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Crónica de um dia de cansaço num país já muito cansado
Coimbra, 30 de Maio de 2025
Um dia incómodo, o meu, entre uma ida ao cinema na segunda-feira à noite em Coimbra, o apanhar de um Uber para me levar à estação do caminho-de-ferro na terça de manhã para ir a um funeral a Lisboa e uma vinda de comboio de Lisboa, no final de tarde de terça-feira, para regressar a Coimbra.
Tudo isto se passa porque morreu uma amiga minha e minha colega de grupo de trabalho nas disciplinas de economia do terceiro ao quinto ano do ISEG entre 1971 e 1973, a Maria Eugénia Pires, a Gena. Recebo a notícia da sua morte no sábado à tarde, pouco tempo depois do seu falecimento, informação dada pelo marido, o Carlos Gouveia Pinto. Este diz-me que me informará depois como e quanto ao funeral. O tempo foi passando e não me dizia nada quanto ao funeral. Domingo à noite, telefono-lhe a perguntar então como é e diz-me que o corpo entrava na capela do Cemitério do Feijó às 10 horas de terça-feira e que seria deslocado para o crematório às 14h 15min. Digo-lhe que vou ao funeral, que não sei que comboio poderei apanhar porque os transportes públicos estão em greve, o que aumenta a pressão sobre os táxis e não sei se apanharei táxi a tempo para o comboio que parte por volta das 8h 40min. Oferece-se para me ir buscar a Lisboa, disse-lhe que ia com um colega nosso e amigo comum, o Mariano.
Foram muitos anos a estudarmos em grupo e éramos um grupo de nove pessoas. Dela e do namorado de então, e depois seu marido, recordo um ato de solidariedade estudantil impressionante. Tínhamos ido em grupo falar com a saudosa professora Manuela Silva para lhe apresentar o esquema de trabalho para a disciplina de que ela era a responsável. Era no final de uma aula e por razões diversas que me escapam a professora estava em franca discussão com alunos presentes na aula que acabara de lecionar. Fomos embora e ficou a Maria Eugénia e o namorado para apresentar o esquema de trabalho à professora e nós fomos para outra aula.
O esquema de trabalho foi aceite e creio termos feito um bom trabalho. Na altura da entrega fomos então todos e surgiu o impensável. A professora só aceitou o trabalho como tendo sido feito pela Maria Eugénia e namorado. Os restantes 7 elementos do grupo ficariam excluídos. Percebemos a posição da professora, o medo de ser apanhada numa situação de oportunismo de estudantes e propusemos-lhe que a discussão do trabalho fosse acompanhada pelo recurso à sebenta sempre que ela o entendesse.
Estávamos seguros do que sabíamos, todos nós, e lamentamos que a professora não tivesse percebido a nossa proposta: poderia percorrer a sebenta toda e ligá-la ao trabalho. Não era fácil propor isto, mas propusemo-lo. Nesta base deveria ter percebido que não se tratava de oportunismo, era preciso estarmos muito seguros do que tínhamos feito e estudado para fazer uma tal proposta. Possivelmente por cansaço não o percebeu e rejeitou-a. Mas a professora Manuela Silva também o deveria ter percebido quando a Maria Eugénia e o namorado, numa atitude de grande dignidade académica lhe dizem: nestas condições somos nós a não aceitarmos discutir o trabalho. Apesar de vítimas de um duríssimo erro incompreensível de Manuela Silva, nunca deixámos de considerar esta professora como uma mulher de elevadíssimo nível intelectual e de elevada estatura moral e, por isso, nunca lhe guardámos qualquer azedume, e falo por todos nós, por aquele seu erro de perspetiva. Mas custou-nos, e muito. Sublinho ainda que estávamos no segundo semestre do 5º ano e, por isso foi-nos mais complicado. Foi sempre visto como um erro, apenas isso.
Curiosamente, dois antes e face a um dos mais duros professores do ISEG de então, Alfredo de Sousa, todo o grupo teve uma atitude semelhante: recusámos entregar o nosso trabalho de TPDE feito no prazo estipulado, enquanto ele não aceitasse o pedido dos estudantes que ainda não tinham feito o seu trabalho de dilatar o prazo de entrega de uma a duas semanas. E Alfredo de Sousa cedeu. Cedeu, o nosso trabalho de grupo foi entregue, foi discutido e tivemos a nota de 18 valores, a classificação mais alta que o Alfredo de Sousa terá dado na vida, segundo me disse a mim e ao Miguel Beleza, anos mais tarde. Por ironia, parafraseando Marx e Hegel diríamos que a História se repete, como tragédia e como farsa. Eram tempos em que a solidariedade entre estudantes ganhava força de lei e era também em nome desse espírito que eu faria tudo o que fosse necessário para poder dizer relativamente a este funeral: Presente.
A Maria Eugénia morreu. Senti profundamente a necessidade de estar presente, presente para uma última e definitiva despedida, presente para acompanhar o colega e amigo desde os primeiros anos de Faculdade na dor da sua própria despedida. Uma dupla necessidade que foi assim satisfeita. Esbarrei com um problema. Tinha de apanhar o comboio Alfa das 8h 40 min na terça-feira de manhã e em Coimbra havia greve dos transportes públicos. E este texto é a crónica de dois a três detalhes ocorridos dessa viagem de ida e volta.
Na noite de segunda-feira, ainda em Coimbra, fui ao cinema ao Avenida, na Sá da Bandeira, em Coimbra, ver um filme-documentário de Wang Bing intitulado Primavera. Há anos que não entrava numa sala de cinema. O último filme que tinha visto em sala de cinema foi O Homem que inventou o Natal, filme que vi com a minha neta mais velha em 2018. Fiz na altura uma crónica sobre o tema não vamos repeti-la (ver aqui). O facto a salientar aqui é que eramos apenas quatro pessoas a ver o filme, a avó, o neto, a minha neta e eu. Sublinho: isto reflete o desprezo pelo papel da cultura na educação e na formação do imaginário das crianças deste país, reflete igualmente a falta de visão dos pais sobre este papel: isto é uma verdadeira desgraça.
O filme-documentário de Wang Bing seria um bom filme para passar pelas escolas ao nível dos miúdos para cima dos 12 anos penso eu, ligando-o ou não a outro filme, o Conto de Natal. É preciso estimular as crianças e falo disto apenas como exemplo, mas não dou conta de que se promovam iniciativas parecidas ou semelhantes quanto ao objetivo que acabo de enunciar. É pena que não se se ensinem os nossos filhos ou netos a usufruir do prazer de estar na sala escura. Em tempos o jornal Público noticiava que 1/3 das crianças do nosso país nunca tinha ido a uma sala de cinema.
Não ia ao cinema desde há 7-8 anos, não porque tenha deixado de gostar de ir à sala escura, mas porque a minha mulher já não está para grandes deslocações e a minha neta mais velha está menos disponível. E sozinho não gosto de ir. As crianças crescem e os velhos como eu recusam transformar atos de convívio em atos de solidão. Ainda me lembro de nos tempos de estudante se ir ver o Losey ou o Bergman duas vezes só para admirar a estética de uma ou outra cena.
Nessa segunda-feira passava no cinema Avenida um filme-documentário de Wang Bing, um cineasta de quem gosto muito. Tive companhia e fui ver o primeiro documentário de uma trilogia de Wang sobre a juventude trabalhadora na China. E o título Primavera tanto pode representar os jovens trabalhadores chineses, rapazes e raparigas, a abrirem-se para a vida como pode representar o ponto de partida da China para a via industrial de hoje, mostrando também os custos dessa viragem, feita sobretudo a partir das gentes da China profunda, os filhos dos camponeses pobres. Assinalava-se ainda um certo dualismo na evolução do sistema produtivo chinês centrado na inovação tecnológica de ponta e na manutenção de formas de produção relativamente pouco evoluídas no setor tradicional que é o têxtil. Mas pela alegria de toda aquela gente e pelas disputas quanto ao pagamento do salário à peça, pressentimos, por um lado, a exploração imperialista feita pelo aproveitamento dos baixos salários e presenciamos também a extrema competência daquela gente muita jovem, sobretudo a sua capacidade de aprendizagem. Só uma vez se falou em peças de roupa rejeitada: um aprendiz tinha cosido os colarinhos das camisas ao contrário.
Estamos a falar da China profunda e num período de 2014-2019, numa zona de grande produção em vestuário, mas ao nível de pequenas empresas com trabalhadores muitos deles vindo de lugares a mais de mil quilómetros de distância. Implicitamente li este filme como crítica ao sistema dual chinês: a grande potência mundial, a mesma que vai ao lado escuro da lua, a mesma na ponta da inovação tecnológica, tem milhares e milhares de trabalhadores a trabalharem naquelas condições de trabalho, naqueles ritmos de trabalho, com aquelas máquinas e com aquelas remunerações. Mas também nos queria dizer que a força da China partia também dali, daquela gente para quem o trabalho não era só uma necessidade, não uma punição, era sobretudo encarado como uma bênção. Utilizando os termos da economia marxista, e uma vez que a quase totalidade de produção de vestuário daquela zona é destinada ao consumo interno, diríamos então que há aqui uma clara transferência de valor a favor dos setores de ponta. Com efeito, podemos dizer que baixos salários à peça, significam baixos custos salariais, baixos custos salariais significam baixos preços internos, baixos preços internos permitem salários baixos ou mais baixos à escala nacional uma vez que se trata à Ricardo de produtos de base. Salários baixos significam excedente mais alto, excedente mais alto significa mais capacidade de crescimento. Há aqui uma equivalência ao sistema ocidental que se alimentou de baixos salários agrícolas para criar a sua base industrial. Sobre esta matéria assinalam Michael Pettis e Erica Hogan (original aqui) :
“Existem vários mecanismos através dos quais os países excedentários subsidiam a indústria transformadora em detrimento do consumo interno. As análises típicas dos conflitos comerciais centram-se nos subsídios diretos, obscurecendo a forma como os subsídios indiretos moldam o sistema comercial global contemporâneo. Os subsídios à indústria transformadora nos países excedentários são muitas vezes possíveis através de transferências indiretas das famílias, o que as deixa menos capazes de comprar o que estes sectores produzem, mas reforçam a produção. Estas transferências assumem diversas formas. Por exemplo, as economias excedentárias têm normalmente moedas subvalorizadas como parte das suas estratégias comerciais. Ter uma moeda subvalorizada subsidia a indústria transformadora à custa das famílias porque as famílias são todas importadoras líquidas – uma vez que não produzem para efeitos de exportação – enquanto os exportadores líquidos são maioritariamente fabricantes. Uma moeda subvalorizada torna o sector industrial daquele país mais competitivo, ao mesmo tempo que reduz a capacidade de consumo das famílias.
A subvalorização das moedas não é o único nem o mais importante mecanismo através do qual as transferências entre consumidores e produtores moldam a dinâmica do comércio global. Por exemplo, a repressão das taxas de juro abaixo da taxa de juro real neutra tem sido também uma causa poderosa de transferências financeiras dos aforradores das famílias para os fabricantes, como se verificou no Japão na década de 1980 e na China na década de 2000. Além disso, os gastos excessivos em transportes e infraestruturas servem como uma significativa transferência das famílias para os fabricantes na China hoje (Nota 10). Outras transferências incluem sistemas de crédito dirigidos centralmente, incluem penalizações baixas para a degradação ambiental, leis laborais repressivas e restrições à mobilidade dos trabalhadores” Fim de citação
Marx dizia que o capitalismo era o sistema mais evoluído até à altura conhecido e quando questionado sobre o porquê, responde: porque criou com a sua disciplina a classe operária, a classe que irá derrubar o capitalismo. Essa classe vemo-la surgir ali e os ritmos de trabalho ali mostrados fizeram-me lembrar um livro lido há cerca de 60 anos, chamado 325000 francos de Roger Vaillant sobre sonhos de juventude e sobre a pressão do trabalho à peça, em que o personagem central do livro quando está quase a alcançar a soma necessária para o seu sonho de vida perde a mão por descontrolo psíquico devido ao cansaço. Refira-se que o trabalho à peça é uma forma de aumentar a intensidade de trabalho, a que Marx chamava a criação da mais-valia absoluta, o que é característico da submissão formal do trabalho ao capital, típica de capitalismo fracamente desenvolvido, por contraponto à submissão real do trabalho ao capital, com esta última a representar o caminho para a criação da mais-valia relativa – leiam-se de Marx as páginas notáveis escritas em Grundrisse, onde Marx antecipa com grande detalhe o que se está a passar, agora, no século XXI.
Mas esta história de ter ido ao cinema vem aqui a propósito de dois detalhes que me parecem relevantes, um detalhe curioso, ligado ao ensino e o outro, um detalhe triste, ligado à paisagem cultural desértica de uma cidade que deveria emblematicamente ser considerada a cidade de referência em termos de Cultura no nosso país.
Quanto ao detalhe curioso sublinho que há mais de 7 anos que não frequento as salas escuras de cinema. E o que me sucedeu nos primeiros quinze minutos de estar a ver o filme foi sentir uma certa tensão por não estar a “agarrar” o filme. Entrámos antes do filme começar. Aí a sala estava vazia. Escolhemos bons lugares, a meio da sala e no meio da fila. O filme começou a ser projetado. Fiz um esforço enorme de visualização. As imagens sucediam-se e eu não estava a perceber nada, nada de nada. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: estou velho, velho demais para ter a alegria de estar aqui.
Depois dos primeiros dez minutos e de ter feito um esforço brutal, em termos de vista e de concentração, começou a dissipar-se essa sensação de velhice, comecei a entrar na dinâmica do filme, comecei a ligar as cenas entre si e tudo se passou a seguir quase como se eu estivesse a rever o filme. Ver um filme é como se esteja a ler um livro: num livro ligam-se páginas, num filme ligam-se imagens e tudo tem de estar presente por cada página lida, por cada imagem vista. Tudo isto significa um problema de treino; de rodagem apenas, uma vez que a capacidade de perceção fílmica estava cá, tinha sido criada de longa data e na alma, diria eu, ficou gravada. Faltava tirar-lhe a poeira do tempo em que essa capacidade não foi utilizada. Quem aprende no seu devido tempo e como deve ser, não esquece, é como aprender a andar de bicicleta quando se é pequeno ou se é adulto São aprendizagens não comparáveis. Isto leva-me a confirmar o que penso sobre a importância fundamental do ensino básico ser de qualidade ou não: é aí que se ganham as capacidades de aprender, de sentir, de conviver. Depois é a sua concretização, esta é a ilação que retiro deste detalhe: tinha ganho a capacidade de aprender, de ver, de interpretar, e portanto, a de compreender o filme.
Quanto ao segundo detalhe este é bem mais triste. Estávamos nesta noite de segunda-feira a ver um documentário de um dos documentaristas mais relevantes da China atual e sobre a China, sobre a sua classe operária, sobre a fábrica do mundo que ela é. Seria um filme para ter muitos espectadores na sala, desde professores a estudantes, passando pelo cidadão comum. Quando o filme termina, aguardámos pelo final do seu longo genérico para ver a data da filmagem, levantei-me e viro-me para a saída. Fico estarrecido porque na sala havia apenas mais duas pessoas. Éramos, pois, apenas quatro pessoas empenhadas em perceber o que se se estava ali a projetar. Lembrei-me de Dickens, lembrei-me da sala da Lusomundo com apenas dois netos e dois avôs e a outra ilação que se tira é que nesta cidade, Coimbra, crianças e adultos estão de costas viradas para a cultura, uns porque não são levados a adquirir as bases para terem o prazer de dela usufruírem, as crianças, outros, os adultos, porque simplesmente desprezam a Cultura, uma vez que a consideram um acessório inútil na vida. Mas esta é uma cidade cuja dinâmica central é, ou deveria ser, a vida universitária, e o que mostra é que culturalmente a sua paisagem está próxima de ser um deserto.
O filme acaba tarde, muito tarde. Tenho de preparar a minha ida ao funeral e tenho o problema de assegurar a ida para a estação do caminho-de-ferro.
Não havendo transportes públicos e não podendo pedir a ninguém que me desse uma boleia dada a hora que era, seria criminoso tentá-lo sequer, telefono para a central de táxis a saber se era possível assegurar um táxi para as 8 horas da manhã. Dizem-me que não. Não aceitavam reservas! Dantes não era assim, que eu me lembre. Recuso-me a utilizar a Uber por isso não tenho a aplicação da Uber. Mas aqui outros valores se levantavam e sou obrigado a desenrascar-me. Peço à minha neta que o faça, que reserve um Uber. Discutiu-se se seria feita uma reserva na Uber, de segunda para terça-feira, ou se se pediria um táxi Uber na manhã de terça. A minha neta diz-me que não vale a pena fazer uma reserva para terça de manhã, uma vez que estamos em plena Queima das Fitas e há carros a circular toda a noite com muitos bêbados pelo caminho.
Neste contexto, decidiu-se então chamarmos o Uber de manhã, às 7h45 minutos, a esta hora por uma questão de cautela. A esta hora precisamente, telefona-me a minha neta dizendo que a Uber está muito cara, 5 euros, e que seria melhor chamar um táxi. Não, disse-lhe, eu estou a pagar a segurança de ter um carro disponível e, portanto, fixa a Uber. Manda-me por mensagem a matrícula do carro e terá falado com a motorista pois esta sabia que eu era o avô da rapariga que tinha pago a viagem. O Uber chegou à hora e era conduzido por uma mulher ainda jovem, diremos na casa dos 30 anos.
Explico à motorista que não uso Uber, por princípio, e expliquei por que razão precisei de o fazer agora. Não usa Uber porquê, não percebi bem, questiona ela? Repito-lhe: por uma razão bem simples: recuso-me a ser cúmplice da exploração que vos é feita. E a viagem foi feita a discutir a Uber. Disparo: a minha neta diz-me que o preço pedido foi de 5 euros [1]. Quanto é que recebe? Recebo 2 euros e 80 cêntimos. Quer a senhora dizer que paga as prestações do carro, o combustível do carro, o seguro do carro, a manutenção do carro, para ficar no fim com o salário mínimo nacional? É isso, mais ou menos isso, foi a resposta.
A viagem está quase a chegar ao fim. E a rematar a conversa, estávamos a chegar à estação, digo: há ainda um efeito na sociedade com isto. A senhora é explorada até ao tutano para ganhar o salário mínimo nacional, os Uber abundam nesta cidade, mas há mais gente que também sai prejudicada com este Uber; o velho taxista que é posto de lado, que não mais tem emprego, o pequeno empresário que comprou o direito de exploração de táxi e que o pagou bem caro. É todo um segmento do mercado de trabalho que é abalado, de muita gente com direitos de trabalho que salta do mercado, gente que se torna demasiado velha para outro emprego e que é ainda nova para passar à reforma completa, tudo isto a favor de uma exploração intensiva por uma empresa americana sobre pessoas que sem emprego estável ganham apenas o direito à precariedade. Chegámos ao fim da viagem. Diz-me em jeito de despedida: sabe, é a primeira pessoa que ouço dizer que por princípio recusa participar na exploração do que é a vida que levamos e o explica como o senhor me explicou. E tem razão, estar como motorista de táxi é sentir uma organização por detrás de nós, nas nossas costas, um apoio, enquanto aqui, na Uber, temos apenas a nossa solidão por companhia. Diz-me ainda: tentou-se fazer uma empresa nacional de mulheres e para mulheres taxistas, empresa semelhante à Uber, mas não foi autorizada porque era discriminação. Porquê de mulheres e para taxistas mulheres? Por causa dos problemas da noite, acrescenta ela.
Saio do carro, do banco de trás e pelo lado oposto, dou a volta e perto dela estendo-lhe a mão de fora, ela abre o vidro, aperta-a e digo-lhe: mas há uma discriminação bem mais profunda que é social, a imposição da precariedade como um direito, como um destino, como uma condição e não como uma situação e esta discriminação tem agora um nome: Uberização. Não sei se percebeu. Entro na estação, espero o comboio que chegou à tabela e sigo para Lisboa.
No comboio, apesar de ter dormido pouco, o medo de me deixar dormir, o medo de não apanhar táxi, não me deixou dormir bem a partir da madrugada. Poderia dormir agora, mas sem saber porquê, o sono desapareceu. Entretanto, porque não iria a ler como fazia dantes, os olhos já não são o que foram, por isso é que se foram, levei um livro de sodoku’s e fui-me entretendo, o que agora faço por força de hábito uma vez que na estação já não há venda de jornais para ler pelo menos as letras grandes, os quiosques desapareceram, o que acontece desde o rebentar da dívida pública em 2010, E os quiosques faziam parte da paisagem mas isto também significa que cada vez mais se lê menos, e esta ausência de quiosques é mais um sinal desta triste e dura realidade.
Chego a Lisboa, um amigo espera-me e seguimos viagem para o Feijó. Chegámos por volta da hora que eu esperava: um pouco depois das 11 horas. Cumprimentada a família, eu, o meu amigo Mariano e o agora viúvo, o Carlos Gouveio Pinto, ficamos à conversa com o ex-secretário de Estado Vítor Santos, com o Carlos Farinha Rodrigues e com o Joaquim Ramos Silva. O Gouveia Pinto tentou apresentar-me ao Vítor Santos que com um largo sorriso lhe responde : esse, quem é o que esquece? Vai para me apresentar ao Farinha Rodrigues, mas aí sou eu que digo antes; deste lembro-me eu bem. E já agora aproveito para lhe dar os parabéns pela sua conferência na FEUC em 2023. Um espanto de precisão, concisão e de elevado nível de profundidade, o que é muito difícil de conseguir, acrescentei. Discordei apenas de uma coisa que disseste na FEUC: a preposição até quando dizes até Ricardo dizia: a preposição até em vez realçar como quererias reduz a importância de Ricardo no tema quando este tema é nele central em termos de Ciência Económica [2].
Rimo-nos com o raio da preposição até e para evitar estranheza face à questão da preposição até que foi dita em 2023 por Farinha Rodrigues, o Gouveia Pinto e o meu amigo Mariano, que me trouxe de Lisboa, contaram uma aposta, não, duas apostas que perderam porque eu indiquei que a resposta a uma dada questão de economia se encontrava em dado livro do Celso Furtado, pág 135 e 5ª linha a contar debaixo. Para não me colarem com o adjetivo de marrão que nunca fui, expliquei que até hoje não sei cantar a canção dos parabéns em dia de anos. O Farinha Rodrigues na mesma linha conta que certa vez se cruzou com um estudante que não via há anos. Este dirigiu-se ao Professor e cumprimentou-o, perguntando-lhe se o Farinha Rodrigues ainda se lembrava dele e a resposta foi imediata: lembro-me de si, lembro. Não me lembro do seu nome, lembro que lhe dei a nota X e lembro-me ainda do sítio da sala onde costumava ficar sentado.
A esta história do Farinha Rodrigues acrescentei eu uma outra: um antigo aluno meu abandonou os estudos. Cerca de 20 anos depois regressa à Faculdade. Na primeira aula que se cruza comigo aconteceu o seguinte: eu costumava atirar perguntas para a sala de aula para evitar a perda de concentração dos estudantes. Fazia perguntas do tipo: enganei-me aqui, e apontava para o quadro, é capaz de me dizer onde? Neste caso fiz a pergunta e olhei para o aluno que não via há vinte anos dizendo-lhe esta pergunta é para o seu colega do lado, não é para si, não, que já o conheço desde há 20 anos: No final da aula veio perguntar-me como é que eu me lembrava dele e a minha resposta é igual à que o Farinha Rodrigues dá: não sei.
Depois o Joaquim Ramos Silva desviou a conversa para a importância dos grandes clássicos e por estes entendia-se Adam Smith, Ricardo, Marx. Disse que concordava com ele, mas isso já não se dá em lado nenhum, acrescentei. Alguém nos chamou a atenção para um facto gravíssimo: não se ensinam estes autores, certo, logo, na vossa opinião não se sabe economia. Mas reparem, mesmo que se ensinasse para que é que isso servia? Para que é que servia, se agora os alunos nem às aulas vão? Se é assim, é capaz de ter razão, dissemos todos nós. Ou se faz uma reforma de alto a baixo do primeiro ciclo ao superior ou então não vamos a lado nenhum e estamos a dar cabo de gerações sucessivas, acrescentou.
E este nosso parceiro de conversa, que não sou capaz de identificar, mas que me conhecia bem pelo tom da conversa, continuou: complexo de culpa ou não, não é por acaso que está toda a gente calada. O que se quer são votos, votos conseguidos por manipulação, votos sem substância, quando a Democracia é exatamente o contrário: é o sistema que deve permitir a que as nossas opções sociais sejam opções de consciência, de conhecimento. Ouvi, emocionalmente concordei, mas alguém preferiu deslocar a conversa pois era um tipo de discussão demasiado importante, mas não era para ali., falou-se então da estrutura das carreiras, da necessidade de publicar, publicar, das boas revistas a quem é necessário pagar para ser publicado, falou-se das distorções feitas sobre a atividade docente, etc.
As horas passaram-se e o meu estômago começar a dar voltas e voltas. Mas estávamos perto das 14h e 15 min. Chegada a hora exata, uma pontualidade inglesa, a urna foi metida na carrinha e lentamente, muito lentamente, deslocamo-nos da capela para o local da incineração, onde a cerimónia foi curtíssima, uns cinco minutos. Depois, despedimo-nos das filhas e perguntei ao Gouveia Pinto onde é que ia almoçar. Ah, eu estava a pensar ir almoçar com vocês. Está bem, vamos todos, disse-lhe. Posso levar um amigo meu, perguntou? Claro, isso nem se pergunta. O Gouveia Pinto largou as filhas, a neta crescida, largou a restante família para ir almoçar connosco. Confesso, não dei grande importância a este facto.
Já depois de regressar a casa é que pensei nisto, no significado que a minha presença e do meu amigo que me trouxe de Lisboa representava para o Gouveia Pinto que deixa a família para almoçar connosco. No fundo nós eramos na retaguarda, uma espécie de segunda família com laços criados nos anos de 71 a 73 e mantidos. E talvez ele tivesse razão, se a minha leitura está correta: ninguém faz 500 Km com 82 anos em ida e volta para 5 minutos de acompanhamento de um caixão, entre a capela e o crematório. Falando por mim, diria que estava ali, e estaria sempre lá a menos que as dificuldades o impedissem, como por exemplo, uma avaria do comboio na linha ou coisa semelhante, eu estava ali por mim, pela falecida, pelo marido da falecida, por respeito á amizade com aqueles outros do grupo de 8 estudantes com quem trabalhei em conjunto durante três anos e que são o Mariano, o Quitó, a Isabel Vila Santa, a Helena Barata, o Fernando, o Piscas, o Carlos Gouveia Pinto e obviamente, a Maria Eugénia Pires. Estava ali, presente, também um pouco no papel de coordenador de um grupo que teceu fortes laços de amizade ao longo daqueles três anos, (71-73) laços que entre vários dos seus membros se mantiveram até hoje, apesar das aleatoriedades da vida. Estava ali, presente, também, por um certo sentimento de religiosidade face à vida enquanto tal, face à amizade nela vivida e face à morte.
Foi uma tarde serena a almoçar em Cacilhas. Regresso a Coimbra, chego a Santa Apolónia por volta das 18h20 min. Perdi o comboio que me daria a possibilidade de ver o segundo filme da trilogia de Wang Bing. Nada de relevante.
Mas aqui surgiram dois pequenos acontecimentos que são verdadeiros sinais de que a sociedade portuguesa é uma sociedade doente. Do conjunto de bilheteiras apenas uma estava aberta, uma segunda estava a fechar e as restantes fechadas e a fila de espera era já longa. Gerou-se alguma irritação. Ouviram-se insultos ao funcionário que estava a fechar. Meti-me no barulho dizendo que a contestação não era com o empregado, era sim com aqueles que dirigiam a CP. As minhas palavras devem ter sido mal interpretadas pela pessoa que estava à minha frente, um homem com cerca de 40-45 anos, alto, fisicamente muito corpulento e com um tom de voz alto. Este grita com alguma fúria e acrescenta furioso: isto é o custo dos socialismos. Dirijo-me a ele e perguntou-lhe: diz-me que isto é o custo dos socialismos (plural e isto não é engano) mas diga-me então quem é que está no governo, PS ou AD? É a AD mas é tudo a mesma coisa, diz-me furioso. E vira-se para mim com um tom altamente agressivo e diz-me: olhe sabe qual é a relação entre o salário mínimo em Portugal e em França? Sabe que em Lisboa já temos as rendas de casa a serem das mais altas da Europa. E ia para continuar quando eu o interrompo: se quer falar das casas e da emigração, fale, mas não erre o alvo. Os emigrantes de que muita gente fala pejorativamente e que produzem o PIB de que nos alimentamos não vivem nas casas habituais dos portugueses, vivem em armazéns como gado, vivem em barracas e vivem a ser explorados até ao limite. Disso ninguém fala. Quando não deviam falar, esses críticos falam, falam mal e quando deviam falar, ficam calados. As casas de que quer falar são as casas ocupadas por estrangeiros que fazem deste país, desta cidade, estância de férias e aí tanto pode culpar o PS como o PSD. E mais, dizem-lhe que não há recursos para construir mais casas, há limitação na oferta, dizem-lhe isso, mas tenha em conta as casas arranjadas e vendidas a estrangeiros? Vá até Sintra e veja as moradias de grande luxo que aí estão a ser construídas para estrangeiros, claro. Olha para mim com olhos de espanto e diz-me: por favor guarde-me o lugar, preciso de ir ali fora. Não voltou enquanto eu estive na fila.
Minutos depois uma mulher atrás de mim na fila de espera ultrapassa-me, passa para a minha frente e sem dizer nada. Toco-lhe com a ponta do dedo e digo-lhe: desculpe. Mas o seu lugar é ali, atrás de mim, digo indicando o lugar com o dedo. Diz qualquer coisa inaudível, num inglês bem mais macarrónico que o meu, mas uma outra mulher atrás de mim em jeito de crítica diz-me. O senhor não sabe o que é estar grávida, deixe-a estar onde está. Grávida? Não era visível nenhum traço, nenhum sinal de gravidez. Apenas uma senhora de idade entre 35 e 40 anos, com um vestido de qualidade e de algum bom-gosto em termos do seu estampado. Foi o que pensei. Surge aqui uma interlocutora e ainda por cima crítica quanto à minha exigência de boa educação para com os outros: disse-lhe, posso não saber o que é estar grávida, como está a dizer, mas há uma coisa que eu sei: sei que mulheres grávidas da Europa dos países ricos vêm parir a Portugal, e quem paga? Paga a senhora, pago eu, pagamos todos, e quem lhe diz que não é o caso, questionando-a eu com o indicador apontado aos seus olhos? Tem razão, diz-me, e a seguir a senhora calou-se. A senhora estrangeira mal deveria saber inglês tal foi o tempo que se levou a atendê-la. De resto, teria de lhe faltar o mínimo de educação, caso contrário teria pedido licença e explicar-se para poder passar à minha frente. Com isso haverá gente que terá perdido o seu comboio, mas isso é, sinceramente, irrelevante. O resto não é.
Estas são imagens de um país em disfuncionamento e os resultados eleitorais serão o resultado desse disfuncionamento, ou seja, do ressentimento sentido face ao mal-estar que se está a viver no país.
Comprei o bilhete, segui viagem, dormi no comboio que nem um santo e por pouco não ia parar a Aveiro, o que não teria piada nenhuma.
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Notas
[1] Houve depois uma redução da Uber e o preço foi de 4 euros. Foi desses 4 euros que a motorista recebeu 2,8 euros. Assinale-se ainda que de regresso a casa e para o mesmo percurso às 21h e 30min paguei 7 euros utilizando um táxi tradicional.
[2] Com efeito diz-nos Ricardo: “O principal problema da Economia Política consiste em determinar as leis que regem esta distribuição; e embora esta ciência tenha feito grandes avanços com os escritos de Turgot, Stuart, Smith, Say, Sismondi e outros, eles não proporcionam muitos dados satisfatórios sobre a evolução natural da renda, lucros e salários.” Sendo a repartição central na análise das classes em Ricardo, a preposição até seria desnecessária ou até enganadora. Foi o que senti quando visionei a referida intervenção de Farinha Rodrigues.


