Espuma dos dias — A Europa precisa de uma revolução do bom senso. E começa na Hungria. Por Ian Proud

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

A Europa precisa de uma revolução do bom senso. E começa na Hungria

 Por Ian Proud

Publicado por  em 20 de Junho de 2025 (original aqui)

 

 

Em Budapeste começa uma revolução do bom senso. Num mundo multipolar, a Europa tem de se tornar internamente multipolar ou corre o risco de se desintegrar.

Péter Szijjártó, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, proferiu o discurso de abertura no Budapest Global Dialogue 2025, um fórum que reúne académicos e pensadores políticos desde a Europa até à Ásia, para discutir as necessidades prementes do nosso tempo. Seu tema, uma repetição do discurso de posse de Donald Trump, para a Hungria liderar uma revolução do bom senso.

Na sua essência, isto significa uma reclamação de soberania. Desejosa de envolver-se com um mundo multipolar emergente, a guerra na Ucrânia elevou em Budapeste o sentido de que a sua soberania foi assaltada por Bruxelas.

Szijjártó foi inflexível nas suas críticas aos decisores de Bruxelas que, nos últimos três anos, tinham dado sermões à Hungria devido à sua posição mais moderada em relação à Rússia na guerra na Ucrânia. Ele não elogiou a Rússia, mas sim a determinação de não permitir que a Hungria seja empurrada para uma guerra na sua vizinhança.

Mais fortemente, ele comentou a amarga experiência da Hungria de estar presa entre um bloco poderoso e outro, uma referência apontada à ocupação da Hungria pela União Soviética em 1956. Num mundo multipolar, o senso comum exigiria que, enquanto pequena nação soberana, a Hungria atuasse como uma encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, não como um campo de batalha para os dois. Uma escolha entre a Europa e a Rússia, ou entre o Ocidente e a Ásia, era uma escolha falsa que só destruiria o crescimento e o desenvolvimento húngaros.

É compreensível que a Hungria não queira desempenhar um papel de boa cidadã corporativa numa Europa que está a estagnar economicamente sob os altos preços da energia auto-impostos, impulsionada por uma guerra da qual não quer fazer parte.

Ao promover uma abordagem de bom senso, Szijjártó salienta indirectamente uma dolorosa verdade sobre a Europa.

A Europa não pode desempenhar um papel geopolítico devido às limitações inerentes à tomada de decisões colectivas. Vinte e sete estados não podem e nunca serão capazes de tomar decisões geopolíticas com a clareza e a rapidez necessárias para assegurar uma acção decisiva em momentos-chave.

As exigências obstinadas e truculentas da soberania irão sempre interpôr-se no caminho. Existe um fosso enorme e intransponível entre o poder declarativo e o poder de decisão das instituições europeias que inevitavelmente produz decisões fracas e muitas vezes autodestrutivas, em particular no que diz respeito à política externa.

E por isso, os Estados soberanos sentem que os seus interesses estão corroídos.

Porque podem ver que o consenso de Bruxelas produz o pior de todos os mundos.

As declarações europeias, por mais bélicas que sejam, não podem igualar-se aos movimentos unilaterais de estados soberanos como a Rússia.

As decisões europeias, quando finalmente acontecem, parecem, na maioria das vezes, prejudicar mais os Estados-Membros.

A título ilustrativo, Szijjártó comparou o apelo de von der Leyen no sentido de reduzir o abastecimento energético russo com a realidade de que a Europa continua a importar GNL russo a um custo extremamente elevado, aumentando as faturas do povo húngaro.

Existem outras ilustrações disto.

Kaja Kallas foi acusada de se exceder na tentativa de persuadir os Estados-Membros maiores a fazerem aumentos significativos nos seus gastos com a produção de armas numa altura em que as suas economias domésticas enfrentavam ventos contrários causados pela guerra.

A Europa prometeu apoiar a Ucrânia durante o tempo que for necessário. No entanto, alguns Estados-Membros, nomeadamente a Hungria, chegaram rapidamente à conclusão de que a guerra tinha demorado demasiado e tinha de acabar.

E, claro, os países que tentam desempenhar um papel de liderança livre da longa ferramenta de intervenção de Bruxelas enfrentam o mesmo desafio. A Grã-Bretanha e a França comprometeram-se a enviar tropas de manutenção da paz para a Ucrânia. Mas então ficaram presos entre o entusiasmo insuficiente de outros estados europeus como a Itália para fazê-lo também, e a conclusão de que eles não tinham tropas suficientes.

Isso vai direto ao cerne da razão pela qual a Europa está a falhar. Os decisores em Bruxelas, por mais que tentem, nunca podem ignorar as necessidades e escolhas soberanas de cada Estado-Membro.

Os Estados-Membros, agindo isoladamente, nunca podem reunir força suficiente para desempenhar um papel decisivo, sem o apoio esmagador de outros.

Nas sessões subsequentes, um após o outro, os académicos (muitas vezes Estado-Unidenses) salientaram a necessidade de a Europa intensificar e desempenhar um papel mais proeminente num momento de conflito global sem precedentes, mas que parecia massivamente falhar em entender o principal.

A prescrição padrão para duplicar as despesas europeias em matéria de defesa é irrelevante se a Europa, enquanto colectivo, não estiver disposta a defender-se.

A Europa não pode desempenhar um papel geopolítico na concorrência entre grandes potências porque não é uma grande potência, mas sim um conjunto de estados soberanos medianos e menores.

O afastamento do senso comum e a consequente erosão da soberania nos Estados-Membros europeus tornarão sempre impossível o desafio de se tornar uma potência geopolítica credível.

A única forma de a Europa poder até esperar desempenhar um papel geopolítico seria equipar a sua indústria com energia barata, tendo optado decisivamente por não o fazer. Em vez disso, os EUA promovem a divisão interna na Europa e uma dependência excessiva da dispendiosa energia americana.

Este ponto vai ao cerne da mensagem de Szijjártó. A Europa viveu um desvio catastrófico do senso comum, uma vez que tentou construir uma identidade geopolítica para si mesma desde o Acordo do Tratado de Lisboa e a criação de um Alto Representante para os negócios estrangeiros.

Com o desencadeamento da guerra na Ucrânia assistiu-se a uma aceleração dos esforços da Comissão para centralizar o controlo, face à resistência de Estados-Membros cépticos como a Hungria. No entanto, o ataque daí resultante à soberania nacional fez com que estados como a Hungria resistissem mais. Os esforços agora em curso para alterar as regras de votação da UE para contornar a dissidência em Budapeste e Bratislava servirão apenas para conduzir os países soberanos à saída.

A verdade incómoda é que um mundo cada vez mais multipolar exige uma Europa multipolar. Isso significa uma Europa de estados soberanos que colaboram num mercado único, mas com as asfixiantes e centralizadoras instituições de Bruxelas radicalmente reduzidas e despojadas dos seus poderes antidemocráticos. Isso também significa um ajuste de contas desconfortável sobre a necessidade de estar em boas relações com a Rússia.

Com os EUA à beira da guerra no Irão, por razões que poucos na Europa compreendem realmente, nunca houve uma necessidade maior de uma revolução do bom senso. Isso tem de começar hoje, aqui, em Budapeste.

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O autor: Ian Proud foi membro do serviço diplomático de Sua Majestade de 1999 a 2023. Foi oficial superior da Embaixada Britânica em Moscovo de julho de 2014 a fevereiro de 2019, numa altura em que as relações entre o Reino Unido e a Rússia eram particularmente tensas. Desempenhou várias funções em Moscovo, nomeadamente como chefe da Chancelaria, Conselheiro económico-encarregado de aconselhar os ministros do Reino Unido em matéria de sanções económicas – Presidente do Comité de crise, Director da Academia Diplomática para a Europa Oriental e Ásia Central e Vice-presidente do Conselho da Escola Anglo-americana. Antes de Moscovo, Ian organizou a Cimeira do G8 de 2013 em Lough Erne, Irlanda do Norte, a trabalhar no 10 Downing Street. Em 2012, escreveu e lançou a iniciativa de prevenção da violência Sexual em conflitos (PSVI) de William Hague e, em 2011, organizou a Conferência de Londres sobre a Líbia, com a presença de Ministros dos Negócios Estrangeiros de 50 países e do Secretário-Geral da ONU. Em 2010, foi destacado para a província de Helmand, no Afeganistão, onde atuou como chefe de comunicações estratégicas. De 2003 a 2007 foi chefe da secção política da Embaixada Britânica em Banguecoque. Especialista em diplomacia e gestão de crises. (ver aqui)

 

 

1 Comment

  1. Até que enfim aparece alguém a dizer o que mitos pensam mas ficam calados, enquanto não se levantarem m ais vozes a UE não precisa que a Rússia a destrua ela própria se está a destruir, ainda estão a tempo de pensarem na Europa e não continuarem a ser vassalos seja de que potência for, nós europeus desejam é a paz e não guerras que só causam mortes e destruição.

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