A ascensão da extrema-direita: causas, consequências e o caso português – por Carlos Pereira Martins

A ascensão da extrema-direita: causas, consequências e o caso português

por Carlos Pereira Martins

Nos últimos anos, temos assistido, um pouco por toda a Europa — e também em Portugal — a uma preocupante ascensão da extrema-direita, com discursos cada vez mais radicalizados, por vezes abertamente fascistas ou com traços neonazis, a conquistarem terreno no debate público e nas urnas. Este fenómeno, que até há pouco tempo parecia pertencer à periferia política e social, ganhou força e expressão, levantando sérias questões sobre as causas profundas deste crescimento, o papel da história e da memória, e o estado atual da democracia e da coesão social.

Uma consequência dos falhanços da política tradicional

A primeira explicação reside no desgaste profundo dos partidos tradicionais, tanto à direita como à esquerda. Nas últimas décadas, sucessivos governos, em Portugal e no estrangeiro, tomaram decisões — muitas vezes em nome da austeridade, da liberalização económica ou da integração europeia — que deixaram segmentos inteiros da população para trás: trabalhadores precários, jovens sem perspectivas, classes médias pressionadas, pensionistas empobrecidos, moradores de zonas rurais esquecidas podendo incluir-se, ainda, alguns grupos socioprofissionais com especificidades que tornaram muito sensível para a sociedade em geral o seu descontentamento.

A percepção generalizada de que os partidos do chamado “centrão” já não representam os interesses das pessoas comuns abriu espaço para discursos alternativos — mesmo os mais extremistas. A extrema-direita soube capitalizar esse descontentamento, oferecendo explicações simples para problemas complexos e apontando culpados fáceis: os imigrantes, a União Europeia, as elites políticas, os agora facilmente designados por “woke”, os jornalistas, os professores, os sindicatos, entre outros.

O efeito de imitação e a internacionalização do populismo radical

É também evidente que há um efeito de contágio e de imitação. O fenómeno Le Pen em França, os discursos de Trump nos Estados Unidos, os avanços da extrema-direita na Alemanha, Itália, Hungria, Países Baixos ou Argentina — todos contribuíram para legitimar e normalizar um estilo político agressivo, simplista e muitas vezes violento. Os media, e sobretudo as redes sociais, amplificaram estas vozes, dando-lhes palco e visibilidade.

Portugal, apesar de um passado recente marcado pela ditadura do Estado Novo, não ficou imune. A partir do momento em que líderes de extrema-direita começaram a ser convidados, cada vez com mais assiduidade, para debates televisivos, a surgir em cartazes com slogans nacionalistas ou racistas, e a conseguir representação parlamentar, foi quebrado um tabu. Aquilo que antes estava nos extremos passou para o centro da discussão pública. E, para muitos, tornou-se politicamente aceitável dizer o que antes era impensável.

A perda da memória histórica e a distância das gerações mais novas

Um dos factores mais graves neste processo é o esquecimento (ou a ignorância) histórica. As novas gerações não viveram o fascismo na pele, não sentiram a censura, a polícia política, a prisão por delito de opinião, a guerra colonial, o exílio ou o medo de falar. E o ensino da História, em muitos casos, tem falhado em transmitir a dimensão humana e brutal dessas experiências.

O fascismo e o nazismo tornaram-se, para muitos jovens, ideias abstractas — ou até, nalguns contextos online, objectos de provocação, humor negro ou “estilo”. A extrema-direita tem-se infiltrado em subculturas digitais, utilizando memes, ironia e símbolos codificados para normalizar ideias profundamente perigosas.

A radicalização através do ressentimento

Os discursos de extrema-direita alimentam-se de um caldo de cultura feito de ressentimento, frustração e medo. Estes movimentos não surgem do nada: crescem sobre feridas sociais abertas — salários baixos, insegurança laboral, abandono do interior, dificuldades de acesso à habitação, perda de poder de compra, serviços públicos degradados. Os grupos radicalizados de extrema-direita aproveitam esses descontentamentos reais e misturam-nos com discursos de ódio, de exclusão, de vingança e de rancor, direcionando essa fúria contra minorias étnicas, imigrantes ou até contra os próprios pilares da democracia.

O caso português: aumento do discurso de ódio e das agressões

Em Portugal, ainda que este fenómeno tenha surgido mais tarde do que noutros países europeus, os sinais de alarme estão acesos:

  • Tem-se registado um aumento de agressões racistas e homofóbicas, muitas vezes com motivação política;

  • Grupos de inspiração neonazi, alguns já monitorizados pelas autoridades, têm reaparecido com maior visibilidade;

  • O discurso de ódio normalizou-se nas redes sociais e penetrou em alguns media e programas televisivos, sob a capa de “liberdade de expressão”;

  • Representantes políticos eleitos têm feito declarações públicas que desprezam os direitos humanos, questionam a Constituição e insultam sistematicamente minorias;

  • A presença simbólica e física da extrema-direita aumentou em manifestações, campanhas e até em escolas e universidades.

Tudo isto gera uma sensação preocupante de que o “novo normal” em Portugal inclui tolerar ou relativizar atitudes e ideias que deveriam ser amplamente rejeitadas.

Afinal, onde estavam estas pessoas?

É legítimo perguntar: onde estavam estas pessoas antes? A verdade é que muitas já nutriam estes sentimentos em silêncio ou de forma difusa. Em resposta rápida e sem grande risco de erro até poderíamos responder que são os mesmos de sempre, nunca de aqui saíram. Mas ficam ocultos e só aparecem quando o ambiente lhes é propício.  E é o caso, agora, em que  encontram:

  • Um espaço de validação pública;

  • Um vocabulário e uma narrativa para os seus ressentimentos;

  • Um partido ou movimento que lhes dá voz e visibilidade.

Outros, talvez mais despolitizados, aderem por desencanto ou por revolta contra “o sistema”, não necessariamente por convicção ideológica profunda. Mas esse tipo de apoio “de protesto” pode ser igualmente perigoso quando alimenta projectos autoritários e antidemocráticos.

Além disso, o crescimento da extrema-direita tem sido acompanhado por uma repetição constante das suas narrativas, discursos e estratégias de comunicação, reaproveitadas a todo o momento e perante qualquer facto mediático, por mais trivial que seja. Cada novo acontecimento é explorado como oportunidade de visibilidade e promoção, mesmo que à custa da verdade ou da ética. Esse aproveitamento sistemático serve para manter o tema no espaço público e, ao mesmo tempo, para lançar figuras até então ignoradas — sem experiência, sem cultura política e ideologicamente balofas — no centro da atenção mediática. Em Portugal, é particularmente evidente o caso de uma dirigente de topo de um partido de matriz neoliberal, que se apresenta como se estivesse numa permanente campanha de autopromoção, mais próxima da lógica do espetáculo do que da responsabilidade política. A teatralidade, o conteúdo balofo, ideologicamente vazio,  substitui e suprime o pensamento, a objectividade e a razão.

Conclusão

A ascensão da extrema-direita não é um fenómeno espontâneo nem inexplicável. É o resultado de décadas de erosão do contrato social, de falhanços na educação cívica e histórica, de estratégias comunicacionais agressivas e da normalização de discursos intolerantes. Portugal ainda está a tempo de travar esta deriva, mas isso exige uma resposta firme da sociedade civil, dos partidos democráticos, das escolas, dos media e das instituições públicas.

A democracia não se defende sozinha. É preciso recordar que aquilo que hoje parece exagero pode tornar-se realidade amanhã, se nos limitarmos a assistir, em silêncio, à progressiva erosão dos valores que nos definem enquanto sociedade livre e plural.

 

 

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