Nota de editor
Júlio Mota, no seu texto Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise, sugeriu que a sua narrativa sobre a angústia dos tempos que vivemos fosse acompanhada pela leitura de uma entrevista a Brad DeLong intitulada “Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos, recomendados por Brad DeLong”, livros estes que, segundo Júlio Mota, devem fazer parte de uma formação sólida e geral em economia.
Dada a extensão desta entrevista a Brad DeLong, a mesma é publicada em quatro partes, hoje a quarta e última parte.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos (4/4)
Recomendados por Brad DeLong
Entrevista conduzida por Benedict King em 24 de Agosto de 2020
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Estes eram um grupo eclético, incluindo, entre outros, um especulador do mercado de ações (Ricardo), um filósofo moral (Adam Smith), um clérigo (Malthus), um advogado (Jean-Baptiste Say) e um jornalista (Marx). Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, foram os primeiros a fornecer explicações sistemáticas sobre como funcionam as economias, onde falham e como poderiam funcionar melhor. Aqui, Brad DeLong, professor de economia na UC Berkeley, apresenta os economistas clássicos e sugere livros para saber mais sobre cada um deles e sobre os seus objetivos.
The Passions and the Interests, The Worldly Philosophers,
por Albert Hirschman por Robert L Heilbroner
The Classical Economists Revisited, Economic Sentiments: Adam Smith,
Condorcet and the Enlightenment,
por D. P. O’Brien por Emma Rothschild
Karl Marx: A Nineteenth-Century Life, por Jonathan Sperber
(conclusão)
Benedict King (BK.): Falemos agora sobre o livro Karl Marx: A Nineteenth Century Life de Jonathan Sperber. Este livro examina a relação de Marx com os economistas clássicos, não é? Ou porque é que ele pode ser entendido muito melhor como uma figura do século XIX que olha para trás, para o início do século XIX, em vez de para a frente para o século XX?
Brad DeLong (BDeL.): Há sempre a questão de como é que cada um de nós deveria ler Marx. Ler O Capital’ de Marx, penso eu, é uma questão que não é muito útil para a maioria das pessoas. Há capítulos que eu adoro, mas esses capítulos tendem a estar mais para o final. E há muita coisa que está errada. Há muita coisa que é confusa. Há muita repetição. Há muita coisa que é incompreensível, a menos que o leitor seja um alemão da metade do século XIX, que começou como um filósofo hegeliano e depois se convenceu de que o verdadeiro caminho para a mudança não era descobrir como pensar corretamente, mas sim através da ação política, para trazer à Alemanha algo como a Revolução Francesa. O leitor precisa de ter a compreensão de Marx de que a revolução política não funcionaria sem entender como é que a economia é estruturada, porque a liberdade política, a liberdade de voto, sem uma economia que permita altos níveis de produtividade e também uma distribuição bastante igualitária dos produtos da economia, vale muito pouco — e a economia por si só não produziria a necessária distribuição igualitária de rendimento.
Se você tem essa experiência, então O Capital foi escrito para si, porque você está a acompanhar a trajetória de Karl Marx a tal ponto que isso faz sentido. Caso contrário, é melhor ler alguém que escreva bem sobre Marx do que ler o próprio Marx. E Karl Marx: A 19th Century Life é um livro absolutamente maravilhoso porque leva Marx muito a sério e também ressalta que as questões que o preocupavam então ainda afetam, em grande parte, o nosso sistema económico de hoje- — como a questão de como administrá-lo para se ter uma prosperidade geral e relativamente igualitária. Mas ele teve de analisá-lo no contexto do seu tempo específico, com as suas preocupações particulares.
De certa forma, Marx subverteu a lógica de Malthus. Malthus pensava que a economia de mercado, se deixada por si só — ou seja, sem ser reforçada pelo patriarcado, pela religião ortodoxa e pela monarquia — não produziria uma boa sociedade, porque a produtividade individual dos trabalhadores seria baixa devido à escassez de recursos naturais. A falta de recursos naturais significaria que o trabalhador marginal não seria muito produtivo e, portanto, não conseguiria fazer muito negócio na economia de mercado. Assim, a vida da classe trabalhadora — a maior parte da humanidade — continuaria a viver uma vida desagradável, brutal e curta.
Marx pensava que isso não era um problema. Marx pensava que a engenhosidade humana, juntamente com o avanço tecnológico, eram tais que a escassez de recursos não seria algo importante. Até agora, Karl Marx venceu esse debate, embora o aquecimento global possa ensinar-nos algo diferente no futuro. Então, porque é que, questionava Marx, os salários reais eram tão baixos que até alguém como John Stuart Mill podia questionar porque é que essa economia de mercado não havia produzido nada de valor para a classe trabalhadora? Marx achava que o problema era que os meios de produção produzidos – o trabalho passado das pessoas cristalizado na forma de edifícios, máquinas e processos de produção – não era um complemento para o trabalho atual, mas sim um concorrente dele. Os patrões podiam acumular trabalho passado cristalizado na forma de capital.
E, então, o facto de eles possuírem todo esse trabalho passado na forma de capital significava que não precisavam dos serviços de tantos trabalhadores vivos para produzir o que produziam. Assim, com o passar do tempo, à medida que a sociedade enriquecia, a produtividade aumentava e a ciência avançava, ainda assim aconteceria que a floresta de braços estendidos em busca de trabalho se tornaria cada vez mais densa, enquanto cada um desses braços individuais se tornaria cada vez mais magro.
“Marx está na origem de uma grande parte do que ainda está vivo na economia moderna.”
Agora, porque é que a propriedade não poderia ser distribuída de forma igualitária? Bem, a propriedade não poderia ser distribuída de forma igualitária devido ao funcionamento dinâmico natural da economia de mercado — simples possibilidade. Poderíamos começar com uma distribuição igualitária de propriedade, o que Marx chamaria de distribuição ‘pequeno-burguesa’. Mas algumas pessoas teriam sorte, outras não. Os sortudos ficariam mais ricos, e os azarados, mais pobres. Como os sortudos são mais ricos e têm mais capital à disposição, seriam mais produtivos. O facto de serem mais produtivos significaria que ficariam ainda mais ricos e que a distribuição de riqueza e, eventualmente, de rendimento se afastaria por um ‘movimento browniano’ para uma distribuição muito desigual e concentrada.
Nesse caso, então precisa-se que o governo faça algo a respeito disso e, na visão de Marx, precisa-se que o governo nacionalize tudo o que é importante e que forme uma sociedade de produtores livres associados, na qual as pessoas decidam democraticamente o que deve ser produzido, em vez de se ter uma ditadura da plutocracia.
Marx estava a tentar entender porque é que a economia de mercado não estava a gerar um bom resultado por si só. Ele estava a tentar descobrir como era possível que a sociedade estivesse estruturada dessa maneira específica. Esse foi o trabalho de sua vida, e essa foi uma vida muito do século XIX — daí o título do livro.
BK. Será que alguém como Condorcet tinha muito a dizer sobre a forma como se poderia distribuir o capital de forma mais justa na sociedade?
BDeL Condorcet e os economistas clássicos anteriores achavam que havia um monopólio da propriedade nas mãos da classe dos proprietários de terras, aqueles que alegavam ser donos da terra porque os seus antepassados tinham conquistado a Gália sob o estandarte de Clóvis, rei dos Francos por volta dos anos 400. Estes economistas pensavam que se simplesmente nos afastássemos deste tipo de concentração feudal ou semi-feudal da propriedade fundiária nas mãos de alguns, não haveria grande preocupação. E, de facto, Smith não considera que a desigualdade de rendimentos e de riqueza seja uma grande preocupação.
Você pode encontrar trechos em Smith, especialmente em A Teoria dos Sentimentos Morais, onde ele diz que todo aquele que chega aos 70 anos e teve grande sucesso na vida, e agora é rico, deseja sentar-se ao sol no parque e refletir sobre como a vida é agradável. Mas você pode sentar-se no parque aos 20 anos e refletir sobre como a vida é agradável. Passar hora após hora após hora no escritório de contabilidade a acumular cada vez mais ouro que você nunca gastará em algo que realmente o faça feliz — essa é uma deformação psicológica da qual os ricos em ascensão social sofrem.
E, embora seja algo bom para a sociedade que essas pessoas sofram dessa deformação, porque isso torna a economia mais produtiva e próspera, na verdade é algo mau para elas. Elas deveriam ser muito mais estoicas e epicuristas. Mas, em vez disso, os ricos trabalham para todos os outros, criando uma economia mais próspera e, ainda assim, obtêm muito pouco em termos de felicidade ao longo da vida. Só quando chegamos a Marx e John Stuart Mill é que as pessoas começam a dizer: ‘Espere um pouco. Nós temos essa sociedade e ela é muito produtiva, muito mais produtiva do que era antes. Temos todas essas tecnologias maravilhosas, mas porque diabos é que as pessoas ainda vivem no East End de Londres da mesma forma que viviam em meados do século XVIII?’
BK. Em que medida é que Karl Marx é um economista clássico?
BDeL. Marx é um filósofo hegeliano alemão de formação escolástica que tenta ser um economista, embora a sua vocação natural seja a de jornalista. No entanto, ele decide — acho que corretamente — que a chave para entender o mundo da Revolução Industrial em que vivia era a economia. Por isso, conclui que o que realmente precisa é de se tornar um economista técnico e teórico. Assim, ele passa os anos de 1855 até ao fim da sua vida a tentar estabelecer e consolidar a sua linha teórica em economia, mas nunca consegue finalizá-la, nem para sua satisfação pessoal e muito menos para satisfação dos outros
Marx achava que não havia solução a não ser o socialismo. E tinha razões para isso. Ele acreditava que não bastava o governo impor impostos um pouco mais progressivos para redistribuir o rendimento e a riqueza de forma mais equilibrada. Porque não? Porque o dinheiro fala por si-mesmo. E o dinheiro falando por si mesmo controlaria o governo. Os ricos sempre teriam influência suficiente sobre o governo para impedi-lo de impor uma distribuição aceitável de rendimento e de riqueza na economia.
De todos os pontos de vista, este é um livro absolutamente maravilhoso. Gostaria de tê-lo lido há 15 ou 20 anos. Ele enriquece muito a minha capacidade de compreensão sobre as vias que levaram Marx às suas posições e porque é que ele estava tão seguro de que estava certo. Além disso, o livro mostra que, embora ele talvez não tenha encontrado todas as respostas, certamente se empenhou em desenvolvê-las e levantou questões e preocupações que nos inquietam ainda hoje. Marx está na origem de muito do que ainda é relevante na economia moderna. A questão de que tipo de distribuição de rendimento e de riqueza uma economia de mercado gera é definitivamente uma grande preocupação atual. Marx foi um dos primeiros a produzir uma teoria do ciclo de negócios. Penso que é uma teoria errada, mas é uma teoria. Antes de Marx, Ricardo e Say negavam que houvesse um problema real, embora Say tenha mudado de ideia mais tarde. Malthus achava que havia um problema, mas confundiu-se e pensou que estava ligado ao problema malthusiano da escassez de recursos.
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O entrevistador:
Benedict King é editor independente e escritor. Licenciado em História pelo King’s College de Londres e mestre em Economia por Birkbeck, Universidade de Londres. Em 2024/2025 foi gestor de campanha e assistente parlamentar do deputado Charlie Maynard (partido Liberal). Foi editor de História e Economia em Five Books de 2019 a 2024 e sócio de Hakluyt & Company de 2008 a 2018.
O entrevistado:
J. Bradford Delong [1960- ] é Professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado no National Bureau of Economic Research. Foi Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA durante a Administração Clinton, onde esteve fortemente envolvido em negociações orçamentais e comerciais. O seu papel na concepção do plano de salvamento do México durante a crise do peso de 1994 colocou-o na vanguarda da transformação da América Latina numa região de economias abertas, e cimentou a sua estatura como uma voz de liderança nos debates de política económica. É licenciado em Economia pela universidade de Harvard. É doutorado pela mesma universidade. (para mais info ver wikipedia aqui)






