Dizem que é música contemporânea, mas nem sequer discordo, discuto ou ‘resfolego’, porque, nestas coisas da música, confesso ser apolítico, ao manter as minhas preferências pela Antena 2, que varia entre a ‘gente de quem gosto’ nesse campo ou no da palavra, mas que, uma noite por semana, me ataca com uns ruídos estranhos, a acompanhar instrumentos que gosto de ouvir, mas que ali e de noite, parecem desencontrados, cada um a seguir uma pauta diferente, como se o objectivo fosse mesmo acordar-me de vez.
Acabo por mudar de estação, a ouvir umas músicas, com um palavreado antes e depois que me está bem longe, mas vivi a cena tantas vezes, que até já sei as noites em que não posso ter a companhia do portátil e do minúsculo auscultador, por me poder deixar dormir e acordar com o som de um berbequim ou de um quase igualzinho, de um giz a riscar o quadro negro da minha escola; nunca mais o esqueci e até mesmo a lembrança me irrita.
Devo também uma explicação a quem me ler, pois nestes tempos onde a racionalidade comanda a maioria das decisões, não se podem nunca deixar de lado o papel das emoções na tomada das decisões racionais, como António Damásio vem defendendo há quase três dezenas de anos. Também Ortega y Gasset, defende que as ideias geradas em qualquer altura, se podem transformar, no decurso do tempo, em crenças e hábitos mentais conscientes.
Não é fácil aceitar pela razão, qualquer acto ou atitude que nos choque emocionalmente, nem é fácil aceitar a explicação –mesmo em americano– de tal acto ou atitude, só pelo facto de agradar a uns quantos, proporcionar riqueza a alguns outros, por não ser essa a via do conhecimento, mas apenas um procedimento, ‘Uma função subsidiária dos sentimentos, porque sentir é o início da história, o que inaugura a consciência’, afirma António Damásio.
Não tenho qualquer pejo em afirmar que, aquilo a que alguns chamam música contemporânea –até poderá ser!– se mete com o meu sistema nervoso, por não me deixar cantar no banho, com medo de a água se negar a sair do chuveiro –será contemporâneo o meu cantar?– mas tenho um imenso prazer em ouvir música, sem ser agredido por uma porta a ranger, ou qualquer outro ruído estranho que um compositor qualquer tenha achado por bem incluir, por ser contemporâneo, da mesma maneira que deixei de ir ao cinema depois das ‘pipocas e bebidas de sorver’, barulhos actuais e contemporâneos, mas insuportáveis.
Até vejo e ouço a maioria dos concertos que os media proporcionam, das festas anuais aos Proms ingleses, dos artistas que posso ir vendo, porque ser autêntico dá muito trabalho e ser também muito caro, apesar de ter sempre em mente o que, um dia, escreveu Lipovetsky, ‘É uma tragédia, uma luta que dura a vida inteira, por só chegares à autenticidade se te venceres a ti mesmo’.
Mas a que preço?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor