A Carta de hoje não passa da adaptação ao nosso modo de ser e estar, aqui, neste cantinho ocidental da Ibéria, de um escrito de um antigo jornalista, correspondente internacional e escritor, dirigido ao novo Papa, e subordinado ao título ‘Bem-aventurados’. Saliento alguns títulos e parágrafos, mas tenho o cuidado de os explicar apontando as semelhanças do nosso país.
Trata-se de um escrito de uma franqueza extrema, pela maneira como se trata a si mesmo e a todos os que –conhecidos ou não conhecidos– com ele assistimos e estamos a aprender qual a sua missão neste mundo, como Papa; e escreve sem reticências nem subterfúgios ‘Santidade, aqui estamos: os mansos da Terra. Pessoas que engolem tudo, que dão a outra face às chapadas do poder e das corporações, que se humilham frente a qualquer ofensa’.
E atreve-se a dar mesmo alguns conselhos, ao recomendar atenção para algumas das coisas que se foram e vão dizendo por todo o lado, bem como por não sermos muito de ir à missa, a não ser a dos casamentos, dos baptismos e a dos funerais, e por também não pouparmos nas blasfêmias, pois se o não fizermos na altura, corremos o risco de ficar sem vocabulário.
Mas pede ao Papa para recordar o ‘Sermão da Montanha’, conforme as palavras de S. Mateus, ‘Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra’. De acordo com os exegetas, os especialistas da interpretação, histórica e gramatical, tais palavras querem dizer apenas, ‘Os humildes e gentis, que não se dão à violência nem à ira, serão abençoados e receberão o reino de Deus, frequentemente comparado à herança de uma terra’.
Mas o escrito também salienta, ‘Somos sempre mansos, mesmo que nunca herdemos nada’ e, depois, chama a atenção para o dia a dia de todos, para os transportes públicos, para os serviços de saúde e postos de previdência social, para a educação e para os atrasos intermináveis em tudo e, ‘Para quem tem um caroço estranho no peito e o seguro marca a consulta para daqui a dois anos, e não se vê senão mansidão; em todo o lado fica um silêncio, que é quase equivalente a um “Louvado seja Deus”.
E volta a repetir a ideia com que começou o seu escrito, ‘Santidade, aqui estamos: os mansos da Terra. Pessoas que engolem tudo, que oferecem a outra face às chapadas do poder e negócios, que são humilhados em qualquer ofensa. Em resumo, não é possível ser mais abençoado’.
Mas o último parágrafo daquele escrito, Enric Gonzaléz, escreve ‘Por fim, peço a Vossa Santidade que reze por nós. E rogai pela nossa salvação. Porque, Santidade, somos tão mansos que estamos quase a ficar idiotas!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor