UMA HISTÓRIA REAL – por Adão Cruz

UMA HISTÓRIA REAL

por Adão Cruz

Quando nasceu, trazia entranhados em si dois grandes pecados: o pecado original e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira. Para além disso, fora parido quase moribundo. Imagine-se o terror de sua mãe que já o via a arder no fogo do inferno. O pai, mais racional, não tinha assim tão maus pressentimentos. Para ele, Deus não seria capaz de condenar, e logo com penas eternas, um ser indefeso, pelo simples facto de a pia baptismal distar três quilómetros do local de nascimento.

Pegaram na mulher mais à mão e no homem mais ao pé, embrulharam num cueiro este escarro de gente e correram a sete fôlegos em direcção à Igreja. Ambos conheciam a gravidade do pecado original. “As almas dos que morrem em pecado mortal ou apenas de pecado original descem ao inferno”, anunciava o Concílio de Florença em 1439. Todos sabiam que o baptismo era a única terapêutica que salvava e apagava o pecado original. Se chegasse à pia baptismal com vida, não seria este pecado, marca da infâmia do seus longínquos e primitivos antepassados, que o levaria à condenação eterna. Quanto ao outro, o pecado de amor, o pecado de sua mãe, nada constava na tradição que o considerasse passaporte directo para as profundas, embora fosse exactamente igual ao primeiro, mas muito mais recente. No mínimo, em cima do outro, agravaria, certamente, a sentença divina. Portanto, as perspectivas não eram animadoras.

Na correria para a salvação, nada mais dominava o pensamento dos padrinhos, ali arranjados à pressa, senão o terror. Já com alguma idade, esse esperançoso par lembrava-se de ter ouvido da boca de um padre velhinho, de quem se dizia ser pai de onze filhos, que um papa chamado Bento XIV e outros seus sucedâneos aprovaram o baptismo de fetos e abortos, bem como dos fetos das mulheres grávidas mortas, aos quais faziam chegar a água benta através de um sifão especial ou de uma cesariana. O medo era tão grande que chegaram a arranjar fórmulas especiais para baptizar abortos ainda sem forma humana ou mesmo aberrações e monstruosidades resultantes, eventualmente, de distrações ou falhas nos cálculos divinos.

Já a meio do caminho da Igreja, os corações dos dois estafetas salvadores quase pararam ao sentirem que nada pulsava naquele montinho de carne. Apertaram-no contra o peito e deram-lhe algumas palmadinhas suaves, não fossem acabar com o sopro de vida em que ainda acreditavam. Aquele minúsculo projecto, à falta de melhor resposta, reagiu com o intestinal ruído que precede ou acompanha uma pequena dejecção de ferrado, o que aliviou um tanto os padrinhos, embora soubessem que esse facto não constituía, propriamente, uma manifestação de vida. No último minuto, provavelmente já no entroncamento onde divergem os caminhos para o céu e para o inferno, o nascituro usou pela primeira vez as cordas vocais, soltando um pequeno gemido que logo se fez choro convulso ao sentir a água benta e fria na cabeça.

Crê-se, hoje, que não fora a água fria, mas o nome que lhe deram, a razão do seu choro. Era como que voltar à estaca zero, uma espécie de restitutio ad integrum do pecado original, tornando inútil toda aquela corrida para a pia da salvação. Os seus gritos devem ter ecoado como ribombante trovão para lá dos séculos, no ex-paraíso hoje deserto, no lugar onde os pais da humanidade condenada, não sabendo para o que servia aquilo que tinham entre as pernas, pagaram com a perda da felicidade eterna o terem-no descobrido.

A força do sacramento venceu e o diabo recuou. Na verdade, o agora filho de Deus sobreviveu. Revigorado com o sopro divino, chegou ao seio da mãe onde algumas gotas de leite lhe seguraram a vida e, sadicamente, o impediram de seguir logo, directamente, sem necessidade de vir a sofrer as provações de todo um futuro incerto e traiçoeiro, para a garantida felicidade eterna.

 

 

Leave a Reply