Espuma dos dias — ‘Não houve ataque do exterior, o apagão é fruto da ganância das grandes empresas elétricas’. Entrevista a Antonio Turiel

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

‘Não houve ataque do exterior, o apagão é fruto da ganância das grandes empresas elétricas’

Entrevista a Antonio Turiel

Por Daniel Galvalizi

Publicado por  em 29 de Abril de 2025 (original aqui)

 

                               Antonio Turiel (CSIC)

 

“O problema não são as energias renováveis, quem disser isso não diz a verdade”, ressalta Antonio Turiel ao começar a entrevista com NAIZ, neste dia após o maior apagão global da história do Estado espanhol e de Portugal.

 

O doutor em física e especialista em energia, pesquisador do CSIC, aponta que a chave passa pela estabilização do sistema no qual agora convergem grandes quantidades de energia fotovoltaica e eólica. Lembra que é um problema que também tem a Alemanha e que no ano passado quase produziu em cinco ocasiões um apagão massivo no Estado espanhol.

Sem medo de ser um discurso dissonante no discurso público, ele aponta para as grandes energéticas, a sua “ganância” e a falta de investimentos e mecanismos de prevenção.

Você disse noutra entrevista que o apagão é o produto de muita produção de energia fotovoltaica que reage mal às mudanças na procura. O que quer dizer com isso?

É um problema da tecnologia. Os sistemas clássicos de energia baseiam-se num sistema de voltas de turbinas pesadas de milhares de toneladas, que têm a vantagem de que nas mudanças de procura se regulam, pois a força na qual a turbina gira pode aumentar ou diminuir a quantidade de eletricidade. É um mecanismo automático, mas isso não acontece com a fotovoltaica porque não produz corrente alternada, não produz uma onda, mas sim uma fonte contínua. Você precisa de um aparelho chamado inversor, que gera corrente sintética, mas tem um problema, que é que ele responde muito mal às mudanças de procura. Isso faz com que seja muito difícil acompanhar as mudanças de procura da rede.

Em condições normais, a fotovoltaica é uma minoria e os sistemas de inércia encarregam-se de gerir as variações d procura, mas neste caso em particular 60% da geração de energia naquele momento era fotovoltaica e 14% eólica. E não havia sistemas de estabilização porque não se investiu neles.

Isso pode ser resolvido com mais desses aparelhos inversores?

Veja, os inversores têm que estar lá sempre, embora não sejam obrigatórios. Se a rede se encarrega da estabilização, pois bem, quando a fotovoltaica está em minoria acontece assim. Mas se for a fonte maioritária, tem que se encarregar [de estabilizar] outro, o inversor não é suficiente. Você precisa de um estabilizador, que é uma espécie de bateria, que quando sobra energia acumula-a e quando não, solta-a. Normalmente, os estabilizadores devem ser colocados em certa quantidade de potência, por instalação ou central cerca de 50 megawatts.

Então, pelo que ouço, esse problema não é novo.

Este problema já dura há anos, não é novidade! Este problema de estabilização já dura há anos e, de facto, há um relatório muito interessante do órgão regulador da energia na UE, um superregulador que coordena todos, que explica o caso do que ocorreu em 8 de janeiro de 2021, quando houve um problema parecido com este de 28 de abril e que esteve a ponto de acabar com toda a rede europeia. É um incidente que foi analisado com muito detalhe e viu-se que o problema era a inflexibilidade à mudança de procura. Desde então, por isso, a nova regulamentação obriga que os novos sistemas venham com características de estabilização mais exigentes. É regulamentação europeia.

Porque tem tanta certeza de que foi isso que aconteceu e não, como alguns acreditam, um possível ataque externo?

Tenho conversado com engenheiros espanhóis e todos pensamos que há claramente um problema de estabilidade. A partir das 12 horas [do meio-dia de segunda-feira] começa o problema de instabilidade, começa a haver problemas de mudança de frequência no sinal da corrente. Dou-te um exemplo: imagine que você tem um poste que o vento empurra e vai arrancá-lo, é uma indicação de que ele vai cair no chão. Bem, isto é o mesmo, as oscilações eram cada vez maiores e no final foi o que aconteceu.

Então, podia ter sido evitado?

Claro que sim! No ano passado, a Espanha em cinco ocasiões foi forçada a parar a indústria para evitar que algo como o de ontem acontecesse, através do sistema de Resposta Ativa da Procura (SRAD), que com um aviso com 15 minutos de antecedência pode dizer às grandes indústrias que vai parar o fornecimento, e eles aceitam em troca receber energia mais barata. Isso foi noticiado, foi publicado. Na verdade, lembro que um dos títulos era “Espanha esteve à beira do apagão”.

Haverá alguns que culpam a fotovoltaica e as renováveis.

O problema da fotovoltaica é que quem a produz tem sempre incentivo para vendê-la. Eles têm contratos que lhes asseguram preço garantido de 40 euros ou o que quer que seja por megawatt, e foi produzido demasiado por isso. Isso acontece por não se saber parar, de ver que há tanta procura e gerar assim uma estabilidade crescente. Houve um excesso de ganância e isso gera instabilidades e os sistemas começam a falhar. Os cabos ficam sobrecarregados, ficam desconectados e produz-se uma desconexão em cascata.

Qual a razão do desaparecimento de 15 gigawatts em cinco segundos que Sanchez mencionou?

Quando os 15 gigawatts desaparecem é porque os sistemas de proteção são ativados. Se não, todos os cabos elétricos teriam começado a derreter. Imagine uma faísca com potências de gigawatts, elas seriam uma potência de raios. E as nucleares desligaram-se automaticamente, pela situação muito perigosa que houve. Na verdade, certamente houve cabos que ficaram descascados, calcinados, tenho a certeza.

Como é isso?

Aconteceu com certeza que algum cabo de alta tensão ficou desfeito em pedaços, mas eles não vão querer que você saiba isso porque a imagem não é muito boa, daria uma imagem muito má. Mas tenho a certeza que aconteceu.

Se fosse ministro da Energia, o que recomendaria a Sánchez para que isto não volte a acontecer?

Bem, você tem que rezar [ri] e obrigar as empresas a colocar os sistemas de estabilização. O que Sánchez disse esta terça-feira é sobre isso, ele coloca o acento onde é preciso colocá-lo. Há uma questão que é que não se investiu, mas também se a central de ciclo de gás combinado estivesse preparada para assumir a folga, os problemas teriam sido menores. Tinham-nas paradas e isso é uma responsabilidade criminal.

Quem?

Iberdrola, Endesa, Naturgy… as grandes empresas energéticas são as que controlam as centrais de gás de ciclo combinado. Uma central térmica convencional queima combustível para gerar calor, mas na de ciclo combinado o sistema é diferente; utiliza-se o próprio gás da combustão, que o reinjeta no sistema para mover as pás. Essa força extra do gás dá potência extra e melhor desempenho. As centrais de gás de ciclo combinado têm rendimento próximo do dobro das outras, e além do melhor rendimento são mais rápidas, porque é o próprio gás que você está movendo e faz com que reaja muito mais depressa. Elas são utilizadas para estabilizar o sistema.

Dito isto, no momento em que se produz o apagão, as centrais de ciclo combinado representavam apenas 8% de todo o sistema e no dia seguinte representavam 40%.

E isso porquê?

Porque o gás é mais caro, e o sistema de fixação de preços obriga você a escolher primeiro as tecnologias mais baratas. Isso colocou o próprio sistema em risco. Eu entendo que você puxe pela renovável, mas o lógico é que você tenha as centrais de ciclo combinado em reserva. Mas custa muito dinheiro para mantê-las.

Você pensa que Sánchez sabe tudo isto?

Penso que sim. Sei que Teresa Ribera [n.t. ex-ministra da Transição Ecológica e atual vice-presidente da Comissão Europeia para a Transição Limpa, Justa e Competitiva] o sabe.

Diz isso porque lhe consta ou tem pessoas em comum com ela?

Pela razão que seja… sei que Ribera sabe. E se ela sabe disso, a terceira vice-presidente (e ministra da Transição Ecológica) sabe disso. As declarações de Sánchez indicam que entende a natureza do problema e que são as grandes energéticas que nos levaram ao apagão. Mas elas têm muito poder. E você vê nos media… há interesse em que este assunto não se compreenda muito bem.

Você descarta então que tenha sido produto de uma sabotagem?

Sim. A realidade é muito mais prosaica, é mais suja, é mais miserável; é ganância. É um delírio pensar num ataque. Realisticamente, no curto prazo, é preciso apostar em Centrais de reserva sempre disponíveis. Depois do que aconteceu, não acho que possa acontecer novamente tão cedo, porque eles vão puxar o gás, é o que eles já estão a fazer. As baterias são muito caras, extraordinariamente caras, não são as de um telemóvel, são monstros, toneladas de lítio. E esperar tudo das centrais de ciclo combinado… pois é difícil porque emitem CO2 e devemos eliminá-las. Está difícil.

 

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O entrevistado:  Antonio Turiel [1970 – ] é um cientista espanhol, investigador licenciado em Física e Matemáticas e doutorado em Física Teórica pela Universidade Autónoma de Madrid.nÉ investigador científico do Instituto de Ciências do Mar do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC). (mais info aqui)

O entrevistador:  Daniel Galvalizi é um jornalista espanhol, licenciado em Ciências Políticas pela Universidade Rey Juan Carlos e mestre em Jornalismo. Além do Naiz, colabora também com outros media como El Salto, O Estadão.

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