A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA Uma tentativa de visão a partir dos factos Parte 2 – por António Gomes Marques

A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA

Uma tentativa de visão a partir dos factos

Parte 2

 

por António Gomes Marques

 

Vladimir Putin

 

Michael Stuermer, inicia o seu livro “Putin e o Despertar da Rússia” com uma epígrafe:

«Ao entrar na Rússia, apercebemo-nos imediatamente de que
a ordem social vigente só pode mesmo servir aos russos.
É preciso ser-se russo para se conseguir viver na Rússia,
apesar de, à primeira vista, tudo funcionar praticamente
como em qualquer outro país.
A diferença está nas questões fundamentais.
Marquês de Custine, Journey for Our Time»

Os chamados países ocidentais — conceito curioso, ao incluir a Austrália, a Nova Zelândia, o Japão, a Coreia do Sul, outros países do Pacífico e até Taiwan, território internacionalmente reconhecido como sendo parte integrante da China — deveriam prestar mais atenção a estas palavras do Marquês de Custine (18/03/1790 – 25/09/1857), mas a narrativa ocidental não ouve nada, nem ninguém, os seus mentores consideram-se acima de tudo e de todos, até acima de toda e qualquer divindade de que se dizem crentes.

Passo agora a Vladimir Vladimirovitch Putin.

Quando completou 17 anos, Putin bateu à porta do KGB, em Leninegrado (hoje São Petersburgo), perguntando o que seria necessário fazer para se tornar um dos seus agentes. O oficial que o atendeu aconselhou-o a terminar primeiro os seus estudos, ou seja, concluir uma licenciatura. Os seus pais tinham-no inscrito para se formar em química, mas ele decidiu optar por Direito, pois terá concluído que seria mais apropriado para ser aceite pelo KGB. Aquando da conclusão do 2.º ano do curso, entrou para o KGB.

Adere de seguida ao Partido Comunista. Por ser comunista ou por ser patriota?

É nomeado Director do Departamento do KGB em Dresden, República Democrática Alemã. Depois da queda do muro de Berlim, abandona o KGB, no posto de Tenente-Coronel.

No curso de Direito, teve como professor Anatoli Sobchak, o qual, após a queda do regime soviético, é eleito Presidente da Câmara de Leninegrado/São Petersburgo e nomeia Vladimir Putin como seu Conselheiro.

Em 1996, vai para Moscovo para trabalhar na administração presidencial, com Boris Iéltsin como Presidente da Rússia, assumindo o posto de Adjunto do Chefe dos Serviços Gerais de Fiscalização do Departamento de Gestão do Património Presidencial. Dois anos depois, ascende ao posto de Adjunto do Conselheiro para a administração presidencial.

1998/1999, Putin é nomeado Director do FSB, o sucessor do KGB, ou seja, dos serviços de segurança federal russos. Aquando desta nomeação, Generais ali em serviço, mais antigos do que Putin, contestam a sua nomeação, mas Putin não hesita, corre com eles do FSB, indo buscar amigos seus dos tempos de estudante e de quem não se havia afastado.

1998 é também o ano em que o petróleo cai para os 10 dólares USA por barril, o que vai provocar o colapso financeiro, com o consequente incumprimento no serviço da dívida. É agora que Iéltsin vai nomear Evgeny Primakóv, o autor do relatório que já referi.

O alargamento da OTAN/NATO para Leste acontece; simultaneamente, Iéltsin perde o controlo da situação e, ainda em 1999, Putin é nomeado Secretário do Conselho de Segurança, que acumula com a direcção do FSB.

Em Agosto do mesmo ano, sob o comando de Shamil Basayev, guerrilheiros chechenos invadem o Norte da República do Daguestão e Boris Iéltsin nomeia Vladimir Putin como 1º Ministro. No último dia do ano de 1999, Iéltsin nomeia Putin seu sucessor.

Até se chegar a este momento, com o estado de saúde de Boris Iéltsin a agravar-se, a luta pelo poder pelos que rodeavam o Presidente intensificava-se. Destes, o que parecia mais influente junto de Iéltsin era Berezovsky — auxiliado pelo agora também de nacionalidade portuguesa, Roman Abramovich, no controlo financeiro — e o que parecia com menos hipóteses de ser o sucessor era Putin, sendo também o mais discreto. Conta-se que o Procurador-Geral estava a reunir provas contra Berezovsky e que Putin conseguiu anular o processo.

A incapacidade do primeiro-ministro para enfrentar a rebelião dos chechenos, cujo líder ameaçava fundar um estado islâmico no Daguestão, o que separava a Rússia do Mar Cáspio, levou o Presidente a substituir o primeiro-ministro Sergei Stepashin — que havia sucedido a Primakóv a seguir à tentativa da Duma, dominada pelos comunistas sob a direcção de Zyuganov, de impugnar Boris Iéltsin — e o nomeado foi Putin.

Atente-se no que escreve Michael Stuermer, o professor que foi conselheiro de Helmut Kohl e que, nessas funções, terá assistido a muitos jogos de poder, na obra que dedica a Putin:

“Estes não eram tempos para os fracos de ânimo. O Kremlin afastou Stepashin, que, com a sua má gestão da crise, permitiu que as coisas fossem de mal a pior e, a 9 de Agosto de 1999, nomeou Vladimir Putin primeiro-ministro. Seria ele apenas mais um director dos serviços secretos a chefiar o governo? A Rússia tivera cinco primeiros-ministros em apenas dezassete meses, portanto, porque é que um burocrata do Kremlin, um ilustre desconhecido, haveria de fazer alguma diferença?

A diferença foi estabelecida por Iéltsin, que, aparentemente, fizera de Putin o seu herdeiro. O povo não compreendia bem o facto de o FSB chefiar o governo, mas Berezovsky não tardou a fornecer-lhes uma explicação plausível: «Neste momento de transição, necessitamos de medidas autoritárias que protejam a nossa forma de capitalismo. Esta é a única forma de encontrar uma perspectiva de ordem social democrática».

Algumas pessoas são bem-sucedidas porque surpreendem o mundo, outras vencem justamente por não lhes ser dado o devido valor. Foi o que sucedeu com Putin. A Duma confirmou a sua nomeação sem a pompa habitual. O «enésimo» primeiro-ministro de Iéltsin era visto como uma solução temporária, ninguém o levava a sério e todos concentravam as suas atenções no que poderia vir a seguir.” (1)

A resolução da crise provocada pelos chechenos foi uma oportunidade que Putin não deixou fugir. Volto à obra de Michael Stuermer: “Nesta conjuntura, Putin lançou um ultimato ao presidente checheno, Maskhadov, para que este detivesse e extraditasse os terroristas, caso contrário as forças russas bombardeariam cidades chechenas e reduziriam grande parte da capital — Grozny — a cinzas.” (2)

Maskhadov acreditou e Putin venceu a crise.

É uso dizer-se que a sorte acompanha os audazes, o petróleo estava numa subida constante e a economia russa mostrava uma ligeira melhoria.

Aconteceram as eleições para a presidência em 26 de Março de 2000, e foi o escolhido por Iéltsin a vencê-las, com 52,6%. O comunista Zyuganov conseguiu 29,4% e Grigori Yavlinski 5%.

Putin, agora Presidente da Federação Russa, não rejeitou de imediato a aproximação ao Ocidente, nomeadamente à Europa, apresentando-se mesmo como sendo o Presidente de um dos países pertencentes a esse continente.

Inclusivamente, o Tratado de não-proliferação de armas nucleares (TNP), assinado em 1968, que vigora desde 5 de Março de 1970, contando, actualmente, com a adesão de 189 países, os quais ficam obrigados a não transferir as armas nucleares de que são detentores para os países não nucleares, nem a auxiliá-los a obtê-las, era tido por Putin como tendo interesses estratégicos comuns com os EUA, estratégia de que Putin não pretendia afastar-se.

O alargamento da OTAN/NATO terá sido entendido por Putin como decidido antes da sua eleição e, como em 1997 tinha sido assinado o Acto Fundador Rússia-OTAN, cuja aplicação se impunha, o que levou à criação do Conselho Rússia-NATO, Vladimir Putin não quis pôr em causa a estabilização das relações do seu país com o Ocidente.

De facto, a partir de 1993, contrariamente a todas as promessas feitas pelo Ocidente aos governantes russos, a começar por M. Gorbatchov, tinha-se dado início ao alargamento da OTAN/NATO para Leste, com a aderência de vários países, antes pertencentes ao Pacto de Varsóvia, a esta organização, tida como sendo de defesa até à sua intervenção na Sérvia, como já referi, com a OTAN/NATO a dar início aos bombardeamentos em 7 de Maio de 1999.

Putin mostrou a sua insatisfação e traçou a linha vermelha. No entanto, o relatório de Primakóv, que atrás referi, não foi esquecido por Vladimir Putin.

Acontece o atentado do 11 de Setembro de 2001 às Torres Gémeas em Nova Iorque, e, em 25 de Setembro, Putin discursou no Bundestag, o Parlamento alemão, o que constituiu um facto notável, dado que os alemães não têm o costume de dar essa possibilidade a dirigentes estrangeiros. Nesse seu discurso, em alemão, Putin disse, nomeadamente: “A Guerra Fria acabou e o mundo encontra-se num novo estágio de desenvolvimento. Mas, sem uma política de segurança sustentável e internacional, nunca conseguiremos atingir a estabilidade.” E continuou:

“Nós acostumamo-nos demais a viver num mundo dividido em dois. O mundo tornou-se muito mais complexo”. E ainda, “Fizemos bastante na área de segurança. A Rússia é um país europeu amigável e a paz estável é um objectivo para o nosso país, vítima de tantas guerras ao longo dos séculos”. (3)

Os EUA dão, então, prioridade ao combate ao terrorismo, combate esse apoiado por Putin, que considera a guerra na Chechénia também como um combate contra o terrorismo.

Os gestos de Putin em prol das boas relações com o Ocidente não se ficaram por aqui. Permitiu a instalação de bases americanas na Ásia central por causa da guerra no Afeganistão e até a passagem no seu território de material destinado às tropas da OTAN/NATO que estavam instaladas no Afeganistão. Esperava Putin, com tal atitude, não ter problemas com a cooperação com as repúblicas ex-soviéticas, a que os russos chamavam «o estrangeiro próximo», até por nessas repúblicas viverem mais de 20 milhões de cidadãos russos, devendo pensar-se também que nesses países havia instalações militares construídas no tempo da URSS e também instalações industriais, assim como as infra-estruturas de transporte que eram partilhadas pela Rússia com essas repúblicas. A Rússia não podia substituir tudo de um dia para o outro e o bom funcionamento da economia russa a isso obrigava.

Que fez o Ocidente, apesar dos aplausos por parte dos parlamentares alemães? Não se torna necessário acrescentar seja o que for, a não ser dizer que a Europa perdeu mais uma oportunidade de cimentar um progresso e consequente bem-estar para os seus povos. O importante era seguir a cartilha dos EUA de então.

A invasão do Iraque, mais uma vez em violação do direito internacional, aconteceu a 19 de Março de 2003, com o argumento principal, para além de combate ao terrorismo, de ser para eliminar o programa activo para construção de armas de destruição maciça, programa este cuja existência nunca foi provada, como não foram encontradas tais armas no Iraque. Mais uma vez, os EUA avançaram para esta invasão à revelia da ONU, sendo uma das razões o evitar o veto da Rússia, que seria acompanhado, naturalmente, pelo veto da China. De novo, o direito internacional foi violado, mas, como sempre, os EUA parecem estar acima de tudo e de todos, qualquer acção que desenvolvam, por mais violadora do direito internacional que seja, o Ocidente acaba por subscrever e aceitar que tais acções dos americanos são sempre em defesa da Humanidade.

Bem, verdade se diga, desta vez, para além da Rússia, houve países que discordaram da invasão, nomeadamente a França e a Alemanha, mas esta oposição alertou os EUA para a possibilidade de contribuírem para umas relações mais estreitas destes países, ou mesmo da União Europeia, com a Rússia, o que ia contra os interesses dos EUA, ou seja, tal aproximação poderia pôr em risco a hegemonia americana, o que leva o governo americano a apoiar-se nos países da Europa central e oriental, que passa a designar como «a nova Europa», como forma de contrariar o que considera veleidades da França e da Alemanha, reactivando o cordão sanitário entre a Alemanha e a Rússia. (4)

Situemo-nos agora em Setembro de 2005.

Putin terá concluído que o antigo projecto ocidental, particularmente dos EUA, de desmantelar a Rússia era um sonho que se mantinha.

Ora, tem-se como seguro que foi Nikita Mikhalkov, o célebre cineasta, que introduziu Putin no pensamento do filósofo Ivan Ilyin, o qual se tornou numa referência para o dirigente russo.

Nikita Mikhalkov é um nostálgico da Rússia branca e concebe um projecto que vai levar à exumação dos restos mortais de alguns russos célebres, como o general do Exército Branco Anton Denikin, da sua esposa e do filósofo Ivan Ilyin (1883-1947), que são de novo sepultados no cemitério do mosteiro de Donskoi, numa cerimónia com pompa e circunstância, ao lado da sepultura do escritor russo Ivan Chmeliov (1873-1950), que tinha emigrado para França e cujos restos mortais haviam sido levados para a Rússia cinco anos antes e de novo sepultados neste cemitério.

Esta trasladação dos restos mortais destes célebres russos fez “parte de um programa intitulado «Pela reconciliação e união», cujo objectivo é eliminar as divisões sociais e culturais nascidas da revolução de 1917.” (5)

Putin sabe e declara-o por diversas vezes que a cultura russa está profundamente ligada à Europa e a Rússia é também europeia e que faz parte da sua civilização, mas começa a sentir que a Europa está, por opção, cada vez mais dependente dos EUA e, então, terá começado a pensar que há uma outra Rússia que pertence a outro continente, a Ásia, com cujos países tem de manter relações amigáveis, nomeadamente com a China, a Índia, o Japão, assim como os países da Ásia Central, de que também faz parte o Centro-Oeste da China, o Norte do Irão e o Cazaquistão, o Quirguistão e o Uzbequistão, começando o sonho eurasianista, uma velha corrente de pensamento adormecida, mas que nem o estalinismo havia conseguido destruir. Vladimir Putin vai mostrar-se influenciado por este pensamento conservador, direi mesmo reaccionário. Por ter aderido convictamente a tal pensamento ou por tacticismo? O presidente russo é um patriota, mas é também um pragmático, que fará o que for necessário convictamente para defender o seu país, sem olhar a meios?

Um pouco mais à frente voltarei a esta questão, ao pensamento de Ivan Ilyin e a outros defensores do eurasianismo.

Passo agora para 10 de Fevereiro de 2007, para a Conferência de Munique sobre Políticas de Segurança. A presidir à Conferência está Horst Teltschik, que foi, durante bastante tempo, conselheiro em matéria de política externa do Chanceler Helmut Kohl, o qual convidou o Presidente V. Putin a proferir o discurso de abertura.

Durante a manhã, enquanto Angela Merkel discursava, Putin estava atarefado a alterar o texto que os seus assessores lhe tinham preparado, “introduzindo anotações nas margens do texto, abanando a cabeça de vez em quando, como que furioso, e prestando pouca ou nenhuma atenção ao que a chefe do governo alemão tinha a dizer aos líderes mundiais, peritos em matéria de defesa e analistas políticos reunidos naquele salão bem iluminado e provido de ar condicionado.” (Michael Stuermer, pg. 24).

Apesar da fúria que se sentia nele, discursou com calma, mas agora em russo, pouco preocupado em ser simpático como o tinha feito no discurso no Bundestag, em que falou em alemão, língua que domina (como domina o inglês e o francês), falando sem qualquer subtileza diplomática.

Falou do aproveitamento do período crítico que a Rússia tinha vivido provocado pela queda da URSS; em vez de ajudar, o Ocidente tudo fez para garantir a sua hegemonia geopolítica na Europa de Leste e em grande parte da Ásia Central; tinha aproveitado para expandir a OTAN/NATO para a Europa de Leste, sentindo-se a Rússia cercada na sua própria casa. Citou os EUA, mostrando não ter esquecido as declarações que os seus presidentes haviam feito e que não tinham honrado. “Sentia-se desiludido com o Ocidente e acusou as nações ocidentais de continuarem a agarrar-se a estereótipos ideológicos, de continuarem a ter «dois pesos e duas medidas» e de outros aspectos típicos da linha de pensamento dos tempos da Guerra Fria. Porém, a sua fúria tinha como alvo principal os Estados Unidos.” (M. Stuermer, pg. 25).

Acusou mesmo os EUA de pretenderem uma ordem mundial unipolar apenas com um centro de autoridade e de capacidade de decisão que seria comandado pelos EUA. “O modelo unipolar não só é inaceitável, como também é impossível no mundo actual… As acções unilaterais e, amiúde, ilegítimas nunca resolveram os problemas” (palavras de Putin). E não deixou de lembrar que a Rússia e os EUA “ainda mantinham interesses estratégicos comuns.” (M. Stuermer, pgs.26- 27).

Lembrou o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em que a Rússia continuava interessada.

Falou do Kosovo e não deixou de dizer que usaria o seu veto no Conselho de Segurança para evitar a separação do Kosovo da Sérvia, como não deixou de sublinhar a intervenção militar da OTAN/NATO na Sérvia, na Primavera de 1999, especialmente os bombardeamentos que efectuou.

Atacou também o programa de defesa com mísseis que os EUA pretendiam instalar na Europa, com o pretexto de evitar um ataque do Irão.

Pelo que acabo de escrever, pode facilmente concluir-se que o Ocidente estava agora a enfrentar alguém que já se sentia com força suficiente para lançar tais avisos, alguém que havia introduzido mudanças na Federação Russa que os Ocidentais pareciam ignorar ou em que não acreditavam. Foi pena, talvez não vivêssemos os tempos conturbados de agora.

O segundo mandato presidencial de Putin aproximava-se do fim e as interrogações surgiam nos órgãos de comunicação: vai Putin alterar a Constituição para poder continuar Presidente? Ou, se o não fizer, quem lhe vai suceder?

Em 2 de Dezembro de 2007, em Moscovo, no estádio Luzhniki, foi organizada uma manifestação — vivia-se o período pré-eleitoral — que visava claramente a eleição de Putin para um terceiro mandato, o que contrariava a Constituição, manifestação essa que foi transmitida para toda a Rússia e para o estrangeiro. O estádio esgotou a sua lotação, sendo a maioria dos manifestantes constituída sobretudo por jovens, muitos deles com a cara pintada com faixas azuis, brancas e vermelhas, as cores da bandeira nacional da Rússia. Michael Stuermer, que tenho vindo a citar, diz que a campanha eleitoral — para a Duma e, depois para a Presidência da Federação Russa —, onde esta manifestação se inseriu, foi “um referendo organizado para assegurar o apoio maciço ao partido no poder — o Rússia Unida — e, mais importante ainda, ao candidato do Kremlin. De facto, para além do Rússia Unida, que combina o poder com as grandes negociatas, nenhum outro partido teve grandes hipóteses de influenciar a opinião pública. Aliás, os outros partidos foram incomodados de todas as formas possíveis pelos burocratas do governo quase ao ponto de lhes ser efectivamente retirada qualquer hipótese de fazerem eleger os seus candidatos.” (Michael Stuermer, pgs. 193/4)

Curiosamente, o partido que parece gozar de mais liberdade é o Partido Comunista, mas será esta atitude dos mandantes do Kremlin uma forma de fazer reavivar a memória dos russos, lembrando-lhes assim a vida que tinham durante o regime soviético? Deixo a dúvida, já que provas não tenho para o afirmar.

No seu discurso a encerrar a manifestação lembrou o caos em que se vivia antes de ele assumir o poder; agora, o mundo invejava o renascimento russo, salientando Putin que foi a sabedoria, a capacidade e a sua energia que permitiu a mudança positiva que o país vivia, escondendo que o desenvolvimento conseguido se devia, em especial, ao aumento dos preços do petróleo e do gás.

A população vivia já francamente melhor — para o que não seria necessário fazer uma grande distribuição pela população dos rendimentos obtidos para ter essa melhoria, tendo em conta o que pude observar na minha primeira visita à Rússia no final do governo de Gorbatchov, então ainda União Soviética —, mas as necessidades na economia, nas ciências, nas artes, na educação, no desporto, …, obrigavam a canalizar muitos recursos para o seu desenvolvimento e, outra preocupação de Putin, havia que pagar a dívida, onde muitos petrodólares foram consumidos, o que veio a permitir que a Rússia seja hoje talvez o país menos endividado do mundo.

Putin era agora o líder incontestado. Trouxe aos russos o que eles mais prezam: estabilidade! A democracia liberal ocidental significa, para os russos, o caos que viveram durante a presidência de Iéltsin, ao que eles não querem voltar.

A verdade que pude verificar, é que a Rússia que encontrei em 2015 era um país novo, muitíssimo melhor para os russos do que a desgraça que tinha presenciado aquando da primeira visita, no fim da União Soviética, com Gorbatchov ao leme. Nesta primeira viagem, visitei também a Estónia e a Letónia.

Nessa visita de 2015, em que percorri bastante mais da Rússia, fazendo o cruzeiro do Volga, lembro uma jovem a dizer-me que não tinha problemas económicos, tinha alojamento, quando precisava de comprar roupa, comida ou mesmo de viajar dentro da Rússia fazia-o sem problemas; viajar para o estrangeiro é que ainda não conseguia, o dinheiro não chegava para isso, mas tinha esperança de o conseguir dentro de poucos anos.

Eu em Moscovo, na Praça Vermelha (fotografia de Célia Marques)

Recordo, como várias vezes tenho referido, a senhora dos seus 40/50 anos, na Praça em frente do Museu Hermitage, em São Petersburgo, após ouvir algumas críticas que fiz a Putin, me dizer: “Pode pensar o que quiser dele, mas se não fosse Putin a Rússia já não existia”, como já referi.

Aqui tive a conversa com a cidadã russa: “… se não fosse Putin, a Rússia já não existia”
(Fotografia AGM)

Outros cidadãos russos me disseram que Putin lhes devolveu o orgulho. Julgo perceber agora melhor qual o verdadeiro significado da expressão, a que na altura não terei ligado a importância devida.

Se o regime comandado por Putin é muito autoritário, parece não haver qualquer dúvida; chamar-lhe tirano, será abusivo? Voltarei ao assunto.

Assumir como verdadeira a propaganda ocidental de que Putin quer invadir outros países europeus, propaganda que agora parece ser um exclusivo dos países europeus, não é mais do que uma forma de esconderem os sérios problemas com que se debatem, alguns deles a não poderem com uma gata pelo rabo, como é uso dizer-se. Sacrificarem o estado social dos europeus, já bastante débil, vai causar-nos sérios problemas e pode até constituir um suicídio para a incompetente classe política que nos (des)governa.

Se a forma de governar de Putin constitui um problema russo, como se diz no Ocidente, terão de ser os cidadãos russos, de todas as etnias, a resolvê-lo.

Navegando no Volga, no dia do meu aniversário, lendo apropriadamente
Lev Tolstoi: Infância, Adolescência, Juventude
(Fotografia Célia Marques)

Há uma estimativa que diz haver na Rússia mais de 180 etnias diferentes, sendo 77% da população constituída por russos étnicos. Tendo, para além das etnias, também em conta que os russos privilegiam a estabilidade e os resultados obtidos pelos vários governos em Portugal, uma questão se me coloca: poderia a Rússia ter conseguido recuperar da situação caótica que recebeu da União Soviética, agravada na era de Iéltsin, se governada num regime de democracia liberal como conhecemos em Portugal e na União Europeia?

Numa conversa com um moldavo, perguntou-me ele: “Para que serve a vossa democracia? O nosso conceito de democracia nada tem a ver com o vosso”. Lembra-me também a palavra mais referida nos discursos dos democratas liberais ocidentais: Liberdade. Sem pão, para que serve a liberdade? É esta uma interrogação com que tenho vindo a confrontar-me. Gostaria de poder discutir esta questão com os 20% de portugueses que nem sempre têm rendimento para comer as três clássicas refeições diárias.

Entretanto, a Rússia modernizou o fabrico de armas e a sua qualidade levou à necessária reestruturação das suas Forças Armadas e a tornar o país no segundo maior exportador de armamento. Segundo informações correntes, a Rússia produz mais armamento em três meses do que o Ocidente em um ano e, muito dele, altamente sofisticado, particularmente no fabrico de mísseis. Esteve — estará já? — o Ocidente atento a esta realidade russa? Duvido, sobretudo tendo em conta os comentários que ouvíamos nas televisões ocidentais e na voz da nova senhora da guerra, Ursula von der Leyen, bem acolitada pela feroz guerreira anti-Rússia e ex-Primeira-Ministra da Estónia, Kaja Kallas, ‘a nova dama de ferro da Europa’ que declara querer a divisão da Rússia em vários estados, a senhora que é agora a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança. Nem Joana d’Arc mostrou tanta coragem! A senhora ainda vai conquistar a Rússia e submeter a sua população ao seu jugo. Segundo relatou a imprensa, a senhora Ursula von der Leyen afirmou que os russos se viam obrigados a retirar componentes dos frigoríficos para produzirem algumas armas e que as sanções acabariam por levar a Rússia à derrota. Enfim, a realidade acabará por se impor.

Lembro alguns comentadores dos nossos canais privados de televisão, aquando do início da invasão russa da Ucrânia, a gozarem com as opções dos comandantes russos, tratando-os como imbecis, para além de afirmarem que o material de guerra russo era obsoleto.

Volto a Putin.

Ora o Presidente russo, quando achou necessário, tornou claro que não proporia a alteração da Constituição para conseguir mais um mandato, chegando mesmo a dar a ideia de que se afastaria do poder para passar a gozar de uma reforma que considerava justa.

Dizia-se que Putin não confiava em ninguém, mas os seus homens de confiança, que os tinha e tem, do FSB tinham sido colocados nos lugares necessários para garantir um controlo do imenso país que é a Rússia (uma área, mesmo depois da independência de várias repúblicas, que é o dobro da do segundo maior país do mundo, o Canadá).

Dmitri Anatolievitch Medvedev

Das pessoas mais próximas e em lugares essenciais, apenas Dmitri Anatolievitch Medvedev, 13 anos mais novo do que Putin e também nascido em São Petersburgo, nunca pertenceu ao FSB, mas foi o escolhido para seu sucessor na Presidência, decorrendo o seu mandato de 7 de Maio de 2008 a 7 de Maio de 2012, com Vladimir Putin como Primeiro-Ministro, invertendo-se as posições a partir de 2012, ficando como Primeiro-Ministro até 16 de Janeiro de 2020, data em que renunciou, vindo a assumir o cargo de vice-chefe do Conselho de Segurança da Federação Russa, presidido por Vladimir Putin.

Em meados de 1990, foi Medvedev nomeado Conselheiro do Comité de Relações Exteriores da Câmara de São Petersburgo, por decisão de Anatoli Sobtchak, Presidente da autarquia, vindo Medvedev da Universidade onde Sobtchak tinha sido Reitor e onde Medvedev leccionava. Foi na Câmara de São Petersburgo que Medvedev conheceu Putin, de quem se tornou próximo, acompanhando-o depois para Moscovo, onde se afirmou no círculo político de Iéltsin, vindo depois a chefiar a campanha de Putin para a Presidência da Federação Russa nas eleições de 2000. Não é militante de qualquer partido político, apresentando-se como um democrata liberal (não confundir com os democratas liberais ocidentais), fazendo-se passar por ter uma posição menos autoritária do que Putin, pertencendo à ala liberal do Kremlin, aparentando ser o seu líder, mostrando-se distante, contrariamente a Putin, dos chamados siloviki, ou seja, dos membros do exército, da polícia e dos serviços secretos. (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dmitri_Medvedev).

Putin e Medvedev são inseparáveis; Medvedev sem Putin não seria respeitado e ficaria sozinho no Kremlin, onde Putin é o chefe incontestado do grupo que domina o poder. Medvedev foi sempre leal a Putin e não representa para este qualquer ameaça e não aparecerá a disputar-lhe o poder, o que agrada aos russos, pois estes, como diz Michael Stuermer no livro que tenho citado, “do mais modesto ao mais poderoso, só desejam três coisas: estabilidade, estabilidade e estabilidade.” E lembro, mais uma vez, que Michael Stuermer foi Conselheiro do Chanceler Helmut Kohl e teve oportunidade de conhecer como os senhores do Kremlin se movimentam, a começar por Putin.

Medvedev tinha como projecto candidatar-se a um segundo mandato como Presidente, mas Putin, então Primeiro-Ministro, anunciou que tinha a intenção de voltar a candidatar-se e, assim, voltar à Presidência para um terceiro mandato, correspondendo ao apelo do partido que sempre o apoiou, o Rússia Unida, partido que se foi tornando cada vez mais nacionalista. Medvedev não levantou qualquer obstáculo e passou a apoiar Putin nas novas eleições para a Presidência, embora tenha declarado que não enjeitaria voltar a candidatar-se no futuro.

“O empresariado alemão não é muito dado a demonstrações públicas de entusiasmo. Porém, no final de 2007, a bem relacionada Ost-Ausschuss der Deutschen Wirtschaft, representando a maioria das empresas alemãs activas na Rússia, não escondeu que apoiava o sucessor escolhido por Putin, a opção pela continuidade e a estabilidade.” (Michael Stuermer, pg. 209)

É voz corrente que o Rússia Unida é o partido de Putin, havendo quem diga que ele não é sequer seu militante. Putin mostrava-se distante dos partidos políticos, chegando mesmo a incentivar a criação de um outro partido à esquerda do Rússia Unida, o partido Simplesmente Rússia, que não aparece mencionado entre os 18 partidos políticos registados. Esse distanciamento coloca Putin acima dos partidos, como que retomando a tradição dos czares. Será por isto que apelidam Putin de o Novo Czar? (v. Michael Stuermer, pág. 200).

Anna Arutunyan, na sua obra “A Mística de Putin” (v. bibliografia), referindo-se ao período em que Putin passou de Presidente a Primeiro-Ministro, afirma claramente que é Putin o Presidente do Rússia Unida.

Como já referi, os EUA continuavam a ter a ambição de desmantelar o que restava do império soviético, apesar das garantias que haviam dado a Gorbatchov e a Iéltsin, estando entre essas garantias a não expansão da OTAN/NATO para Leste, promessas que os EUA e os seus aliados — mas os aliados teriam alguma voz nesta questão? Os factos demonstraram que aceitaram — não cumpriram.

A estratégia americana terá sido tornada pública ou assumida a partir da obra de Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard – American Primacy and its Geostrategic Imperatives, publicada em 1997, na qual o autor mostra uma visão para a sobreeminência dos EUA no séc. XXI, considerada brutalmente provocatória.

O autor define a nova tarefa dos EUA: a de se tornar no único árbitro político nas terras eurasiáticas e impedir que possa surgir qualquer poder rival que ponha em causa os interesses quer materiais, quer diplomáticos dos EUA, lembrando que é nessa larga parte do Mundo que não só há mais habitantes, como também a maior parte dos recursos naturais e onde, naturalmente, decorrerá a maior actividade económica que não pode deixar de ter o domínio do império americano. É o grande desafio para os EUA e o seu domínio tem de ser imposto a todos os outros países.

Nesta visão (ou sonho?) de Zbigniew Brzezinski estava a expansão da OTAN/NATO para Leste, incluindo de seguida na organização as antigas repúblicas soviéticas e, por fim, como venho referindo, a divisão da Rússia em pelo menos três estados.

Os EUA, que se afirmam como tendo o domínio global, após a derrocada da União Soviética, não podem consentir que surja uma potência eurasiana que possa desafiar o domínio americano nesta vasta área e que, a ser consentido, se venha a tornar o novo detentor do poder em tal área terrestre, território eurasiático.

A ambição americana não era baseada na realidade que o país vivia. Será que Z. Brzezinski não o sabia?

Emmanuel Todd, na sua obra «Après l’ Empire», escreve a dado momento: “Mas foi Brzezinski que, em 1997, em The Grand Chessboard, se mostrou o mais clarividente, apesar do seu desinteresse pelas questões económicas. Para perceber bem como ele vê as coisas, é preciso virar o globo à nossa frente e apercebermo-nos do extraordinário isolamento geográfico dos Estados Unidos: o centro político do mundo está, de facto, longe do mundo. Brzezinski é frequentemente acusado de ser um imperialista simplório, arrogante e brutal. As suas recomendações estratégicas podem certamente fazer sorrir as pessoas, sobretudo quando aponta a Ucrânia e o Uzbequistão como objectos necessários da atenção dos Estados Unidos. Mas a sua descrição de uma população e de uma economia mundiais concentradas na Eurásia, uma Eurásia reunida pelo colapso do comunismo e esquecida dos Estados Unidos, isolados no seu novo mundo, é algo de fundamental, uma intuição deslumbrante da verdadeira ameaça que paira sobre o sistema americano.” (6)

Ainda da mesma obra, traduzo:

“A indústria americana continua a ser líder em vários domínios: os computadores são o sector mais óbvio, mas poderíamos também mencionar o equipamento médico ou a aeronáutica. No entanto, de ano para ano, assistimos a uma diminuição da liderança dos Estados Unidos em todos os domínios, incluindo nos sectores de ponta. Em 2003, a Airbus produzirá tantos aviões como a Boeing, embora a paridade absoluta em termos de valor só esteja prevista para 2005-2006. O excedente comercial dos Estados Unidos em bens de tecnologia avançada caiu de 35 mil milhões de dólares em 1990 para 5 mil milhões de dólares em 2001, e estava em défice em Janeiro de 2002.

A rapidez com que este défice industrial dos EUA surgiu é um dos aspectos mais interessantes do actual processo. Nas vésperas da depressão de 1929, 44,5% da produção industrial mundial estava nos Estados Unidos, contra 11,6% na Alemanha, 9,3% na Grã-Bretanha, 7% em França, 4,6% na URSS, 3,2% em Itália e 2,4% no Japão. Setenta anos depois, a produção industrial dos Estados Unidos é ligeiramente inferior à da União Europeia e pouco superior à do Japão.

Esta queda do poder económico não foi compensada pela actividade das multinacionais americanas. Desde 1998, os lucros que estas trouxeram para os Estados Unidos foram inferiores aos que as empresas estrangeiras aí estabelecidas trouxeram para os seus respectivos países.” (7)

Os EUA estão agora dependentes de outros países como nunca estiveram, o que Trump e a sua equipa não desconhecem.

Putin e os seus próximos tinham por certa aquela ambição americana e o afastamento da Rússia do Ocidente foi-se acentuando, como os discursos, a partir do de Munique, que atrás refiro, o foram demonstrando. Não havendo aliados no Ocidente, há que os procurar no resto do Mundo, a começar pela própria Rússia e os conservadores defensores de uma Rússia virada para o espaço eurasiático estavam ali à mão. No discurso de Munique, Putin não falava apenas para o Ocidente, era também aos russos que ele se dirigia.

É chegado o momento de falar de alguns filósofos de que Putin se serviu nos seus discursos nacionalistas… ou patrióticos?

Ivan Ilyin

Opositor da Revolução de Outubro de 1917, razão por que foi expulso em 1922 juntamente com outros filósofos que, como ele, integravam o movimento que construía o seu pensamento a partir da tradição do pensamento religioso que se dizia continuador do idealismo alemão, com muita implantação na Rússia. Vai para a Alemanha, onde publica, em 1925, a que será talvez a sua obra mais famosa: Sobre a Resistência ao Mal pela Força, que tem como principal objectivo a luta contra o bolchevismo no seu país e rejeita a não-violência defendida por Tolstoi. A ética cristã, de que está profundamente imbuído, não é violada quando se opõe ao mal mesmo usando a violência.

“Escreve ele: «Toda a história da humanidade se resume no facto de em diferentes épocas e em diferentes comunidades os melhores terem morrido vítimas dos golpes dos piores. E isso continuará a acontecer enquanto os melhores não decidirem opor aos piores uma resistência planeada e organizada.» Como Putin contra os chechenos, contra certos oligarcas como Boris Berezovski, Vladimir Gussinski ou mesmo Mikhail Khodorkovski, contra a NATO e a oposição democrática.” (8)

Logo que os nazis chegaram ao poder, Ivan Ilyin escreve um artigo a falar de «o novo espírito nacional-socialista»; mais tarde, os nazis solicitam a sua colaboração na tentativa de conquistar os emigrados russos para a ideologia nacional-socialista, o que ele recusa, o que leva os nazis a impedirem-no de exercer a sua actividade de professor, fazendo com que ele decida ir para a Suíça em 1938. “Depois da guerra, enumera os «erros» do fascismo e do nacional-socialismo, entre os quais a sua natureza anti-religiosa e anticristã, a criação de um Estado totalitário, de partido único, o nacionalismo extremo, o despotismo. Em contrapartida, saúda Franco e Salazar, que “o compreenderam e tentam evitar esses erros.” (9)

O cineasta Nikita Mikhalkov dedica um filme ao filósofo, onde lhe chama o «mais famoso filósofo russo», o que é um exagero, sobretudo quando pensamos em Nikolai Berdiaev ou Lev Shestov (expulso da Rússia por Lenine).

Diz Michel Eltchaninoff, no livro que venho a referir (v. Notas), que após as várias referências de Putin ao filósofo nos seus discursos, muitos passaram a ler e a citar o filósofo “por tudo e por nada”. Num discurso à Assembleia Federal (que é composta pelos representantes das duas Câmaras; a Duma e o Conselho da Federação), Putin faz uma longa citação retirada da obra de Ivan Ilyin, As Nossas Missões. Acrescenta Michel Eltchaninoff:

“Essa primeira grande citação de Ilyin soa como uma versão da ditadura da lei e da verticalidade do poder, noções promovidas por Putin desde a sua ascensão à Presidência. Recorda-se que, vindo o poder do povo, este deve ser respeitado, não se devendo suscitar os seus sentimentos por meio da coacção. Mas ficamos a perceber melhor a ideia de Ilyin se lermos na íntegra o capítulo do primeiro volume de As Nossas Missões de onde foi retirado aquele excerto. Intitulado «A principal tarefa da futura Rússia» é um texto programático sobre o que acontecerá no país após a queda do comunismo e sobre o que terá de ser feito para evitar o caos.” (pgs. 40-41)

A reprodução das citações deste capítulo podem dar-nos um esclarecimento sobre Putin, julgo eu, que explicará muito da sua acção.

Remeto o leitor para o livro de M. Eltchaninoff, mas não resisto a transcrever parte, a que julgo indispensável para aqueles que não queiram lê-lo. Escreveu Ivan Ilyin: “«Não sabemos quando nem como será interrompida a revolução comunista na Rússia», admite Ilyin. «Mas sabemos qual será a principal tarefa para a salvação e a reconstrução nacional russa: a ascensão ao topo dos melhores — de homens dedicados à Rússia, que sintam a sua nação, que pensem o seu Estado, voluntariosos, criativos, oferecendo ao povo não a vingança e o declínio, mas o espírito de libertação, de justiça e de unidade entre todas as classes. Se a escolha desses novos homens russos for bem-sucedida e acontecer rapidamente, a Rússia erguer-se-á novamente e renascerá em poucos anos. Se assim não for, a Rússia cairá do caos revolucionário para um longo período de desmoralização pós-revolucionária, de declínio e de dependência externa.»

Das palavras transcritas parece-me aceitável tirar a mesma conclusão que tira Eltchaninoff: “Mais do que um programa: um retrato à espera de conclusão… Um pouco mais adiante, Ilyin clama pela construção de uma «nova ideia russa». Esta não pode ser «a ideia do ‘povo’, da ‘democracia’, do ‘socialismo’, do ‘imperialismo’, do ‘totalitarismo’ […]. É necessária uma nova ideia, religiosa na sua origem e nacional na sua espiritualidade. Apenas uma ideia assim poderá revitalizar e reconstruir a Rússia de amanhã».

Quem leu os grandes autores russos — com especial destaque para os maiores: Tchekhov, Tolstoi, Dostoiévski, mas basta ler os contos do primeiro — logo se aperceberá de que a fé na Igreja Ortodoxa é seguida por uma larga percentagem do povo russo, o que nem a repressão estalinista conseguiu eliminar, com Putin a ser o primeiro a sabê-lo e, naturalmente por isso, procurou ter o apoio do respectivo Patriarca, o que foi facilitado já pela eliminação da perseguição por parte de Gorbatchov e pelo apoio dado à igreja por Iéltsin.

É Putin um crente? Sabe-se que assiste ao culto e que tem um confessor particular, não me sentindo eu no direito de pôr em dúvida a sua fé, mas não me admiraria que esta posição de Putin fosse gerada pelo seu pragmatismo, com isso conseguindo um apoio claro da Igreja Ortodoxa Russa. As várias religiões contribuem com um corpo de valores na formação de qualquer pessoa e eu, ateu que sou, reconheço-o sem qualquer problema, tendo sido criado no seio de uma família católica e os primeiros valores que me foram incutidos vieram dessa religião. No seio de uma qualquer comunidade há este tipo de formação, que podemos estender a um país e por aí fora, contribuindo para uma coesão que nenhum país pode menosprezar. Os russos, na sua generalidade, têm essa formação oriunda da religião professada na Igreja Ortodoxa, que pouco difere da Igreja Católica, sendo todos cristãos; com os ortodoxos a basearem-se também na Bíblia e nos ensinamentos de Jesus Cristo, mas diferem dos católicos nos ritos e nas doutrinas, podendo mesmo dizer-se que a grande diferença está em os católicos acreditarem no Papa, o Bispo de Roma, na sua primazia, enquanto os ortodoxos não aceitam a supremacia de qualquer bispo, embora tenham uma especial deferência perante o Patriarca de Constantinopla, que consideram o primeiro entre os seus iguais. Os valores difundidos por uma e outra Igreja são muito semelhantes, não valendo a pena referir algumas diferenças nos símbolos que utilizam, a começar pela cruz. Há, no entanto, uma diferença que aqui penso ser importante salientar: o Papa procura afirmar o seu poder acima dos governantes, pois considera representar Deus na Terra, enquanto os governantes nos países de religião ortodoxa têm poder acima dos Patriarcas e dos Bispos, procurando exercer o seu poder em estreita colaboração com a Igreja respectiva. Assim, sou eu a especular, Vladimir Putin, apresenta-se como um homem de fé, mas repito que não me sinto capaz de dizer se o é ou não, não tendo eu dúvidas que é um homem de Estado e a religião ortodoxa e a colaboração entre as duas instituições é um facto real e, ao que parece, se tem revelado de grande utilidade ao poder russo.

Com a independência dos países de maioria muçulmana integrados na ex-URSS, hoje a percentagem da população muçulmana na Rússia não atingirá sequer os 14%, constituindo várias nacionalidades na Ciscaucásia, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio: adigues, bálcaros, chechenos, circassianos, inguches, cabardinos, carachais e povos do Daguestão (v. Wikipédia), e, ainda, a meio da bacia do rio Volga vivem tártaros e bashkires, sendo a maioria destes muçulmanos. Há que ter em conta, no entanto, para além de considerar que este número de muçulmanos faz com que se considere ser o islamismo uma religião tradicional da Rússia, com património histórico considerável, que há mais de 5.000 organizações religiosas muçulmanas, constituídas por sunitas, xiitas e sufi, enquanto a Igreja Ortodoxa Russa tem quase 30.000 organizações sem tais divisões. Portanto, podemos inferir daqui que a população muçulmana está devidamente controlada pelo poder instalado no Kremlin.

A talho de foice, como é uso dizer-se, os EUA estão em vias de perder esta coesão, que também era oriunda dos valores religiosos, calvinismo e luteranismo, que exigiam aos cidadãos a observação de uma moral económica e social que levou a um grande progresso, hoje não existente na sociedade americana muito por via da acção das seitas religiosas, que se têm multiplicado e que têm vindo, paulatinamente (estou a ser generoso), a destruir tais valores.

Voltando a Putin, julgo poder afirmar que para além de sentir ter necessidade de ter a Igreja Ortodoxa do seu lado, também não descurou ter o apoio da corrente conservadora (com muitos ultraconservadores) adeptos do eurasianismo, que nem a repressão estalinista conseguiu eliminar, apoio este que terá sido obtido, em grande parte, pelos discursos proferidos por Putin com citações de filósofos conservadores como Ivan Ilyin.

Em 2006, Putin volta a citar Ilyin no seu discurso à Assembleia Federal, segundo Michel Eltchaninoff, na obra que tenho vindo a citar: “Insistindo na pertença do exército à sociedade e à nação, insiste: «O famoso pensador russo Ivan Ilyin, reflectindo a propósito dos princípios básicos sobre os quais o Estado russo deve ser construído, observou que o soldado ocupa uma função elevada e honorária. E acrescenta que ele representa a unidade de todo o povo russo, a vontade, a força e a honra do Estado russo.»” (10)

O passado da Rússia está profundamente ligado aos mitos arreigados no povo russo, estando naturalmente formatado por esses mitos e Putin sabe-o, usando-os nos seus discursos, os quais, mesmo quando proferidos no estrangeiro, têm também como destinatários os seus concidadãos, mesmo quando esses mitos estão em contradição com a realidade. O mito que faz do czar um agente sagrado sustentou a monarquia até ao século XX, até que Nicolau II tomou medidas contra as manifestações populares, o que, aos olhos do povo russo, fez dele o mau czar e, como tal, tinha de ser substituído, pois a acção de Nicolau II demonstrou que ele não era o verdadeiro czar, que não era o agente sagrado e, assim, havia que o substituir pelo verdadeiro czar. Quem acabou por substituir o czar foi Lenine, que o povo russo tomou como sendo o agente sagrado de que a Nação necessitava. Quantos russos não olharão hoje para Putin como sendo o bom czar?

Peço aos meus leitores que não sorriam com a minha última interrogação, pensem que, provavelmente, se trata de uma análise real do que se passa na Rússia e que não pode ser descurada pelo Ocidente, ou seja, desprovida de força.

A aposta no eurasianismo

Antes de avançar para cimentar o eurasianismo, Putin não deixou de estender a mão à Europa.

“Em 2011, quando anunciou a próxima criação da União Económica Eurasiática, Vladimir Putin afirmou: «A União Eurasiática será construída de acordo com os princípios universais de integração como parte integrante da Grande Europa». Acrescentou alguns meses mais tarde, num artigo programático intitulado «A Rússia e o mundo em mudança»:

«A Rússia é uma parte integrante e orgânica da Grande Europa, da grande civilização europeia. Os nossos concidadãos sentem-se europeus. […] É por isso que a Rússia se propõe avançar na criação de um espaço económico e humano unificado desde o Atlântico até ao Pacífico.»

Mais uma vez, foi só com a crise ucraniana de 2014, que pôs fim às esperanças de envolver a Ucrânia no projecto da União Eurasiática e provocou um profundo mal-estar com o Ocidente, que o Kremlin abandonou o conceito de Grande Europa em favor do de «Grande Eurásia». De certa forma, poder-se-ia dizer, contrariamente à visão de Zbigniew Brzezínski, que, sem a Ucrânia, a Rússia não deixa de ser um império, mas, de certa forma, deixa de ser europeia.” (11)

Mas nesta sua concepção de «Grande Eurásia», que Putin propõe em um dos seus discursos, não deixa de haver uma diferença em relação ao conceito que havia de «Eurásia», dado que este se ficava por um espaço que correspondia, mais ou menos, às fronteiras da ex-URSS. Putin vai mais longe, o seu conceito de «Grande Eurásia» compreende a Europa e a Ásia com vista à criação de uma Parceria que associaria os países parceiros e das organizações regionais tais como a Organização de Cooperação de Xangai, a ASEAN – Associação de Nações do Sudeste Asiático (Tailândia, Filipinas, Malásia, Singapura, Indonésia, Brunei, Vietname, Myanmar, Laos e Camboja) e a União Europeia.

Seguindo o pensamento de David Teurtrie, que tenho vindo a citar e com quem concordo, Putin age também no sentido de evitar a marginalização que poderia ser provocada, se a Rússia ficasse inactiva, pelo alargamento das estruturas euro-atlânticas, leia-se OTAN/NATO, e a consolidação, que é já um facto, da China como grande potência (será ainda a segunda?) a Leste. Com a concepção putinista de a «Grande Eurásia», a Rússia criaria a sua centralidade em termos geopolíticos e civilizacionais. A aceitação por parte da sociedade russa parece-me ser o mais fácil.

Aproveito para realçar o que me parece uma preocupação de Vladimir Putin, que é a de procurar o apoio maioritário do povo russo, no que incluo a sua invocação como um dos objectivos para a invasão da Ucrânia o facto de querer derrotar as forças nazis existentes naquele país, pois sabe bem que a luta contra o nazismo nunca deixará de ser uma forma muito forte de mobilizar o povo russo. A memória de cerca de 25 milhões de russos mortos nessa luta durante a II Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica, como os russos a apelidam, jamais será apagada da História da Rússia.

Foi criada, entretanto, a Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), através da qual a Rússia se apresenta como garante da estabilidade da Eurásia após a queda da União Soviética, organização esta fundada em Outubro de 2002 por seis repúblicas ex-soviéticas — Rússia, Bielorrússia, Arménia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão —, vindo assim ao encontro do que foi acordado no Tratado de Segurança Colectiva (CST) assinado em Tashkent (ou Toshkent), capital do Uzbequistão, em 15 de Maio de 1992, pela Arménia, o Cazaquistão, o Quirguistão, a Rússia, o Tadjiquistão e o Uzbequistão. O Azerbaijão assinou este acordo em 24 de Setembro de 1993, a Geórgia tinha-o assinado uns dias antes, a 9, e a Bielorrússia em 31 de Dezembro de 1993.

O acordo de 5 anos entrou em vigor em 20 de Abril de 1994. Cerca de cinco anos depois estendeu-se o tratado por mais 5 anos, mas o Azerbaijão, a Geórgia e o Uzbequistão recusaram.

Como acima refiro, em 7 de Outubro de 2002, foi acordado transformar-se o acordo numa Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OSTC), o que foi assinado em Chisinau, ratificado pelos Estados membros, entrando em vigor em 18 de Setembro de 2003.

A Assembleia Geral da ONU, em 2 de Dezembro de 2004, aprovou uma resolução que concedeu o estatuto de observador da OTSC na Assembleia Geral da ONU.

Em 16 de Agosto de 2006, aconteceu a adesão plena do Uzbequistão à organização.

Os países membros da OSTC, reunidos em Moscovo, criaram, em 4 de Fevereiro de 2009, a Força Colectiva de Reacção Rápida (CRRF) para repelir agressões militares, combater o terrorismo, o crime organizado transnacional e o tráfico de drogas, considerando também nas suas competências as situações de emergência.

Um representante da organização, em 3 de Abril de 2009, declarou que o Irão poderia receber o estatuto de país observador na OSTC. (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_do_Tratado_de_Seguran%C3%A7a_Coletiva)

O Uzbequistão regressou à OTSC em 2006, numa situação de conflito com os EUA, no seguimento aos acontecimentos de Andijan, onde, na noite de 12 para 13 de Maio de 2005, houve uma revolta popular que teve início por causa de um processo judicial contra 23 homens de negócios que estava a ser contestado por cidadãos uzbeques desde Fevereiro do mesmo ano. Um grupo de populares, a que as autoridades chamaram comando, assaltou a prisão de alta segurança de Andijan, de onde libertou 2.000 prisioneiros, ocupando depois a sede da Administração Regional fazendo dos funcionários reféns.

Em 13 de Maio, pela manhã, juntaram-se na Praça de Babur entre 2.000 a 3.000 manifestantes a protestar contra as políticas governamentais, que acabaram encurralados pelas forças da ordem, que não terão hesitado em disparar sobre essa multidão, matando, segundo números oficiais, 187 dos manifestantes, embora haja quem diga que esse número se aproximou dos 1.000.

Este acontecimento ficou conhecido como o Massacre de Andijan.

Em 2012, o Uzbequistão anunciou a sua suspensão da OTSC, renunciando deste modo a qualquer tipo de defesa colectiva integrada.

Nem tudo foi fácil, mas por fim parece caminhar bem a nova organização. No plano militar, no terreno estão as forças armadas colectivas construídas tendo por base os contingentes nacionais; a exemplo da OTAN/NATO, há uma obrigação de solidariedade colectiva, o art.º 4.º, igual ao art.º 5.º da OTAN/NATO, que determina que um ataque a um dos Estados será considerado como um ataque a todos; em 2009 foi decidido criar as Forças Colectivas de reacção rápida saídas das forças armadas, das forças especiais e das forças dos Ministérios do Interior dos Estados membros; foram criadas as forças de manutenção de paz com 3.600 homens, que Moscovo pretende que possam sair para o estrangeiro no cumprimento de acções da ONU. Os exercícios de manobras comuns têm-se sucedido, acentuando a necessidade de lutar contra ameaças transnacionais, nomeadamente contra o tráfico de droga e contra as migrações ilegais. O impacto da guerra da Ucrânia não tem afectado a OTSC, sendo a Geórgia e a Ucrânia os países da ex-URSS que têm sofrido ingerência militar por parte da Rússia os que se recusaram a fazer parte desta organização. Há uma atenção especial à tendência ocidental de favorecer as mudanças de regime destes países da ex União Soviética.

Uma questão de que o Ocidente não faz notícia prende-se com uma preocupação que qualquer dirigente da Federação Russa não pode deixar de ter, para o que passo a palavra ao historiador Orlando Figes:

“A Rússia expandiu-se num território plano e aberto sem barreiras naturais. A sua posição tornava-a vulnerável a invasões estrangeiras, mas também dava acesso a influências das potências circundantes — os Cazares, os Mongóis, os Bizantinos, os Europeus e os Otomanos —, com as quais as relações eram definidas pelo comércio. À medida que se foi tornando mais poderoso, processo que devemos datar do século XVI, o Estado russo passou a concentrar-se na defesa das suas fronteiras. Essa prioridade envolveu determinados padrões de desenvolvimento que moldaram a história do país. E teve como consequência a subordinação da sociedade ao Estado e às respectivas exigências militares. As classes sociais foram criadas e juridicamente definidas de forma a beneficiarem o Estado na qualidade de contribuintes ou servidores militares. Traduziu-se também numa política de expansão territorial para tornar mais seguras as fronteiras da Rússia.” (12)

A acção desenvolvida pelo poder russo no seguimento desta percepção que tem mantido ao longo dos séculos é confundida, com intenção ou/e também por ignorância, com a vontade expansionista da Rússia, quando o que este país pretende é manter à sua volta um cordão de segurança, segurança essa que a aproximação da OTAN/NATO das suas fronteiras punha em perigo.

Nas preocupações de segurança para a Rússia está aquilo a que já me referi como o «estrangeiro próximo», a começar nas repúblicas da ex-URSS que se tornaram independentes, assim como o grande número de cidadãos russos que vivem nesses países, em maior percentagem os que vivem na Ucrânia, sobretudo nas zonas que a Rússia diz ter libertado na guerra que ainda se desenrola.

Na área da União Económica Eurasiática, a UEE, lançada no início de 2015, juntando a Rússia, a Bielorrússia e o Cazaquistão, a que se juntaram o Quirguistão e a Arménia em simultâneo, com estes dois últimos países a compensarem a ausência da Ucrânia, união esta que teve alguns entraves por causa do já existente conflito ucraniano. Esta união num mercado comum com a Rússia, permite aos países associados uma certa independência não só em relação à Europa, mas também em relação à China, com quem as trocas comerciais lhes são (eram) altamente desfavoráveis. Há ainda que considerar que o Quirguistão e a Arménia estão muito dependentes das remessas de emigrantes que trabalham na Rússia; para a Rússia, o interesse está não só na manutenção da sua zona de influência, mas também na diversificação das suas exportações, o que lhe é absolutamente necessário até por causa das sanções ocidentais. Mas a vantagem russa não é apenas económica, pois a UEE traz também vantagens nos campos socioculturais e linguísticos, a Russofonia, que também corria o risco de se perder se não tivesse ido em socorro dos russos e pró-russos do Leste da Ucrânia.

Não vou pormenorizar muito mais esta questão por o meu foco ser a guerra na Ucrânia, mas quero chamar a atenção para a preocupação da Rússia na construção e solidificação desta zona eurasiática por saber que deixou de contar com uma boa relação com o Ocidente. Quem vai perder mais? O futuro dirá, mas eu penso que será o Ocidente, especialmente a Europa. Ou será que a Europa, com a política de Donald Trump, por fim, aprendeu que os seus interesses passam por se tornar independente da influência e interesses dos EUA e começar a pensar em si? Tem a Europa, a U. E. em particular, políticos com a necessária competência para isto perceberem? Tem a Europa, e com ela a U. E., discernimento para perceber que há mais mundo para além dos EUA? Tenho sérias dúvidas, mas gostaria de estar enganado. Se este país, os EUA, se quer isolar de todo o resto do Mundo, deixemo-lo isolar-se, o que me parece a única forma de trazer este grande país ao bom caminho.

Com todas estas medidas concretizadas, Putin conseguiu também revitalizar a CEI, a organização intergovernamental regional que envolve 9 repúblicas que antes integravam a ex-União Soviética (República da Arménia, República do Azerbaijão, República da Bielorrússia, República do Cazaquistão, Federação Russa, República Quirguiz, República Moldova, República do Tajiquistão, República do Turquemenistão e República do Uzbequistão), fundada em 8 de Dezembro de 1991, que se seguiu à dissolução da União Soviética.

Para a CEI as vantagens são evidentes, a começar no domínio da segurança, permitindo a criação de estruturas de força dos Estados membros: conselhos de segurança, defesa, interior. Com isto, Putin consegue a criação de uma estrutura de força com os Estados membros: conselhos de segurança, de defesa, do interior, de protecção de fronteiras, resposta a situações de urgência, de anticorrupção, de migrações, de evasão fiscal e outros. A construção de uma interacção das estruturas dos países membros, que vão permitir a troca de informações e de acções comuns, incluindo exercícios militares, entre todos.

A UEE tem uma política de alargamento das suas alianças para além do espaço pós-soviético, tendo-se alargado ao Vietname e ao Irão, concluindo também um acordo do mesmo tipo com Singapura em Outubro de 2019, como já tinha assinado um memorando de entendimento com a ASEAN, estendendo-se assim para o Sudeste Asiático. Estabeleceu também acordo com Israel, Egipto, Índia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos. A Mongólia também faz parte do seu interesse.

Manter um bom relacionamento com a União Europeia obtém um grande consenso no seio da UEE, vontade esta várias vezes manifestada por parte da UEE, o que foi recusado pela U. E., provavelmente com receio de que esse relacionamento não fosse bem visto por parte dos EUA. O resultado está agora evidente para todos.

Construção de um relacionamento privilegiado com a China, sem hegemonia de qualquer das partes, e outros países

Com Mikhail Gorbatchov deu-se de imediato início a uma aproximação entre a Rússia e a China, o que foi mantido e reforçado pelos sucessivos dirigentes chineses, aproximação essa que se iniciou com a resolução do contencioso territorial que vinha de trás.

Um tratado de boa vizinhança de amizade e de cooperação foi assinado e, em 2021, prolongado por Putin e Xi Jinping. Foi também criada a OCS – Organização de Cooperação de Shanghai, que tem entre os seus membros a China, a Rússia e as Repúblicas da Ásia Central, a qual, embora se diga que visa lutar contra o terrorismo, o extremismo e o separatismo, será mais uma aliança entre a China e a Rússia que se contrapõe ao Ocidente, fortalecendo os laços entre estas duas potências e impedirá que a tentativa de Trump de, numa imitação da política Kissinger que reforçou essa separação na altura (lembre-se a visita de Nixon à China a culminar esse objectivo), tenha alguma viabilidade. A aposta dos EUA, arrastando os outros países ocidentais, nomeadamente a Grã-Bretanha, na desestabilização da Ucrânia, da Geórgia e da Ásia Central também tem sido um desastre para a potência americana, que até se viu obrigada a sair de forma vergonhosa do Afeganistão, a somar mais uma derrota às muitas que tem sofrido depois de 1945.

Para além de querer separar a Rússia da China, Donald Trump pretende também lançar a Índia contra a China, como o diz, com conhecimento de causa, Jeffrey Sachs, deixando o aviso para que a Índia não jogue o jogo que a administração americana quer que ela jogue. (13)

A Rússia e a China lutam por um mundo multipolar, no que estão a ter êxito, para o que muito tem contribuído o facto de estas duas potências se mostrarem aos outros países muito mais fiáveis no seu relacionamento do que os EUA, sentimento este que a política de Donald Trump neste segundo mandato me parece ir agravar.

A China mostra assim à Rússia ser um parceiro que irá contribuir para a estruturação da «Grande Eurásia» e o lançamento, em Setembro de 2013, do projecto da Nova Rota da Seda, que no seu início previa contornar a Rússia pelo Sul, acabará por ser fundamental nesse grande objectivo de Putin quando a China, em Julho de 2016, abriu o projecto a todos os países que nele desejassem participar e a Rússia, primeiro temerosa desse projecto, mudou de opinião pesando os prós e os contras, buscando sobretudo o que nele há que lhe possa ser favorável, especialmente no que toca às ligações eurasiáticas, para o que dispõe de uma excelente rede ferroviária. Passo de novo a palavra a David Teurtrie:

“As autoridades russas, conscientes dos riscos envolvidos, reconhecem, no entanto, um certo número de vantagens potenciais nos projectos chineses: a criação de corredores de transporte continentais deveria contribuir para revitalizar a região eurasiática, o que poderia transformar países frequentemente pobres e instáveis, e que representam uma ameaça para a segurança da Rússia, em verdadeiros parceiros económicos. Em termos mais gerais, o reforço do papel económico da Eurásia continental, que está fora do controlo das potências ocidentais, contribuirá para a emergência de um mundo multipolar, tal como desejado por Moscovo e Pequim.

Mas é sobretudo no estabelecimento de ligações continentais China-Europa que o poder russo demonstra que continua a ser uma força a ter em conta. Contrariamente aos primeiros projectos chineses, o corredor ferroviário eurasiático, que está em verdadeiro desenvolvimento, atravessa o território russo. A ligação Cazaquistão-Rússia-Bielorrússia oferece uma série de vantagens: é a rota mais curta entre a China e as zonas industrializadas do Noroeste da Europa e beneficia da rede ferroviária relativamente densa e bem desenvolvida no Norte do Cazaquistão e na Rússia europeia.” (14)

A Rússia tem uma fronteira comum com a União Europeia e com a China e, para além disso, é parte da UEE. Se a isto juntarmos as modernas linhas ferroviárias que facilitam a cooperação com os seus parceiros eurasiáticos, tendo ainda a vantagem, graças à criação com a Bielorrússia e o Cazaquistão de uma empresa comum denominada Aliança Ferroviária Eurasiática, de aumentar assim a capacidade de trânsito entre a China e a U. E., o que faz da Rússia o parceiro ideal, permitindo um crescimento que multiplicou em 5,5 entre 2016 e 2020 e, em 2022, era 6,8 vezes superior.

Depois vieram as sanções à Rússia que impediram o aumento para a U. E., mas não impediram esse crescimento entre a Rússia e a China e os países associados à Rússia.

Em Maio de 2015, Moscovo e Pequim assinaram uma declaração que associou a iniciativa da China das Novas Rotas da Seda à UEE e, em 2018, esta UEE e a China assinaram um tratado económico e comercial de cooperação, a que se seguiu, em 2019, um acordo de troca de informações relativo ao trânsito de mercadorias entre a UEE e a China, para além de a Rússia ver confirmado o papel da UEE nas Rotas da Seda entre a China e a Europa.

O Mundo está em mudança. De unipolar está a transformar-se em multipolar, o que os EUA já não têm poder para evitar; nesta Nova Ordem Mundial têm um papel de primeiro plano a China, a Rússia, a Índia, para citar os que julgo mais importantes.

Outra vitória aconteceu quando a Índia e o Paquistão aderiram à OCS – Organização de Cooperação de Shanghai, que tem entre os seus membros fundadores a China, a Rússia e as Repúblicas da Ásia Central, transformando assim esta organização no equivalente eurasiático à OSCE – Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa. As estruturas de cooperação não ocidentais foram assim reforçadas, o que permite uma estabilidade e uma coesão da «Grande Eurásia». Pequim e Moscovo estão cada vez mais empenhadas na cooperação, o que não facilita a pretensa desestabilização que o Ocidente, leia-se os EUA, pretende na Ásia Central, como impede o desejado isolamento da Rússia, agora um parceiro de peso em toda esta vasta zona, mostrando também aos países do centro asiático que não têm de continuar dependentes apenas da China.

O Mundo multipolar desejado pela Rússia e pela China está em construção e a cimentar-se, não me tenho cansado de o dizer.

Se é verdade que o crescimento repentino da China tem algumas debilidades — a construção em curto espaço de tempo de habitações não foi acompanhada de uma fiscalização da sua qualidade, isto é apenas um exemplo e para não ser exaustivo —, mas não é menos verdade que, em 2003, não havia comboios de alta velocidade na China, mas oito anos depois era o país com a maior rede de alta velocidade do Mundo. Outro exemplo, que devia fazer com que os políticos ocidentais pensassem, tem a ver com a importação de petróleo pela China, dado que essa importação atinge 11 milhões de barris por dia, ou seja, importa o equivalente à produção total da Arábia Saudita, o que explica um pouco como a Rússia tem superado as sanções ocidentais. O que acabo de escrever poder ler-se no artigo «Why China will beat the West – A new supercycle has begun», de Wessie du Toit, de 12 de Abril de 2025, que pode ser lido na publicação inglesa UnHerd, que o meu amigo Júlio Marques Mota me enviou, artigo esse de que transcrevo ainda: “Em 1995, a produção económica da China era um décimo do tamanho da dos Estados Unidos e, em 2021, era de três quartos. Durante o mesmo período, a parte chinesa da produção mundial passou de 5% para 30%. Enquanto apenas um em cada cinco chineses vivia nas cidades na viragem do século, hoje mais de três em cada cinco vivem nas cidades. Esta urbanização foi tão rápida que, entre 2000 e 2010, as aldeias da China desapareceram a uma taxa de 300 por dia.”

Estamos perante factos que o Ocidente finge ignorar, tal é a falta de capacidade para encontrar uma resposta. Então a União Europeia, os seus dirigentes, pateticamente, apenas são capazes de anunciar o rearmamento a toda a pressa, assim como reafirmar o apoio à Ucrânia para que esta prossiga a guerra com a Rússia. Até que a Ucrânia não tenha mais habitantes, os quais têm sido carne para canhão?

A publicação UnHerd, não resisto a transcrever, descreve a sua missão assim:

«Quando o rebanho se dirige para uma direcção, o que fazer? A UnHerd é para pessoas que se atrevem a pensar por si próprias».

Será que os políticos europeus deixaram de pensar por si próprios?

Outras acções fundamentais da governação de Putin

Pretendi dar uma ideia da acção de Putin desde que ascendeu à Presidência da Federação Russa, com um interregno, mais aparente do que real, de 4 anos em que a Presidência foi ocupada pelo seu fiel colaborador Medvedev, o que espero ter conseguido. No entanto, há que falar da recuperação das forças armadas russas e das conquistas no campo económico que permitiram, noutras áreas consideradas fundamentais para consolidar a Rússia como uma das grandes potências mundiais que possa bater-se de igual para igual com os EUA, transformar a situação caótica que recebeu de Iéltsin no que a Rússia hoje é e que a narrativa ocidental, com origem nos EUA, procura adulterar e que, curiosamente, é agora o actual Presidente desse grande país o primeiro a denunciar, declarando mesmo que a Ucrânia nunca poderá ser membro da OTAN/NATO. As voltas que a vida dá, diz o povo.

A falência das Forças Armadas Russas ficou patente na guerra da Chechénia (1994-1996), com a inerente desconfiança que se criou no povo russo. Tudo funcionava mal, desde o armamento dos três ramos até às condições de vida dos militares, naturalmente com excepção do armamento nuclear. Com o acesso ao poder de Vladimir Putin, no ano 2000, a situação começou a mudar, para o que muito contribuiu o aumento substancial do preço de petróleo e do gás. Sou dos que pensam que a sorte se constrói, mas a coincidência do aumento dos preços da energia e a ascensão ao poder não deixa de poder classificar-se como um factor de sorte de Putin. Pode não gostar que se diga isto, mas ele próprio, julgo, terá consciência desse facto. No entanto, havia outras urgências, como uma dívida para pagar, uma das opções tomadas, e a distribuição de alguns benefícios à população, o qual não terá sido grande, mas qualquer benefício teria como consequência o agradecimento dessa população pelos tempos difíceis que viveu e que eu pude observar na minha primeira visita à Rússia, então ainda União Soviética e, não menos importante, o começar a construir uma reserva que pudesse responder a uma possível descida do preço dessa energia. Assim, apenas na década iniciada em 2010 foi possível ao governo russo investir grandes recursos nas forças armadas para ser possível a sua reforma e a sua modernização, o que explica a sua não acção, além dos indispensáveis protestos, na questão do Kosovo, no seguimento do bombardeamento em 1999 por parte da OTAN/NATO na Sérvia, os quais duraram de 24 de Março a 10 de Junho desse ano, o que transformou a organização que se dizia de defesa numa força de ataque, bombardeamentos que foram executados sem a prévia aprovação da ONU, ou seja, à sua revelia, naturalmente para fugir ao veto da Rússia e da China. Esses bombardeamentos tiveram como consequência a retirada das forças iugoslavas do Kosovo e o estabelecimento neste território de uma força da ONU, a UNMIK.

Agora, olhando para a guerra na Ucrânia, verifica-se que as forças armadas russas estão dotadas do mais moderno armamento, tendo mesmo mísseis que nenhum outro país possui e que não poderão ser interceptados. Ao que se sabe, apenas um destes mísseis foi lançado, provavelmente como aviso, guardando-se a sua utilização para um momento em que o conflito entre numa escalada maior? Ou será que a sua quantidade não é ainda muito grande? No entanto, dizem os entendidos, que a Rússia fabrica tanto ou mais armamento em três meses do que os países da OTAN/NATO em um ano, como já referi.

Esta é uma das áreas onde impera o segredo de Estado, o que é compreensível, mas é sempre possível fazer comparações entre a intervenção na Chechénia, na Síria, na Crimeia e agora na Ucrânia para termos uma ideia da transformação a que foram sujeitas as Forças Armadas Russas, embora não possamos deixar de lamentar que estejamos a comparar acções de guerra, com milhares de mortos e centenas de milhares de feridos. Na Ucrânia, uma guerra que se julgava no início entre dois países verifica-se que se trata de uma guerra entre os países da OTAN/NATO e demais países do chamado mundo ocidental e a Rússia, na qual o povo ucraniano tem sido carne para canhão, como não me canso de o dizer.

(continua)

NOTAS

  1. in: Stuermer, Michael, Putin e o Despertar da Rússia, Editorial Presença, 1.ª edição, Julho de 2009, pgs. 61/62;
  2. in: Stuermer, Michael, idem, idem, pg. 63;
  3. in: https://www1.folha.uol.com.br/folha/reuters/ult112u6210.shtml;
  4. in: Teurtrie, David, o. c., pgs. 199/200;
  5. in: Eltchaninoff, Michel, Na cabeça de Putin, Livros Zigurate, Lisboa, 2022, pg. 36;
  6. in: Todd, Emmanuel, Après l’ empire – Essais sur la décomposition du système américain, Éditions Gallimard, 2002, et 2004 pour la Postface, pg. 22;
  7. in: idem, o. c., pg. 98;
  8. in: Eltchaninoff, Michel, Na cabeça de Putin, Livros Zigurate, Lisboa, 2022, pg. 38;
  9. in: Eltchaninoff, Michel, idem, idem, pg.39;
  10. in: Eltchaninoff, Michel, idem, idem, pgs. 40-41;
  11. in: Teurtrie, David, Russie – Le Retour de la Puissance, Dunod Poche, janvier 2024, pgs. 212-213;
  12. in: Figes, Orlando, A História da Rússia, Publicações D. Quixote, Outubro de 2022, pg. 23;
  13. in: https://youtu.be/cwcWh2HiVEA?si=G7VxE3eWaaXqTOis;
  14. in: Teurtrie, David, o. c., pgs.232-233;

 

 

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