Quando em 1947, Theodor Adorno e Max Horkheimer, publicaram em Amsterdão, o conjunto de estudos a que chamaram ‘Dialektik der Aufklärung’ levantaram dúvidas sobre como traduzir tal título, pois Aufklärung tanto pode ser Esclarecimento como Iluminismo; em sentido geral opta-se por Esclarecimento e, num conceito da filosofia e das mudanças verificadas, a partir do século XVIII, no mundo dos valores intelectuais, culturais e da política, os autores que o referem preferem Iluminismo.
Hoje, um quarto de século passado neste dito XXI, e encarando com um olhar o tão isento quanto possível, a maneira como se comportam os seus mais importantes ‘actores’, Netanyahu, Trump, Putin e Jinping, mais os secundários, mas não menos importantes, Orban, Milei, Le Pen e Meloni –mais uns tantos da terceira divisão, a sonhar apanhar o lugar dos anteriores– estou totalmente convencido que ‘Alinguagem política é projectada para fazer as mentiras parecerem verdadeiras, e o crime respeitável’.
A sentença é de George Orwell, escrita já em 1949, e pode ser analisada de diversos ‘cantos’: o do ‘silêncio’ cúmplice da maioria dos países europeus, mais a conivência de outros, o da ‘inoperância’ das Nações Unidas, manietada pelo ‘direito de veto’, por acaso coincidindo com os interessados nas diferentes situações; o do ‘empenho’ dos industriais da guerra e fabricantes de drones, os novos ‘brinquedos’ para jogos de computador, onde não se têm em conta pessoas, moradias, locais de trabalho e demais pertenças ‘morais ou materiais’ das eventuais vítimas.
Para Vidal Folch, correspondente nos principais países do mundo, ‘Começou a guerra nuclear, há que chamar as coisas pelo seu nome’. A sua crónica no passado dia 13, salienta ‘A proeza, de incalculáveis consequências, é de Netanyahu. Os bombardeios atingiram a central nuclear de Natanz, aparentemente sem aumentar as radiações’. Mas não se fica por aí, porque o assunto é demasiado grave e diz respeito a todo o mundo; ‘Trump desorganizou a economia mundial e o seu amigo e sócio israelita foi mais longe ainda, acabou com 80 anos de equilíbrio atómico. É um perigo mundial grave’.
Um outro cronista escreve na mesma data, ‘Não passa um dia sem que algum palestino morra na guerra de extermínio em Gaza e na Cisjordânia. Mas não é só um palestino, são dezenas, centenas… já são mais de 50.000, provavelmente mais de 60.000, sem contar os desaparecidos sob os escombros. Mulheres, crianças, idosos, homens… É o horror em directo’.
O jornalista e historiador Juan Antonio Sacaluga, escreve a propósito, e ainda no mesmo dia, ‘Trump, que ostenta um autoritarismo rançoso, e uma admiração quase adolescente por líderes à base de esteróides, virou as costas para a tragédia palestina. Com indiferença, com desprezo, com desumanidade’.
Mas se também podemos analisar esta época de linguagem mediatizada a parecer verdadeira, talvez seja bom voltarmos à noção de ‘Aufklärung’, mas vista em sentido geral, isto é, ‘Esclarecimento’; assim e, para não falar sempre nos mesmos, os que nos podem até enganar, pois as instituições estão a perder um desejável carácter exemplar, em favor de interesses ocultos, o pior dano que pode ser causado à democracia, mas analisar também outros aspectos, parecem ter passado a segundo plano.
E deixo aqui uma nota aparentemente despercebida na maioria da imprensa: a estátua homenageando Stalin, datada de 1950, desapareceu do metro de Moscou quando a estação foi reformada em 1966, mas foi agora recolocada no sítio original; o facto até parece nem ter grande interesse, mas para o investigador e filósofo Roberto Aramayo, ‘É mais um exemplo do renascimento de certos ditadores, de um revisionismo histórico que busca reviver os aspectos positivos daqueles que foram os timoneiros do totalitarismo no século passado, ignorando os erros destinados ao esquecimento’.
E termino esta Carta com mais uma citação do enorme jornalista que foi Mário Mesquita, tirada do uma crónica de Guilherme d’Oliveira Martins, no DN, e destinada a todo os que usam a linguagem ‘para fazer as mentiras parecerem verdadeiras e o crime respeitável’, que me parece bem a propósito de tudo o que aqui foi dito, ‘A História não deveria ser escrava da actualidade, nem escrita sob o efeito de memórias concorrentes’.
Na realidade, se o século XVIII ficou conhecido como o do ‘Iluminismo’ corremos seriamente o risco de o século XXI vir a ficar conhecido como ‘A Era das Trevas’, pelos seus actores, pela sua linguagem e pelos jogos de computadores.
Nota – A propósito de ‘A linguagem política é usada e mediatizada, unicamente, para fazer as mentiras parecerem verdadeiras’, parece que também se verifica por estas bandas; aqui deixo a parte da notícia que consegui ler no órgão de comunicação do militante número 1 do principal partido do governo, (o resto estava bloqueado; não o comprei nem sou assinante):
“Expresso”, 25.06.15. “O que escondeu o governo na campanha, mas agora promete que vai fazer”
‘O Programa Eleitoral da AD não é igual ao Programa do Governo que será debatido esta semana: nunca foi dito que a antecipação dos 2% do PIB em Defesa era para este ano; as mudanças na lei da greve e nas leis laborais não estavam previstas; a revisão da Lei de Bases da Saúde não constava; a “extinção líquida de organismos do Estado” foi omitida; e a revisão da lei para restringir o reagrupamento familiar não existia. Por vezes há promessas falhadas, mas neste caso há medidas que nem sequer foram prometidas’, nem sequer faladas, acrescento eu.
Iluminismo, Esclarecimento ou Trevas?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
O sr. articulista não gosta de Estaline ….
Sossegue, não o despacho já para o Gulag …
Com verdade, recorde o sossego conseguido pela Guerra Fria. Dá que pensar.
O sr. articulista não gosta de Estaline ….
Sossegue, não o despacho já para o Gulag …
Com verdade, recorde o sossego conseguido pela Guerra Fria. Dá que pensar.