culturas humanas e práticas económicas… Qualquer compromisso que ele tivesse em descobrir leis necessárias ou universais na esfera económica rendeu um reconhecimento muito mais pluralista dos muitos caminhos do passado para o futuro.

Esta mudança é evidente quando consideramos as diferenças entre a tradução francesa de O Capital [1872] e o original alemão [1867]… Em alemão… “O país que é mais desenvolvido industrialmente apenas mostra, ao menos desenvolvido, a imagem do seu próprio futuro.”… Em francês… “O país mais desenvolvido industrialmente apenas mostra àqueles que o seguem na escada industrial a imagem do seu próprio futuro.”… Esta alteração aparentemente menor tem consequências dramáticas… deixa a história aberta a rotas alternativas que não sobem todas a mesma escada da industrialização ocidental…

É simplesmente errado. E por isso Peter Gordon será, de agora em diante, um dos meus exemplos de como não ler livros grandes e difíceis…

Comece pelo segundo parágrafo que cito. Comparando as versões de 1867 e 1872 de Marx:

  • “O país mais desenvolvido industrialmente…” vs. “O país mais industrialmente desenvolvido…”
  • “…apenas mostra…” vs. “…apenas mostra…”
  • “…para os menos desenvolvidos … ” vs. ” … aqueles que o seguem na escada industrial…”
  • “… a imagem do seu próprio futuro.” vs. ” … a imagem dos seus próprios futuros.”

Em todo o caso, a versão francesa de 1872 faz soar o mote da Predestinação de Marx mais alto nos meus ouvidos do que a versão alemã de 1867:

  • Na versão francesa, os “países” que são objecto da frase são explicitamente, mais do que implicitamente, descritos não apenas como vendo a imagem do seu próprio futuro nos mais desenvolvidos, mas como seguindo activamente os passos do seu desenvolvimento industrial.
  • Na versão francesa, há apenas um líder industrial a seguir — a Grã-Bretanha, tema dos capítulos empíricos de O Capital, enquanto na versão alemã há “líderes”, cada um dos quais mostra a um país menos desenvolvido uma imagem diferente, no máximo uma das quais pode ser o seu próprio futuro, reduzindo assim o sentido de predestinação inevitável.
  • Retrocedendo, se Marx realmente (e eu acho que ele fez) “nos seus últimos anos… passou a apreciar a diversidade das culturas humanas e práticas econômicas…”, o que tem isso a ver com o que ele tinha em mente nos anos 1857-1864, quando nasceu o texto de O Capital vol.I ? Nada.
  • E não é um argumento contra a Predestinação de Marx que “a economia foi uma criação humana e, portanto, suscetível a mudanças históricas e sociais”. O facto de ter descoberto as leis científicas que regem esse inevitável processo de mudança histórica e social foi, pensava Marx, uma das suas maiores realizações.

Marx pensava que a sua grande conquista intelectual — aos olhos de Friedrich Engels e ainda mais aos seus — era precisamente o facto de ter descoberto as leis de como esta criação humana que era a economia deve sofrer mudanças históricas e sociais. Como Newton tinha sido para a física, como Darwin estava a tornar-se para a biologia, assim Marx estava para a história. De facto, pelo menos a partir de 1848, o seguinte estava muito claro para Marx:

Karl Marx e Friedrich Engels: Manifesto do Partido Comunista www.gutenberg.org/cache/epub/61/pg61-images.html

[Enquanto] ‘ até agora… a sociedade se baseou … no antagonismo dos opressores e oprimidos…

Algo muito melhor estava a vir como:

Karl Marx & Friedrich Engels: Manifesto of the Communist Party www.gutenberg.org/cache/epub/61/pg61-images.html

‘o operário moderno … afunda-se cada vez mais… e a pauperização desenvolve-se mais rapidamente… a burguesia já não está apta para ser a classe dominante… e… impõe as suas condições de existência…. O avanço da indústria, cujo promotor involuntário é a burguesia, substitui o isolamento dos trabalhadores, devido à concorrência… pela sua combinação revolucionária… [e] corta debaixo dos seus pés o próprio fundamento sobre o qual a burguesia produz e se apropria dos produtos. O que a burguesia, portanto, produz, acima de tudo, são os seus próprios coveiros. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis…

Inevitáveis.

A última frase em alemão é: Ihr Untergang und der Sieg des Proletariats sind gleich unvermeidlich. A palavra alemã traduzida como “inevitável” é unvermeidlich: un-, not; -lich, tornando-a um adjetivo; – vermeid, um radical verbal que significa evitar, fugir, evitar.

Ou, alternativamente traduzido, Predestinado.

E o reconhecimento de Marx da Predestinação, do inevitável, realmente seu, na sua mente e na de Engels, completamente científico:

Friedrich Engels (1883): Discurso no túmulo de Karl Marx www.marxists.org/archive/marx/works/1883/death/burial.htm

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, também Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o simples facto, até agora encoberto por um crescimento excessivo da ideologia, de que a humanidade deve antes de tudo comer, beber, ter abrigo e vestuário, antes de poder prosseguir a política, a ciência, a arte, a religião, etc.; que, portanto, a produção dos meios materiais imediatos e, consequentemente, o grau de desenvolvimento económico alcançado por um determinado povo ou durante uma determinada época, formam a base sobre a qual as instituições estatais, as concepções jurídicas, a arte e até mesmo as ideias sobre religião das pessoas em questão foram desenvolvidas, e à luz das quais devem, portanto, ser explicadas…. Marx descobriu também a lei especial do movimento que rege o modo de produção capitalista actual…. Duas dessas descobertas seriam suficientes para uma vida. Feliz o homem a quem é concedido fazer mesmo uma…. Tal era o homem da ciência…

Sim, teria sido muito mais sensato no Manifesto, dados os propósitos de Marx e Engels, que eles não tivessem reivindicado conhecimento científico ou teológico. Teria sido muito mais sensato ter antecipado a vermelha Rosa Luxemburgo e dito que a humanidade enfrentava uma escolha entre “socialismo ou barbárie”. Mas isso não é o que eles disseram. Não era isso que eram.

Mas o que se passa aqui com Gordon?

Pergunto porque a Predestinação de Marx é provavelmente o mais forte dos muitos aspectos de Marx. Esse aspecto, em seguida, debilitou-se através das muitas eras do marxismo que se repercutiram ao longo dos anos. Debilitou-se tanto que Edmund Wilson, quando chegou a escrever sobre Leon Trotsky, só pôde maravilhar-se com a percepção de Trotsky do processo pelo qual a história-com-H maiúsculo fez a sua vontade:

Edmund Wilson: para a Finland Station, archive.org/details/tofinlandstation0000wils:

A história, então, com a sua Trindade dialética, escolheu o Príncipe Svyatopolk-Mirsky para desiludir a classe média, propôs conclusões revolucionárias que obrigou o Padre Gapon a abençoar e desacreditará cruelmente e destruirá certos fariseus e saduceus do marxismo antes de convocar a lava fervente do julgamento. Estas afirmações não fazem qualquer sentido, a menos que se substitua as palavras história e dialéctica da história as palavras Providência e Deus…. Ultimamente, na solidão e no exílio [de Trotsky], essa História, um espírito austero, parece realmente estar por trás da cadeira [de Trotsky] enquanto escreve, encorajando, admoestando, aprovando, dando-lhe a coragem de confundir os seus acusadores [stalinistas], que nunca viram o rosto da História…

Então, qual é a raiz das estranhas afirmações de Peter Gordon de que essa Predestinação de Marx não existe realmente?

Eu acho que vem aqui:

Peter Gordon: Hair-Splitting www.lrb.co.uk/the-paper/v47/n06/peter-e.-gordon/hair-splitting :

Entre os estudiosos de O Capital, a questão do que Marx quis dizer é sobrecarregada com importância adicional: uma tradução adequada do Capital pode dizer-nos como o capital funciona…. Quando os marxistas lutam por um termo ou frase em O Capital, eles … [estão] a tratar o original como a fonte privilegiada de instrução…

Esta é a serpente no jardim mental murado e irrigado de Gordon: a sua aparente crença de que “uma tradução adequada do Capital pode dizer-nos como o capital funciona…” Não que uma tradução adequada nos diga como Karl Marx, em meados dos anos 1800, pensou, adivinhou e inferiu como algum padrão de rede social humana rotulado de “capital” funcionaria neste ano de 2025 da era comum. Em vez disso, diz-nos como funciona hoje algum padrão de rede social humana denominado “capital”.

Agora Gordon consegue deixar completamente ambígua a questão de em que sentido estamos a tomar a sua afirmação de que “… uma tradução adequada do Capital pode dizer-nos como o capital funciona…”:

  • É algo que ele acha que é verdade?
  • É apenas algo que ele acha que é acreditado por alguma comunidade intelectual – respectivamente, “estudiosos do Capital”, “marxistas”?
  • Ou é apenas para alguns marxistas?

E a qual dessas comunidades sobrepostas pertence o próprio Gordon?

Gordon eventualmente – no final da sua peça – muda de marcha, e então ele diz que “nem todos os teóricos marxistas sentem que devem permanecer devotados a Marx, o autor”‘ e, portanto, “pensar com Marx muitas vezes pode significar pensar contra ele, ou mesmo passar além dele…”?

E, no entanto, não consigo ver por que mais ele se vê obrigado a ir tão longe contra a leitura clara das fontes para negar a Predestinação de Marx. Seja qual for o seu estatuto, a crença de que o texto do Capital, devidamente tratado, é de facto uma “fonte privilegiada de instrução” — é a única coisa que posso ver que pode criar uma cabeça de vapor mental suficientemente poderosa para levar alguém a tentar suprimir e apagar a Predestinação de Marx das próprias obras.

E isto é, penso eu, uma vergonha.

Uma razão importante para lutar com livros difíceis de autores brilhantes do passado é precisamente porque eles são tão frequentemente e tão profundamente errados, de maneiras que podemos ver claramente, dado o nosso ponto de vista mais privilegiado mais tarde na história do que eles. E uma das maneiras pelas quais a análise de Marx do capitalismo se mostrou errada é que ela foi impulsionada por um dos que eu vejo como os quatro principais aspectos da identidade intelectual de Marx:

  • O aspecto muito jovem de Marx era enquanto de filosofia alemã.
  • O aspecto jovem de Marx era como praticante do ativismo político ao estilo da Revolução Francesa.
  • O aspecto Marx mais maduro era como alguém tentando tornar-se um economista político de estilo britânico.
  • Mas a um nível mais profundo havia um aspecto que era um profeta apocalíptico neo-judaico-cristão.

Em certo nível, Marx realmente viu o futuro da humanidade como aquele em que a Nova Jerusalém chegaria, descendo do céu.

preparado como uma noiva adornada para o marido. E ouvi uma grande voz do céu dizendo: Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, e habitará com eles, e eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas; e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem mais dor; porque as primeiras coisas já passaram…’

Ou, como disse Marx em O Capital: “o revestimento rompe-se. Soa o grito da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados…”. Aqui está outra amostra de Marx como profeta: Marx sobre a Índia:

Karl Marx: Os resultados futuros do domínio britânico na Índia <>:

‘a aristocracia [britânica] queria conquistar [a Índia], a plutocracia do dinheiro para saqueá-la e a plutocracia industrial para vendê-la mal… descobriram que a transformação da Índia num país reprodutivo tornou-se de vital importância…. Eles pretendem agora desenhar uma rede de ferrovias sobre a Índia… [Mas] não se pode manter uma rede de caminhos-de-ferro num país imenso sem introduzir todos os processos industriais necessários para satisfazer as necessidades imediatas e actuais da locomoção ferroviária, e dos quais deve crescer a aplicação de máquinas a… [outras] indústrias….

A burguesia inglesa… não falhará … arrastando indivíduos e pessoas através do sangue e da sujeira, através da miséria e da degradação… para criar a base material do novo mundo… relações universais baseadas na dependência mútua da humanidade… o desenvolvimento das forças produtivas do homem….

Quando uma grande revolução social tiver dominado os resultados da época burguesa… e submetendo-os ao controlo comum dos povos mais avançados, só então o progresso humano deixará de se assemelhar àquele horrível ídolo pagão, que não beberia o néctar, mas dos crânios dos mortos…

E, no entanto, a profecia em larga escala de um futuro utópico glorioso está fadada a ser falsa quando aplicada a este mundo. A Nova Jerusalém não desce das nuvens. Nenhuma Grande Voz proclama. Mas, em algum nível profundo, Marx pensava claramente que ela desceria, e diria e disse isso — mesmo que ele nunca tenha chegado à Ilha de Patmos, com os seus cogumelos mágicos, sobre os quais Ioannes, o Divino, talvez subsistisse durante o reinado de César Domiciano Augusto.

E como Peter Gordon é psicologicamente incapaz de admitir na sua mente esse aspecto de Marx, ele não pode realmente interpretar o Capital — e realmente não deve fingir que tem competência para dizer a outras pessoas como fazê-lo.

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O autor: J. Bradford DeLong [1960- ] é Professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado no National Bureau of Economic Research. Foi Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA durante a Administração Clinton, onde esteve fortemente envolvido em negociações orçamentais e comerciais. O seu papel na concepção do plano de salvamento do México durante a crise do peso de 1994 colocou-o na vanguarda da transformação da América Latina numa região de economias abertas, e cimentou a sua estatura como uma voz de liderança nos debates de política económica. É licenciado em Economia pela universidade de Harvard. É doutorado pela mesma universidade. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

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