CARTA DE BRAGA – “dos donos de tudo aos kits de quase nada” por António Oliveira

 

Talvez seja de Eurípedes, poeta grego do séc. V a.C., a sentença que hoje poderíamos atribuir a uns poucos, que fazem o possível para tornar dramática a vida de alguns milhões neste planeta, ‘Os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir’; esta frase tem sido usada por muitos dos que, como ele, abordaram o tema da tragédia dos vencidos.

Convém não pensar que me estou a referir apenas aos ‘donos’ do poder, do ouro ou dos povos, por estarmos a viver tempos em que ‘o outro’, o que também vive a nosso lado, com quem partilhamos o modo de estar e a comunidade, parece estar (ou estaremos nós?) a recusar o nosso tipo de vivência, a ser rude e grosseiro, a olhar e deixar de lado o meio ambiente, as cenas de violência contra as minorias, os genocídios de Gaza ao Sudão e os milhares e milhares de desamparados, a que os tais ‘donos’ dão origem.

Parece estarmos a chegar a um nó, daqueles com que todas as civilizações já se encontraram ao longo dos séculos –muitos não concordam com o caminho comum e exigem o seu direito a serem diferentes, até aqueles que não respeitam os padrões de virilidade ou feminilidade– levando mesmo à criação de leis específicas, para além das ideologias, quaisquer que elas sejam.

Zygmunt Bauman, o filósofo e sociólogo polaco afirmou ao ‘Publico.es’, numa das suas últimas entrevistas, em Novembro de 2017, o que aparentou ser uma contradição, ‘Para os que foram abandonados, os bárbaros são os salvadores’. Mas Bauman salientava já então, ‘Estamos a assistir ao desventrar dos princípios da democracia que pensávamos intocáveis, embora não creia que esse termo vá desaparecer como designação de um ideal político; mas para os desiludidos da civilização, os bárbaros são os salvadores. Em alguns casos, é o que eles próprios tentam fazer crer, para convencer os crédulos de que é esse o seu caso’.

Nesta altura posso avocar o filósofo, sociólogo e linguista norte-americano Noam Chomsky, numa entrevista dada ao ‘El Viejo Topo’ em Julho de 2024, ‘O chamado capitalismo é basicamente um sistema de mercantilismo corporativo, com vastas tiranias privadas, exercendo controle sobre a economia, sistemas políticos e vida cultural e social, em cooperação com estados poderosos, que intervêm maciçamente na economia nacional e na sociedade internacional’.

E Chomsky acrescenta em modo de explicação, ‘Isso é dramaticamente verdade nos EUA, apesar da maneira como eles mascaram isso. Os ricos não estão mais ansiosos do que antes, para obedecer à disciplina de mercado, não importa o quanto a defendam diante da população’.

Mas por cá, por este bocado de terra encostado ao mar, descobrimos hás dias, numa quase morna tarde Abril, como se constrói todo este clima –estamos a habitar um mundo que se aproxima a velocidade estonteante, da que alguns dizem, perfeição tecnológica– mas que não tem nem pretende criar, espaço vital para os valores e atitudes sociais e solidárias ao qual, sem dúvida, a maioria voltará.

E, ainda Chomsky, ‘A linguagem, é uma das poucas facetas distintivas dos seres humanos, sobre a qual muito se sabe. Temos fortes razões para acreditar que todas as línguas humanas possíveis são muito semelhantes. A razão é que a natureza humana que fundamenta o desenvolvimento da linguagem, permite visões muito restritivas, restrições que tornam possível que um sistema rico e complexo de expressão do pensamento, se desenvolva de maneira semelhante, com base em experiências rudimentares, dispersas e variadas’.

Como afirma um outro veterano cronista, ‘O mundo dos gigantes digitais multibilionários não é infalível. Também falha e não convém que nos deixemos levar por uma tensão que nos é completamente estranha’.
Mas à cautela arranje um kit para chegar até à semana que vem.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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