CARTA DE BRAGA – “dança e carteira” por António Oliveira

É um frete, é uma chatice, estar sempre a falar do mesmo tolo, mas quando o vejo a dançar, a mexer os braços como se estivesse a acompanhar um ritmo qualquer que só ele tem na mona; tenho a certeza absoluta de ‘no mínimo, estar a vir aí uma canelada’. Lembro um personagem que fez história, o sargento importante no filme ‘Full Metal Jacket’ (‘Nascido para Matar’), de Stanley Kubrik, já em 1987, por dizer, na instrução, qualquer coisa como isto, ‘Uma arma não passa de uma ferramenta, um coração de pedra é que mata’.

É exactamente o que penso, quando vejo o atoleimado naqueles despropósitos, ou quando exibe, orgulhoso, uma assinatura gigante, para todo o mundo ver que ele também sabe escrever; o grande problema é o que virá a seguir, até seguindo a opinião de Roland Barthes, o filósofo, sociólogo e escritor francês que marcou bem os anos sessenta e setenta, e que na obra ‘Mitologias’, define uma pessoa fundamentalmente instável, que só segue as normas e regras que o possam beneficiar, subvertendo o seguimento completo dos seus actos, ‘Uma pessoa imprevisível, logo associal. Refugia-se atrás da lei quando julga que ela lhe é propícia, e trai-a quando isso lhe convém; tão depressa nega o limite formal da arena, e continua a zurzir um adversário protegido legalmente pelas cordas, como estabelece esse limite e reclama a protecção, que uns momentos antes não respeitava’.

E quando acaba a função, especialmente se está rodeado pelos maga´s, que comanda a bel prazer, lá sai mais um arremedo de dança, punhos ao nível do umbigo, para não ensarilhar a gravata. Esta e outras atitudes, a maneira como recebe alguém na casa onde vive em Washington, as chantagens que efectua com as tarifas que tenta impor para colmatar o deficit comercial, o açambarcamento e as ‘compras’ de territórios que lhe interessam, pela riqueza do solo ou local estratégico, as ‘amizades’ que faz e desfaz ‘à Lagardère’, as desigualdades internas que cria e nem lhe interessam, porque os pobres só serem uns ‘loosers’, tem levado muita gente a estudar tal atoleimado.

Eliot Weinberger um intelectual americano tão independente, que seus ensaios políticos nunca foram publicados no seu país, escreve, especialmente na ‘London Review of Books’, textos altamente críticos ao populismo nacional. E a uma pergunta sobre o racismo.

É difícil entender como eles ainda existem, mas lá estão eles, combatendo a diversidade e apagando tudo o que não é branco. Os africânderes são os únicos imigrantes que Trump admite. Ele favorece os brancos para evitar o inevitável, ou seja, perder sua maioria racial. O racismo é a principal força motriz dos EUA. Veja mesmo que, no final do século XIX, havia também uma corrente, muito forte, contra imigrantes judeus e católicos. A retórica é, hoje, a mesma’.

Depois, sobre o caso Israel, Weinberger adianta, ‘Ele apoia Israel por oportunismo político, pois conta com muitos doadores judeus e evangélicos. Não se pode atribuir nenhuma ideologia a Trump, só tem emoções e estratégias para manter o poder a todo custo, típico em líderes fascistas. Ele ama o poder mais do que qualquer coisa, ou pessoa, no mundo. Ataca Harvard e Columbia, em parte porque elas não admitiram seu filho Barron’.

A historiadora especializada no tema Estados Unidos, Maya Kandell, da Universidade Paris 3, numa entrevista a ‘Nonfiction’ de 12 de Julho, garante ‘A característica dominante dos apoiantes de Trump é uma mudança reaccionária diante das mudanças económicas, culturais e sociais extremamente rápidas do último meio século. É também uma forma de fúria populista, diante da injustiça de um sistema económico, que continua sendo o mais desigual das democracias ocidentais. No entanto, na ausência de propostas políticas bem construídas, somente o trumpismo oferece uma saída para essa fúria impotente. Em termos gerais, os eleitores de Trump podem ser divididos em duas categorias, os que votam em apoio a tudo o que ele diz, e os que votam apesar do que ele diz’.

Não seria preciso mais coisa alguma para definir aquele sujeito do lado de lá do charco, mas Kandell ainda acrescenta, ‘O trumpismo incorpora tanto poder narrativo quanto poder político. Uma presidência que se tornou um ‘reality show’ permanente, onde conflito, suspense e confrontos substituem a acção pública. Há algo do Império Romano na máquina mediática MAGA, que evoca uma frase do filme Gladiador, ‘Não está entretido?’. Talvez não estivesse, por isso procurou a amizade e a companhia do ‘anjo’ Epstein!

E, talvez prevendo todas estas coisas, escreve José Antonio Gomez, director do ‘Diario 16’, ‘A única estratégia válida para deter Trump, é tocar-lhe na carteira’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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