O Preço da Verdade num Tempo de Modas – por Carlos Pereira Martins

O Preço da Verdade num Tempo de Modas

por Carlos Pereira Martins

dotado de pensamento crítico e ciente da liberdade de expressão

Custa, de facto, assistir ao modo como tantos convivem e até se resignam com a  falta de rigor. 

Vive-se ao sabor das modas — não tanto as que se vestem, mas aquelas que se dizem. Frases feitas, convicções apressadas, ideias que se tomam por certas apenas porque se tornaram populares e se ouvem ou podem ser lidas a toda a hora nos meios de informação. 

É uma forma de viver que, independentemente da formação, da competência ou do percurso de cada um, se impõe sorrateiramente e dita os ritmos de muitas conversas e, tristemente, de muitas consciências.

Ontem, numa longa viagem de autocarro, dei por mim a ouvir — sem o desejar — o que um pequeno grupo de passageiros ia trocando em conversa. Falavam de política, das televisões e dos seus comentadores. E entre certezas disparadas com a força de quem não admite dúvida, ouvi uma afirmação que me gelou pela facilidade com que foi dita e aceite: “O general do Putin já foi corrido das televisões. Tratou mal a comentadora… a Sónia Séneca, e já foi afastado.” Por mim, no mínimo, tira-lhe logo o artigo “a”. Não creio que algum dos dialogantes tenha andado na escola com a comentadora e o respeito é fundamental que se conserve.

Traduzido do ruído da conversa, percebi que falavam do Major-General Agostinho Costa — que, diga-se, não é o “general do Putin”, nem foi “corrido” de lado algum. Trata-se de alguém que, com sentido de responsabilidade, tem procurado manter nos seus comentários uma linha de análise objectiva e informada, recusando alinhar com os discursos fáceis, com a indignação automática ou com as modas mediáticas que transformam em vilão quem não segue o rebanho. É, no fundo, alguém que tenta fornecer aos cidadãos elementos factuais que lhes permitam pensar por si próprios — tarefa hercúlea, quando o pensamento próprio é, cada vez mais, um acto de resistência.

Tentei dizer isto mesmo, já há muito tempo, a um homem com cultura, um homem dos livros que alinhava na moda de classificar o Major-General como um perigoso comunista. Levei eu por tabela, não o conseguir fazer pensar com frieza.

Major-General Agostinho Costa que continua presente na antena da CNN Portugal, onde tem comentado com regularidade. E a acesa troca de palavras a que aludiam os comentadores de ocasião não foi, ao contrário do que afirmavam, com a Professora Sónia Séneca — cujo tom é, em regra, educado e ponderado —, mas sim com outra figura, outra comentadora, marcada por uma postura mais ríspida e por uma certeza inabalável nas suas verdades, quase sempre alinhadas com a direita mais conservadora, mesmo quando o seu discurso peca por imprecisão ou desinformação.

É este o tempo que vivemos: um tempo em que as narrativas se sobrepõem aos factos, em que a verdade parece pesar menos que a opinião que faz mais ruído, em que se confunde firmeza com arrogância e independência com deslealdade. A objectividade tornou-se, paradoxalmente, um acto de coragem. E quem procura exercê-la, como o faz Agostinho Costa, arrisca tornar-se alvo fácil da desinformação e da difamação ligeira — tantas vezes promovidas ou permitidas por quem deveria, antes de tudo, zelar pelo rigor e pelo serviço público da informação.

Mas é também nos gestos persistentes e discretos desses poucos que recusam render-se à superficialidade que reside uma réstia de esperança. Porque, apesar de tudo, ainda há quem escute com atenção, quem questione, quem resista à sedução das frases feitas. E isso, por si só, já é motivo para continuar.

 

 

3 Comments

  1. Muito bem, Carlos Pereira Martins.
    Vivemos tempos perigosos, de manipulação e propaganda e o major general Agostinho Costa tem sido exemplar, bem informado e corajoso face a comentadores/as ignorantes e cheios de arrogância.
    Um abraço
    Helena Cabeçadas

  2. Pois é; passáms a viver num mundo de aldrabões e os “sapiens” são tão poucos que é muito difícil descobrir algum

  3. Um problema verdadeiramente importante, e preocupante, o que é abordado aqui por Carlos Pereira Martins: a desinformação, em que a narrativa se sobrepõe aos factos, moldando-os, manipulando-os, de acordo com os preconceitos subjacentes a essa narrativa.

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