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Dedico o trabalho deste texto que me foi de difícil tradução ao Boaventura Sousa Santos, um homem hoje academicamente silenciado num processo que continua por esclarecer, processo este que, seja qual for a sua conclusão, reflete a crise que atravessa as Instituições Universitárias. Júlio Marques Mota, 17/05/2025 |
10 min de leitura
A minha leitura de textos difíceis
Palestra de James Bradford DeLong
Publicado por
em 15 de Abril de 2025 (original aqui)
Da época em que lecionei o curso de História do Pensamento Económico “Smith, Marx e Keynes”, curso criado por Ravi Bhandari…
NOTAS DE AULA: Sobre a leitura de livros grandes e difíceis…
O guru de sistema de conhecimento e ciência cognitiva, Andy Matuschak, escreveu um emocionante texto intitulado Porque é que os livros não funcionam <https://andymatuschak.org/books/>, a propósito de grandes livros difíceis que levam de seis a nove horas cada para ler:
O leitor já alguma vez teve em mãos um livro… surgiu… [e] descobriu que absorveu o equivalente a algumas frases?… Acontece comigo regularmente… Alguém faz uma pergunta básica e típica de investigação … [e] eu simplesmente não me consigo lembrar dos detalhes relevantes… [ou] percebo que nunca entendi realmente a ideia… embora certamente achasse que entendia… percebi que pouco tinha absorvido e percebido até àquele exato momento…
No entanto, ele continua a dizer:
Algumas pessoas adquirem conhecimento a partir de livros… as pessoas que realmente pensam sobre o que estão a ler … Os monólogos internos desses leitores são do tipo : “Essa ideia faz-me lembrar de…”, “Esse ponto entra em contradição com …”, “Eu realmente não entendo como…”, etc. Se eles escrevem algumas notas, não estão simplesmente a transcrever as palavras do autor: eles estão a resumir, a sintetizar, a analisar. …
Mas:
Infelizmente, estas táticas não se adquirem facilmente. Os leitores precisam de aprender estratégias reflexivas específicas… como executar os seus próprios ciclos de retroalimentação… compreender a sua própria cognição… isto é, o que envolve a aquisição, processamento, utilização e armazenamento de conhecimento, . [a que] a ciência da aprendizagem chama de “metacognição”… É desafiador aprender esses tipos de competências, e muitos adultos não as possuem…
Estes pontos são de grande relevância para quem estuda, para vocês alunos da UC Berkeley que frequentam a disciplina “Econ 105: História do Pensamento Económico: Vivemos num Mundo Smithiano, Marxista ou Keynesiano?” Pois o cerne do curso é a leitura assistida de três grandes livros e extremamente difíceis de digerir: “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, de Adam Smith, “O Capital”, de Karl Marx, e “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de John Maynard Keynes. Na verdade, a principal tarefa de uma universidade moderna bem-sucedida é ensinar as pessoas a ler livros como estes.
Todos estes são grandes livros, difíceis, falíveis no que anunciam, incrivelmente perspicazes e geniais. Cada um deles contém muita coisa certa. Também contêm muita coisa errada. Marx, em especial, erra com frequência. Mas mesmo onde ele erra, erra de maneira produtiva — lê-lo torna quem o lê ainda mais inteligente, e talvez especialmente naquilo em que o leitor discorde, e onde a história, desde que ele escreveu, provou que ele tinha pouca noção do que realmente estava a acontecer no mundo em seu redor.
De facto, pode-se dizer que uma das poucas competências-chave verdadeiramente importantes que nós aqui na universidade devemos ensinar — o nosso equivalente ou da tríade medieval de retórica, lógica, gramática ou da quadrilogia de aritmética, geometria, música e astrologia — é explicar como ler e absorver um argumento teórico feito por um livro difícil, valioso e imperfeito.
As pessoas precisam de compreender o que é um argumento, e a única maneira de o fazer é realmente analisá-lo — lê-lo e tentar entendê-lo.
As pessoas precisam de ser capazes de ver a diferença existente entre um argumento e uma afirmação.
As pessoas devem ser capazes de fazer mais do que simplesmente dizer se gostaram ou não da conclusão: elas precisam de ser capazes de especificar se o argumento é coerente dadas as premissas e ainda de especificar quais são as premissas, e onde é que são as próprias premissas que precisam de ser postas em causa.
As pessoas precisam de aprender que, embora seja possível estar em desacordo, é preciso ser capaz de especificar porque é que e como é que se está em desacordo.
As consequências da leitura superficial não são académicas. Quando perdemos o hábito da leitura profunda, perdemos:
- A capacidade de seguir longas cadeias de argumentos.
- A humildade cognitiva que decorre de se ter outra visão de mundo.
- A inteligência emocional que surge da empatia com outra voz.
- A capacidade de manter ideias em tensão — de gerir a ambiguidade e contradição.
Sem isso, o discurso público sai prejudicado. A política sai prejudicada. A democracia sai prejudicada. Porque o espaço em que pensamos juntos — através do tempo, da tradição e da perspetiva — é reduzido ao que corresponde a uma reação instantânea, eventualmente polémica, da realidade atual.
Portanto, a principal tarefa é ensinar às pessoas a lerem livros difíceis.
Ensinar às pessoas cinco factos sobre a perspetiva teórica de algum pensador é secundário: esses cinco factos não permanecerão na sua memória ao longo dos anos. Ensiná-las a ler livros difíceis permanecerá com elas ao longo dos anos. Saber o que fazer com um livro que apresenta um argumento importante, interessante, mas também com falhas — essa é uma competência fundamental. Pode-se assistir a uma conferência. Pode-se ler um resumo. Mas, a menos que cada um de nós se sinta com o livro inteiro presente, não fica a saber como é que aquele pensador pensa — apenas o que ele disse. No entanto, não são os resumos em tópicos do conteúdo de A Riqueza das Nações que importam quando se lê este livro, mas sim a sintonia da voz interior do leitor num diálogo inspirado na sua representação mental de tipo sub-Turing da mente de Adam Smith que o leitor consegue imaginar a nível cerebral como um computador [no caso, com a combinação do molde intelectual do leitor criado ao longo do tempo e do saber adquirido com a leitura de Adam Smith].
A competência-chave que estamos a tentar ensinar — e será a competência -chave tanto no século XXI como em qualquer outro século antes — não é a “multitarefa”. É, em vez disso, a capacidade de utilizar de forma sustentada e contínua uma visão de mundo diferente, que cada um de nós pode então testar em relação à sua própria visão.
Esta é uma atividade profundamente sintética. Vai para além da absorção de “conteúdo”. Requer empatia, lógica e criatividade. Ler é uma disciplina, uma disciplina que gera ensinamentos não apenas sobre o livro, mas sobre cada um de nós mesmos e das próprias nossas hipóteses não examinadas. Esse processo exige tempo, paciência e atenção. E nenhum destes elementos é favorecido pela cultura digital contemporânea. Vivemos num mundo concebido para a distração — um mundo que nos leva continuamente a clicar, deslizar, folhear e fazer desfilar. Nesse ambiente, ler um livro de 600 páginas de Adam Smith não é apenas difícil. É um ato de resistência. Mas é um ato de resistência necessário se cada um de nós quiser tornar-se o mestre das ideias com que se depara, em vez de ser escravo delas.
Portanto, no início deste curso, as pessoas precisam de ler A Riqueza das Nações e, para fazer isso bem feito, precisam de aprender a ler A Riqueza das Nações. Elas precisam de ler os Livros III, IV e V para ver como Smith usa e qualifica o sistema teórico que construiu. Mas, acima de tudo, as pessoas precisam ler os Livros I e II, que constituem o sistema teórico central de Adam Smith, simultaneamente como exemplo de um poderoso argumento analítico, e também porque, a menos que entenda os Livros I e II, não compreenderá a ideologia mais poderosa do mundo hoje.
O argumento: é deslumbrante. Com Adam Smith, pode-se ver como ele parte de algumas premissas e as desenvolve até chegar às suas conclusões. Partindo das suas premissas sobre a natureza humana, Adam Smith deriva a sua teoria do mercado como um sistema que tem a sua própria lógica: o mercado leva as pessoas a fazerem coisas que de outra forma não fariam, e assim as incentiva a agir, coletivamente, para alcançar resultados que ninguém isoladamente previa. Desde 1800, quase todas as outras posições importantes em teoria social nos atraíram para ele ou tentaram minar as posições de Adam Smith.
Mas para que a leitura de A Riqueza das Nações funcione, seja benéfica para quem a lê, é preciso saber ler bem o livro. Isso significa que é precisa evocar uma representação sub-Turing [uma representação formal e lógica] do pensamento do autor na nossa própria mente e, então, argumentar com ela.
Então, depois de A Riqueza das Nações, de Smith, passamos para O Capital, de Marx e para a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de Keynes. E sugerimos que o leitor se concentre no “meta” [1] e na medida do que lhe for possível: não é tanto a capacidade de responder à pergunta “o que é que Marx pensa sobre X?” que nós queremos que o leitor compreenda, mas sim “como é que descubro o que Marx pensa sobre X?”, que é o grande objetivo aqui. Não se lê O Capital ou A Teoria Geral em busca de respostas; lê-se para iniciar uma conversa com Marx ou com Keynes, uma conversa que é conduzida em grande parte na própria cabeça de cada um de nós. E não se deve considerar que o leitor tem de estar de acordo com esses livros. O leitor deve saber questioná-los.
Acompanharemos cada autor durante cinco semanas. O leitor senta-se com um autor ao lado, com um conjunto de ideias, com o seu método analítico, com a sua visão de mundo durante semanas. Isso é resistência cognitiva. Livros grandes e difíceis não são “conteúdos”. São treino, são formação, eles desenvolvem a nossa capacidade cognitiva.
Recomendamos um método em dez etapas para ler estes grandes livros:
- Determine previamente o que o autor está a tentar alcançar com a obra.
- Oriente-se de modo a tornar-se o tipo de leitor a quem o livro se dirige — o tipo de pessoa capaz de entrar em sintonia com os argumentos apresentados.
- Leia o livro ativamente, tomando notas. Leia-o primeiro com empatia. Compreenda-o antes de o estar a julgar.
- “Trabalhe duramente” (Steelman) a argumentação do autor, reformulando-a para que como leitor o considere o mais convincente e claro possível. Confie no autor durante 200 páginas. Se o leitor não consegue reconstruir o argumento de um autor como ele o reconheceria, você ainda não está pronto para o criticar.
- “Eu digo aos meus alunos — Encontre outra pessoa — geralmente um colega com quem se dê — e encharque-o de tédio fazendo-a ouvir a sua versão “blindada” do argumento. Você deve testar os seus argumentos como se fossem os seus.
- Volte a ler o livro, faça uma segunda leitura com simpatia, mas não de crente
- Então estar-se-á em boa posição para descobrir quais podem ser os pontos fracos dessa versão do argumento mais forte possível.
- Teste as principais afirmações e interpretações tendo em conta o mundo real: elas realmente fazem sentido e estão situadas no contexto do mundo como ele realmente é?
- Precise com clareza o que você pensa do livro como um todo.
- Depois vem a tarefa de consolidar a sua interpretação, a sua leitura, consolide as ideias que tem em mente, para que a sua interpretação se torne parte da sua panóplia intelectual para o futuro.
Siga este processo e a sua leitura tornar-se-á ativa.
Então o leitor tem a maior probabilidade possível de ter agarrado, de ter compreendido, de ter endogeneizado, os livros lidos— de ser depois capaz de apresentar exemplificações computacionais, tipo máquina de Turing, do pensamento de Adam Smith, Karl Marx e John Maynard Keynes e então utilizáveis no seu quadro intelectual agora robustecido (no seu wetware).
Se o leitor conseguir fazer isso, poderá estar mais perto de ser tão inteligente quanto eles.
E, ao mesmo tempo, ficará suficientemente conhecedor dos seus pontos fracos e dos seus limites para poder ser mais sábio do que eles.
Para o ajudar neste processo, compilamos 150 perguntas e respostas — 50 sobre Smith, 50 sobre Marx e 50 sobre Keynes — que achamos que o leitor deve rever e aprender como fazendo parte da endogeneização ativa na sua mente do pensamento desses três autores.
“Mas”, o leitor pode muito bem dizer, “simplesmente aprender essas perguntas e respostas dá-me a capacidade de repetir fórmulas verbais como os papagaios. Queremos mais: queremos um mínimo de conhecimento de factos, termos e conceitos; e, idealmente, queremos deles uma compreensão profunda”.
É certamente verdade que há muitos que conseguem repetir fórmulas verbais, mas não têm conhecimento de factos, termos e conceitos. É certamente verdade que há muitos que têm conhecimento de factos, termos e conceitos, mas que deles não têm uma compreensão profunda. Mas não conheço ninguém que tenha uma compreensão profunda de uma disciplina e não tenha conhecimento de factos, termos e conceitos [que lhe estejam ligados]. E aqueles que conhecem os factos, termos e conceitos de cor são os melhores em repetir fórmulas verbais.
Como diz Jon Steinnson, o nosso vice-presidente do Departamento de Economia: “Pode-se ficar sentado a ouvir, e isso não tem nenhum sentido” — está-se, na melhor das hipóteses, a repetir fórmulas verbais — “até que um dia se descobre que há um sentido”. Um dia, a rede de fórmulas verbais interligadas tornar-se-á pelo menos o início do conhecimento e, esperançosamente, algum dia, o início de uma compreensão profunda.
Estas perguntas e respostas são uma forma de fazer com que o leitor faça as suas próprias perguntas ao texto e o ouça dar-lhe as suas respostas — de fazer com que faça a sua própria leitura ativa. Se fizer isso de forma correta, livros grandes e complexos tornar-se-ão para si o que se tornaram para o diplomata e cientista político renascentista Maquiavel, que escreveu em <http://www.j-bradford-delong.net/Politics/Vettori.html> que os seus livros eram:
homens antigos… [que] me recebem… [com] afeto…. Eu… falo com eles e… pergunto-lhes a razão das suas ações; e eles, na sua gentileza, respondem-me; e por quatro horas não sinto tédio, esqueço todos os problemas, não temo a pobreza, não tenho medo da morte…
E assim, antes de começar a lê-los à noite, ele vestia-se: “[tirava] as roupas do dia, cobertas de lama e poeira, e vestia trajes régios e cortesãos…” E depois, convocava os autores na sua biblioteca para conversarem com ele. Invocar o fantasma de John Maynard Keynes como uma forma de necromancia — é uma técnica intelectual muito poderosa. Treinar-se a ler de forma ativa é treinar-se para se tornar um interlocutor competente com os mortos. Eis o que é a verdadeira erudição.
Em última análise, ler livros antigos, grandes e difíceis não é um ato de nostalgia. Trata-se de se tornar… O que cada um de nós é, isso é moldado por aquilo a que cada um prestou atenção. Se o leitor nunca mantém a atenção, então, nunca mantém a identidade. E se o leitor não consegue discutir com os outros — estejam eles vivos ou mortos — não conseguirá então refinar os seus conhecimentos.
(A parte de Maquiavel “não tem medo da morte”? Quando Maquiavel escreveu esta carta, a República de Florença para a qual ele havia trabalhado havia sido derrubada pela dinastia Médici, e ele estava com razão com medo de que de que eles decidissem prendê-lo, torturá-lo e executá-lo.)
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[1] N.T Conceito presuntivo necessário para a dedução ou conceptualização racional.
Bradford DeLong, Professor of Economics at the University of California, Berkeley, is a research associate at the National Bureau of Economic Research and the author of Slouching Towards Utopia: An Economic History of the Twentieth Century (Basic Books, 2022). He was Deputy Assistant US Treasury Secretary during the Clinton Administration, where he was heavily involved in budget and trade negotiations. His role in designing the bailout of Mexico during the 1994 peso crisis placed him at the forefront of Latin America’s transformation into a region of open economies and cemented his stature as a leading voice in economic-policy debates.


