E agora, Partido Socialista?
O desafio de resistir à extrema-direita e afirmar os seus valores fundacionais e de Abril
por Carlos Pereira Martins
As últimas eleições legislativas trouxeram uma mudança significativa no xadrez político português. O Partido Socialista, após anos no governo, foi ultrapassado significativamente pelo Partido Social Democrata, numa conjuntura que, por si só, já exigiria reflexão interna e reorientação estratégica. No entanto, o verdadeiro sinal de alarme foi outro: a ascensão do Chega como segunda ou terceira força política, com ambições claras de se tornar pilar de uma solução governativa. Perante este novo cenário, o Partido Socialista tem pela frente uma decisão crucial: deve optar por uma postura moderada e quase colaboracionista com o PSD, garantindo estabilidade e afastando o Chega do poder, ou deve afirmar-se com firmeza como força central do regime democrático, recusando ceder terreno político e ideológico a uma direita cada vez mais radicalizada?
Esta pergunta não é meramente táctica; é uma questão existencial para o PS e, mais do que isso, para o próprio equilíbrio da democracia portuguesa.
O Partido Socialista não é apenas mais um partido do sistema — é um dos seus pilares fundadores.
Integra os valores políticos da Revolução de Abril, esteve na origem da consolidação do Estado Social, do reforço dos direitos dos trabalhadores, da universalização da saúde e da educação, da integração europeia e da modernização do país. A sua história confunde-se com a própria história da democracia portuguesa.
E é precisamente por isso que deve resistir à tentação de se tornar um actor secundário num teatro dominado pela retórica da direita e pelas concessões a uma extrema-direita populista, xenófoba e profundamente antidemocrática.
A ideia de que o PS deve agora “dar espaço” ao PSD para governar tranquilamente, como forma de preservar a estabilidade e evitar que o Chega se torne indispensável, pode parecer sensata à primeira vista. Mas é perigosa.
Primeiro, porque pressupõe que o PSD, tal como o conhecíamos, continua imune à tentação da colagem à direita — o que está longe de ser garantido. As ambiguidades, os silêncios e os acenos ao eleitorado do Chega por parte de alguns sectores do PSD sugerem que, se o PS abdicar do seu papel de oposição vigilante mas activa, poderá estar a facilitar a normalização da extrema-direita. E segundo, porque a política, como a democracia, não é feita de equilíbrios passivos. Quem abdica de disputar ideias, perde o direito de as defender mais tarde.
A moderação e o compromisso não devem ser confundidos com passividade ou desistência. O PS pode e deve ser uma oposição responsável — mas firme. Deve saber distinguir entre propostas que são compatíveis com o regime democrático e aquelas que o corroem pelas margens.
A sua oposição ao governo PSD deve ser feita com base em princípios e propostas concretas, não por reflexo partidário, mas porque há uma visão diferente para o país, assente nos valores da solidariedade, da justiça social, da inclusão e da defesa intransigente dos direitos humanos.
Mais do que nunca, é tempo de o PS se afirmar. Não apenas contra o Chega, mas a favor de um projecto progressista, moderno e profundamente democrático para Portugal. Esse projecto tem de ser reconstruído a partir de dentro, com autocrítica, renovação de quadros, maior ligação à sociedade civil e coragem política para assumir posições claras. O PS tem de se reaproximar das bases, das pessoas comuns que o viram, nos últimos anos, transformar-se numa máquina de poder, por vezes demasiado distante das preocupações concretas do quotidiano. Tem de voltar a ser, aos olhos dos portugueses, o partido da liberdade e da justiça social.
Os resultados de uma eleição são isso mesmo: um momento de decisão. Não são uma sentença definitiva. Em democracia, o poder é transitório, e as maiorias mudam — desde que haja quem lute por elas. O PS não deve resignar-se a um papel secundário, nem aceitar que o campo da oposição fique dominado por discursos populistas e reaccionários. O seu dever histórico é outro: resistir, reconstruir e convencer. Reafirmar-se como alternativa. Porque a democracia não se defende apenas nas urnas — defende-se todos os dias, nas ideias, na coragem de dizer não ao oportunismo e no compromisso com o futuro.
É, pois, tempo de escolher: colaborar em silêncio ou lutar com convicção? O PS tem tudo para continuar a ser a grande força de esquerda em Portugal — mas essa escolha não é automática. Exige visão, trabalho e, acima de tudo, fidelidade aos princípios que o fundaram. O povo português saberá reconhecer essa firmeza, como já o fez tantas vezes no passado. Porque quem honra Abril certamente que não perde.


No P S está a passar-se o mesmo que se passou no PPD e no CDS, quando não são eleitos para o poleiro parecem sacos de gatos, lembro-me bem do que disseram os militantes e simpatizantes do PPD sobre o Rui Rio mas penso que mesmo nem sempre concordando com o Rui Rio achei que era o melhor presidente do PPD, assim como o Chiquinho do CDS e mesmo o Pedro Nuno Santos achei que foi o melhor que o PS teve nos últimos anos, sobre o José Luís Carneiro, é um Montenegro em versão PS, melhor? Pior? Vamos ver, agora vou esperar sentado pelas facadas uns nos outros do PS, já começou com o Ascenso Simões.