Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise — “Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos” (1/4). Recomendados por Brad DeLong

Nota de editor

Júlio Mota, no seu texto Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise, sugeriu que a sua narrativa sobre a angústia dos tempos que vivemos fosse acompanhada pela leitura de uma entrevista a Brad DeLong intitulada “Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos, recomendados por Brad DeLong”, livros estes que, segundo Júlio Mota, devem fazer parte de uma formação sólida e geral em economia.

Dada a extensão desta entrevista a Brad DeLong, a mesma será publicada em quatro partes, hoje a primeira.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

13 min de leitura

Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos (1/4)

Recomendados por Brad DeLong

Entrevista conduzida por Benedict King em 24 de Agosto de 2020

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Estes eram um grupo eclético, incluindo, entre outros, um especulador do mercado de ações (Ricardo), um filósofo moral (Adam Smith), um clérigo (Malthus), um advogado (Jean-Baptiste Say) e um jornalista (Marx). Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, foram os primeiros a fornecer explicações sistemáticas sobre como funcionam as economias, onde falham e como poderiam funcionar melhor. Aqui, Brad DeLong, professor de economia na UC Berkeley, apresenta os economistas clássicos e sugere livros para saber mais sobre cada um deles e sobre os seus objetivos.

                                                             

The Passions and the Interests,                          The Worldly Philosophers,

por Albert Hirschman                                          por  Robert L Heilbroner

 

                                                         

The Classical Economists Revisited,                Economic Sentiments: Adam Smith,

Condorcet and the Enlightenment,

por D. P. O’Brien                                                  por Emma Rothschild

 

Karl Marx: A Nineteenth-Century Life, por Jonathan Sperber

 

Benedict King (BK). Antes de entrarmos nos livros, será que nos poderia contextualizar dizendo quem eram os economistas clássicos, individualmente falando? Há Adam Smith, Thomas Malthus, David Ricardo e Jean-Baptiste Say em França. Há outros nomes óbvios que você incluiria nessa lista?

Brad DeLong (BDeL). Eu diria que Smith, Malthus e Ricardo são os três grandes, embora se possa discutir se Smith era um economista clássico ou antes um pré-economista. Smith via-se muito mais como um filósofo moral. Ele sempre teve um objetivo e um campo de análise muito mais amplos do que Malthus ou Ricardo em termos do que ele considerava o seu campo de análise.

Se Smith é a primeira geração, a segunda geração é Ricardo, Malthus e Say. Depois há uma terceira geração, pessoas como Nassau Senior, amigo de Alexis de Tocqueville, e J.R. McCulloch, que ocupou a primeira cátedra de economia política na University College London.

Mountifort Longfield é outro, muito subestimado, que escreveu na Irlanda coisas que anteciparam o resto da profissão em 30 anos; e, é claro, John Stuart Mill. Há também Karl Marx e Friedrich Engels, e depois há um grupo de socialistas ricardianos ingleses autóctones, criticando o resto dos economistas clássicos, dizendo: “Vocês não estão a centrar-se no que é importante, estão a centrar-se no que é irrelevante, e o que estão a fazer é criar interferência ideológica para um bando de pessoas e movimentos sociais desprezíveis. Vocês deveriam ter coragem e pensar de forma mais profunda sobre como é que a economia realmente funciona.”

Mas a forma como conceptualizamos a teoria é que Smith lhe deu origem, depois temos Malthus e Ricardo e talvez Say na segunda geração. Em seguida, há aqueles que explicam e desenvolvem as suas doutrinas, mas não fazem grandes progressos na compreensão até chegarmos aos economistas neoclássicos, William Stanley Jevons, por um lado, e Léon Walras, por outro. Uma vez que temos Jevons, Walras e companhia, a coisa descola e transforma-se na economia de oferta e procura e da utilidade que temos hoje.

BK. Quais eram as principais hipóteses que uniam os economistas clássicos e até que ponto eles se reconheciam conscientemente como um grupo? Eles conheciam-se e correspondiam-se uns com os outros?

 BDeL. Eles conheciam-se muito bem. Ricardo e Malthus, em particular, eram mesmo muito amigos. Eles consideravam-se detentores de ideias muito importantes sobre como o mundo funcionava, porque compreendiam — digamos assim — “as leis da economia”. Eles entendiam como é que indivíduos maioritariamente interessados em si próprios se envolviam na atividade económica. E, mais importante, compreendiam como é que o sistema como um todo se comportava. Eles tinham perceções sobre matérias que os outros não tinham porque acreditavam que o sistema económico rapidamente alcançaria uma situação de equilíbrio e que tenderia a ficar nesse ponto de equilíbrio. Essa foi a grande intuição de Adam Smith: o ponto de equilíbrio não era algo intencionalmente procurado por nenhum dos participantes da economia de mercado. Era, em vez disso, uma consequência da forma como o sistema como um todo se articulava, em oposição a uma decisão tomada por um indivíduo ou grupo específico para que as coisas fossem desta ou daquela maneira.

BK. Suponho que os seus predecessores, os mercantilistas, teriam visto a gestão económica como uma atividade muito determinada ‘de cima para baixo’, dirigida pelo governo?

BDeL. Completamente hierárquica. Eles pensavam que o governo deveria controlar as coisas para alcançar determinados objetivos, enquanto Smith desenvolveu essa visão de que o sistema tem a sua própria lógica e que as tentativas do governo de interferir nele ou mesmo direcioná-lo — a menos que fossem muito sensíveis e cuidadosamente planeadas, e muitas vezes mesmo assim — acabariam por fazer coisas que os dirigentes do governo não pretendiam. Na verdade, pode-se recuar até à argumentação de  David Hume sobre a balança comercial, que antecipou Smith. Ele argumentou que tudo o que todas as políticas mercantilistas conseguem é elevar o nível de preços dentro do país, tornando as mercadorias nacionais mais caras, sem de facto aumentarem a sua riqueza real.

BK. E ele teria falado sobre essas coisas com Smith, certo, porque se conheciam?

BDeL Eles eram de facto muito amigos. Na verdade, quando o primeiro livro de Smith foi publicado, há uma carta bastante longa de David Hume, que estava em Londres, para Adam Smith na Escócia, onde Hume demonstra muita curiosidade em saber como é que o livro estava a ser recebido. E então, página após página, Hume diz: ‘Estou prestes a  contar-te como é que o livro está a ir’, mas aí escreve um parágrafo não sobre isso, e sim sobre algo completamente diferente, e durante todo o tempo ele vai inserindo na carta observações como: ‘você deve lembrar-se, meu caro Smith, que o aplauso das multidões não é o tipo de coisa que qualquer filósofo deve querer alcançar’, que um filósofo ‘deve-se contentar com alguns leitores ou alunos perspicazes e não esperar nenhum tipo de público em massa’. E então, no final, vem a frase de impacto: ‘Portanto, meu caro Smith, prepare-se para a grande deceção: o seu livro esgotou-se, recebeu enormes elogios, todos querem mais cópias, reimpressões estão já encomendadas, e vários altos funcionários do governo estão a dizer: “Este sujeito é realmente inteligente. Vamos arranjar uma forma de conseguir arranjar-lhe algum dinheiro para que ele possa ter mais tempo para pensar”.

BK. O livro era The Theory of Moral Sentiments, ou The Wealth of Nations?

BDeL Era The Theory of Moral Sentiments, de 1759.

 

BK. Passemos aos livros que recomenda sobre os economistas clássicos. O primeiro é The Passions and the Interests: Political Arguments for Capitalism before its Triumph, de Albert O. Hirschman. Este livro apresenta alguns dos antecedentes intelectuais dos séculos XVII e XVIII para o aparecimento da economia clássica, não é? Fale-nos um pouco da história.

BDeL A história é que a Europa Ocidental parecia estar a entrar num novo tipo de sociedade, uma sociedade comercial, em que as pessoas já não estavam tão concentradas nas profissões tradicionais, nem condicionadas pelo que os seus pais tinham feito, ou pela sua posição social, para determinar o que deviam fazer.

O lugar do indivíduo na sociedade passou de estar inserido numa rede em que praticamente todas as pessoas com quem interagia o conheciam muito bem e tinham expectativas muito fortes sobre o tipo de pessoa que era, dado o seu papel específico na sociedade, para passar para uma outra sociedade, uma sociedade em que havia todas estas trocas de mercado, que eram, em grande parte, mais ou menos à distância.

As sociedades humanas exigem uma divisão substancial do trabalho. Somos muito mais poderosos, competentes e capazes em grupos do que sozinhos. Mas, para que haja divisão do trabalho, precisamos ser dependentes uns dos outros. Temos que confiar uns nos outros para satisfazer uma grande parte das nossas necessidades. E isso requer uma enorme quantidade de confiança social. E como é que a conseguimos ter ? Se alguém está a fazer algo para outra pessoa ou a prestar um serviço em troca de alguma outra coisa, como ter certeza de que a pessoa vai retribuir, que isso será uma relação em que ambos ganham e não uma situação em que um ganha e o outro perde ? Como saber se alguém não vai simplesmente agarrar no que lhe fez para ele e desaparecer, deixando-o de mãos vazias ?

Voltemos ao estado rude e primitivo da humanidade, realmente só existem três grupos de pessoas com que qualquer de nós pode contar. Você pode contar com os seus familiares próximos, e nem todos; pode contar com os seus amigos íntimos, embora nem todos; e pode contar com os seus vizinhos mais próximos. Todos esses grupos são pessoas com quem você tem laços sociológicos extremamente fortes. Você vê-os repetidamente e, por isso, pode ter confiança e certeza de que está numa relação de troca de prendas, ou uma relação de anfitrião-hóspede, com esse círculo bastante pequeno de pessoas que você conhece bem.

E então inventámos o dinheiro. E confiamos no dinheiro. E, de repente, você não precisa de conhecer bem a pessoa com quem está a negociar ou confiar muito nela. Você ainda precisa de fazer a devida diligência e ainda precisa de olhar para a boca do cavalo, ver os seus dentes, para saber a sua idade. Você ainda precisa de perguntar por aí para ver se a pessoa tem reputação; ainda precisa de testar os produtos dele. Mas, uma vez que você tem dinheiro, de repente, pode estabelecer uma divisão de trabalho em que todos ganham, não apenas com os seus amigos próximos, os seus vizinhos ou a sua família, mas com praticamente qualquer pessoa no mundo.

Eles viam-se como tendo coisas muito importantes a dizer sobre como o mundo funcionava porque entendiam as… ‘leis da economia’

Ao fazer isso, está-se a ampliar enormemente a dimensão da divisão do trabalho que pode levar ao forte aumenta da produtividade potencial da humanidade e do seu próprio potencial também, porque pode obter o que precisa dos melhores e mais eficientes produtores do mundo. E tudo isto graças a essa coisa chamada dinheiro, que funciona como confiança líquida. Em vez de dizer: ‘Vou-lhe fazer um favor agora, produzindo isso para si, e em troca far-me-á outro favor — não sabemos bem qual será — e produzirá qualquer coisa que me interesse daqui a três meses’, de repente uma transação pode ser aberta e encerrada numa hora ou num minuto.

E assim, de repente, não apenas nos tornamos muito mais produtivos, mas também começamos a ver todos os outros na sociedade como potenciais amigos, porque eles não nos veem como um inimigo de clã a ser morto ou como um estranho a ser roubado. Cada um de nós pode confiar em pessoas além dos membros do seu clã, porque praticamente todos são potenciais participantes de uma troca vantajosa para toda a gente. Eu posso estar do outro lado de um balcão, e eles podem-me fazer um favor ou fornecerem-me algo que me interesse. Eu  dou-lhes dinheiro, o que também aumenta o poder social deles. De repente, a vida torna-se potencialmente muito melhor e mais fácil, porque as pessoas com quem cada um de nós se depara não são pessoas a temer, mas pessoas a acolher, com quem você pode negociar. Ao mesmo tempo, a economia como um todo adquire uma espécie de lógica, poder e capacidade que nenhum indivíduo tem.

Um exemplo de como isso funciona: outrora havia uma enorme estátua de bronze de Atena, com uma altura entre 9 a 12 metros, no topo da Acrópole em Atenas. Dava para ver o sol a refletir-se nela ao navegar pelo cabo sul da Ática, chegando a Atenas. Ela pesava cerca de 80 toneladas e era feita de bronze. Para fabricar o bronze, é preciso cobre, que é muito macio, e estanho – cerca de 10% de estanho em relação ao cobre. Então, eram precisas cerca de sete toneladas de estanho para fazer essa estátua.

O historiador Heródoto estava a deambular por Atenas e ficou com curiosidade sobre de onde vinha todo esse estanho. Não havia estanho na Grécia. Não havia estanho que ele conhecesse no Egeu. Na verdade, não havia estanho em lugar nenhum do Mediterrâneo que ele conhecesse. Ele perguntou às pessoas e descobriu que ninguém em Atenas sabia de onde essas sete toneladas de estanho tinham vindo. Ele conversou com mais pessoas e com os marinheiros que realmente trouxeram o estanho. Eles disseram que o tinham comprado num mercado na Sicília, na cidade de Siracusa.

Ele conversou com outros marinheiros e eles começaram a contar-lhe mentiras cada vez mais absurdas sobre de onde vinha o estanho e como ele chegara até aqui. Disseram-lhe que, além dos Pilares de Hércules, além do Estreito de Gibraltar, havia ilhas estranhas onde estava sempre nevoeiro e havia estanho. Praticamente bastava arranhar o chão e lá estava o estanho. E o estanho tinha vindo de lá para a Grécia. Heródoto não acreditou neles. Recusou-se a acreditar que alguém vivesse num lugar onde estivesse sempre nevoeiro e tão frio.

Mas os atenienses haviam comprado o estanho nos mercados de Siracusa, na Sicília; e o povo de Siracusa havia comprado o estanho nos mercados de Massília (atual Marselha, na França); e ele havia descido o Ródano através de outra cadeia de mercadores; e havia sido transportado do Sena para o Ródano por outro grupo; e depois fora levado rio abaixo pelos mercadores do norte da Gália. Antes disso, fora transportado através do Canal da Mancha por mais um grupo de mercadores, que o haviam comprado dos mineradores de estanho da Cornualha, que extraíram todo esse material porque, por alguma razão, aqueles esquisitões do oriente estavam dispostos a pagar uma fortuna por esse metal estranho que não lhes tinha nenhuma utilidade, mas que é muito, muito útil quando se tem muito cobre, como se tem na Grécia, e quando se pode ligá-lo na base de dez por cento de estanho com cobre para produzir um bronze resistente e durável. A Idade do Bronze tem esse nome por alguma razão.

A economia como um todo sabia que havia estanho na Cornualha, que você poderia combiná-lo com cobre da Grécia para fazer estátuas grandes e duráveis, mas nenhuma pessoa em nenhum lugar da civilização ocidental, tal como ela existia em meados do século IV a.C., realmente sabia disso ou sabia onde o estanho era extraído, ou como era produzido. E essa enorme expansão das capacidades humanas, juntamente com a forma como mudou os costumes e as atitudes das pessoas umas com as outras, mudou o mundo. Gerou uma sociedade genuinamente comercial, poderosa, produtiva, rica e pacífica em comparação com as sociedades anteriores. E essas eram sociedades em que as pessoas se viam como bons parceiros no comércio, em vez de estranhos a quem se poderia roubar, ou inimigos que se tinham de matar, ou talvez membros do clã que deveriam ser ajudados.

Essa mudança de um mundo em que o empreendedorismo é exercido e o poder social é conquistado principalmente pela opressão das pessoas e pela apropriação dos seus bens, ou fazendo-as trabalhar para outrem, para um mundo mais rico e sofisticado, baseado muito mais em trocas mutuamente benéficas, é a essência do livro de Hirschman. É uma reflexão sobre como os intelectuais europeus reagiram quando, de repente, se tornou possível gerir uma civilização não mais baseada nas paixões por aqueles que amamos e por aqueles que odiamos, mas sim nos interesses que temos em cooperar uns com os outros, mesmo que não nos importemos profundamente uns com os outros. Somos todos úteis uns aos outros e, assim, podemos viver em paz. É, desse ponto de vista, um livro maravilhoso.

Sempre detestei o Institute for Advanced Study, desde que cheguei a Harvard em 1978 e andava a ler livros de Albert Hirschman. Eu achava-o um autor espantoso e planeava fazer o seu curso no outono de 1979, no meu segundo ano. Então, no verão de 1979, o Institute for Advanced Study ofereceu-lhe um cargo sem obrigação de ensinar, e ele foi para Princeton – e ninguém nunca mais o viu numa sala de aula novamente.

Isso piorou a minha vida intelectual, e eu não tive a oportunidade de frequentar as suas aulas. Até agora, nunca tive a possibilidade de causar algum dano ao Institute for Advanced Study de Princeton – nenhuma oportunidade surgiu. Mas eles devem saber que estou à espreita, à espera da oportunidade para o fazer.

BK. Como é que concilia isso com a teoria económica clássica dos juros?

BDeL Bem, as paixões são importantes. Quando começamos a pensar que devemos tratar os outros com compreensão porque a sociedade se tornou pacífica e as outras pessoas se tornam participantes de trocas vantajosas para todos, isso realmente muda a nossa visão de mundo e a forma como achamos que devemos olhar para o nosso próximo.

BK.  David Hume não disse que a razão é serva das paixões, em vez de ser a característica fundamental da pessoa humana?

BDeL Sim, mas como Michael Ignatieff destacou, as paixões de Hume são coisas muito pálidas. São coisas como ‘Eu gostaria de comer um pato assado esta noite’, ou ‘Eu gostaria de ler um livro’ ou ‘Eu gostaria de ir a Paris e ver roupas.’

Uma das coisas muito interessantes sobre Adam Smith é a maneira como ele retrata um mundo de uma sociedade comercial, de troca pacífica em 1759, apenas 14 anos após a rebelião de 1745 na Escócia e 44 anos após a de 1715. Um dos principais temas de A Riqueza das Nações é a transição da antiga sociedade feudal em todas as suas representações  — uma das quais é que o poder é apropriado por ter muitos dependentes armados e em que o principal utilização da sua riqueza é alimentar mais guerreiros no seu salão para que lutem pelo senhor feudal — para um mundo em que o Duque de Argyll já não pode colocar 400 dependentes boçais em armas para lutar com uma semana de aviso, mas, em vez disso, está ocupado a comprar móveis Luís XV.

BK. E a retirar os seus clãs das suas terras para cobri-las com ovelhas…

BDeL Sim. Mas só com o advento do luxo é que o Duque de Argyll decide que ter todos esses vadios bêbados, beligerantes e revoltados à volta do seu palácio para o defender não é exatamente o que lhe interessa. E isso desempenha um papel importante na transição de uma sociedade de apropriação e dominação para uma sociedade de troca, cooperação e produtividade. E, claro, as coisas também funcionam no sentido inverso. As paixões permanecem, e uma delas é o desejo de que os outros tenham uma boa opinião sobre nós — inclusive nós mesmos.

Em A Teoria dos Sentimentos Morais, há uma passagem muito interessante em que Smith faz a seguinte pergunta: o que é que um filósofo pensaria se lhe dissessem que cem mil pessoas morrerão na China num terremoto amanhã? Bem, o filósofo ficaria um pouco triste, mas diria: “Elas estão muito longe. Não conheço nenhuma delas.” Ele faria algumas reflexões sobre a vaidade dos desejos humanos, o capricho do acaso e a incerteza da vida — e, nos dias de hoje, acrescentaria: “Esse é um ótimo tema para a minha próxima coluna no blog.” Passaria algumas horas de forma produtiva e feliz a  esboçar o seu artigo e, em seguida, dormiria como um bebé.

Mas, se você dissesse hoje a um filósofo que amanhã de manhã um louco entraria em sua casa, o aterrorizaria e lhe arrancaria o seu dedo mindinho, ele não pregaria os olhos a noite toda.

Ricardo e Malthus, especialmente, estavam perto de serem os melhores amigos

As paixões estão profundamente envolvidas em evitar danos físicos, mesmo ao seu dedo mindinho, em contraste com as vidas e os meios de subsistência de pessoas distantes sobre as quais você nada sabe. No entanto, Adam Smith afirma que nos ensinámos a nós mesmos a considerar que moralmente seríamos monstros se sacrificássemos o sustento de cem mil pessoas que não conhecemos apenas para preservar um pouco da nossa integridade física. Qualquer filósofo nos salões de Londres apressar-se-ia a dizer: “Eu abriria mão do meu dedo mindinho para evitar aquele terremoto” e se consideraria uma pessoa boa, sã e feliz por estar disposto a fazer esse sacrifício, mesmo por pessoas que nunca conheceu e que jamais saberiam o que ele fez. E essa evolução em direção a uma civilização muito mais pacífica, amigável e produtiva — onde até a guerra tem leis que mitigam os seus danos — foi uma parte importante do Iluminismo e do mundo que os economistas clássicos esperavam construir.

 

(continua)

 


O entrevistador:  Benedict King é editor independente e escritor. Licenciado em História pelo King’s College de Londres e mestre em Economia por Birkbeck, Universidade de Londres. Em 2024/2025 foi gestor de campanha e assistente parlamentar do deputado Charlie Maynard (partido Liberal). Foi editor de História e Economia em Five Books de 2019 a 2024 e sócio de Hakluyt & Company de 2008 a 2018.

O entrevistado:  J. Bradford Delong [1960- ] é Professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado no National Bureau of Economic Research. Foi Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA durante a Administração Clinton, onde esteve fortemente envolvido em negociações orçamentais e comerciais. O seu papel na concepção do plano de salvamento do México durante a crise do peso de 1994 colocou-o na vanguarda da transformação da América Latina numa região de economias abertas, e cimentou a sua estatura como uma voz de liderança nos debates de política económica. É licenciado em Economia pela universidade de Harvard. É doutorado pela mesma universidade. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

 

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