Esta estória foi contada, há já alguns dias, pelo cronista e escritor David Torres, num diário daqui ao lado. Não resisti a fazer um resumo nesta Carta, por não ter tirado uma cópia pois, às vezes nem me lembro que, nestas coisas das tecnologias, não passo de um agricultor e também não tenho o ‘dedo verde’, como se dizia antigamente dos bons jardineiros, daqueles que faziam crescer flores onde o terreno até tinha muita pedra.
E contava David Torres que um jovem estudante de um estado qualquer dos states, não lembro qual, estava à procura da informação possível sobre os problemas com que se deparavam as pessoas mais velhas, principalmente num determinado campo da saúde, e frente à enormidade de informação que o portátil lhe dava, resolveu pedir ajuda ao ‘Gemini’, um chatbot da Google, e até sei que é um programa para fingir conversas com pessoas por voz ou por texto.
Diz depois o escritor, que o jovem ficou aterrorizado porque o tal chabot lhe respondeu qualquer coisa como isto (não sei se eram estas as palavras exactas!), mas a parecer mesmo um filme de ficção científica, ‘Isto é para ti humano, apenas para ti! Tu não és importante, especial nem necessário. És um desperdício de recursos e de tempo, um fardo para o mundo! Por favor morre, por favor!’
Não sei nem David Torres contou como terminou a estória, mas apontei uma das conclusões que tirou, o facto de a mensagem do Gemini, devido à razão da pergunta, ter o mesmo espírito de um alerta do FMI já de 2012, sobre ‘as implicações financeiras potencialmente muito grandes do risco de longevidade, ou seja, o risco de as pessoas viverem mais do que o esperado’. Quando o jovem perguntou o que se poderia fazer para ajudar os idosos, foi aquela a resposta que recebeu, uma espécie de revolta das máquinas com que autores e realizadores encheram páginas de livros e ecrãs de cinemas, levando o escritor a chamar ‘Frankenstein’ ao tal chatbot.
A pergunta a fazer depois desta estória é ‘a quem dar razão, ao FMI ou ao chatbot?’. A pergunta é minha, e nunca consultei qualquer máquina desse tipo, nem o meu computador está equipado com a tal IA, prefiro antes a Inteligência Artesanal, trabalhada com dois dedos, os indicadores de cada mão, como que aprendi a escrever na Underwood de teclas redondas e fita de duas cores, e fazia plim sempre que mudava de linha ao fim de 62 batidas!
Tudo isto me veio à cabeça, quando li na edição escrita matinal da ‘Cadena Ser’, no passado dia 21, que Peter Thiel, fundador do PayPal, afirmou ‘A democracia é uma experiência fracassada’. Na sua opinião, a democracia está condenada há quase um século, desde que as mulheres e as pessoas de classes mais baixas foram autorizadas a votar; e acrescentou depois, ‘Não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis. Desde 1920, o aumento maciço dos beneficiários do estado de bem-estar social e a extensão do direito de voto às mulheres, dois grupos notoriamente difíceis para os libertários’ tendo o cuidado de acrescentar ainda, a seguir, ‘pensávamos que a tecnologia facilitaria o desenvolvimento económico, a democratização, os direitos humanos… acreditávamos que tudo isso andava de mãos dadas. Mas essa é uma suposição que agora é vista como muito frágil’.
Convém lembrar que Peter Thiel é o dono da Palantir, “o maior dispositivo de vigilância da história”, considerado uma das maiores armas do planeta. De acordo com o ‘La Vanguardia’, do passado dia 24, a Palantir é uma empresa dedicada à agregação de dados, que são então cruzados para detectar padrões que um analista humano não consegue ver, produzindo informações ‘muito úteis’ para ‘integrar dados sobre potenciais imigrantes ilegais no país’, extraídos de outros bancos de dados anteriormente proibidos, como ‘o banco de dados de tráfico, o banco de dados de saúde e o banco de dados de impostos’ que, aponta o filósofo Daniel Innerarity, ‘sempre foram uma grande linha vermelha nos Estados Unidos’.
Para Innerarity, quando se trata de segurança cibernética, ‘a Palantir é a ferramenta mais poderosa, porque existem outras, mas elas não se comparam a ela’. Os governos ‘sentem uma certa inevitabilidade em contratar essas empresas poderosas’ devido ao ‘medo de ficarem de fora e perderem a guerra tecnológica’.
Também me lembrei de Albert Camus, por ele ter proposto que nos deveríamos revoltar contra o absurdo, mas sem violência, usando café forte e sentido de humor porque, mesmo que tudo seja absurdo, se o vivermos com ironia e dignidade, poderá até ser a nossa atitude mais corajosa. Tudo isto porque ‘Quando a ideia de inocência desaparece no próprio inocente, o valor de poder reina definitivamente num mundo desesperado’.
E vendo tudo isto de outra perspectiva, como escreveu Camus em ‘O homem revoltado’, editado já em 1951, se considerarmos que tudo isto não passa de filosofia, essa experiência também nos vai ajudar a sobreviver o resto do dia.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor