A FORÇA DAS PALAVRAS ESTRANGULADAS – por Adão Cruz

A FORÇA DAS PALAVRAS ESTRANGULADAS

 

por Adão Cruz

Mal-aventurada palavra

bem-aventurada palavra

espectaculosa ou mal-entendida

repentina

abandonada

terrosa ou etérea.

Penoso viver do lado direito com obtuso cérebro

que irradia uma luz cor-de-rosa de banal bom-senso

ridícula

religiosa e fria

estranho conúbio de cálculo e simetria.

Do lado esquerdo

vestígios de terra seca retocados de sol e água

húmida palavra

em secreta transição da estreiteza da vida

para a infinita margem do sonho.

Palavras tépidas

Impuras

laterais

resplandecentes nas vitrinas de luxo

insalubres

umbrosas

sepulcrais e lacrimais

monumentais

desdobráveis

descobríveis

maduras de oiro e trigo

e penoso desejo de céu azul

no imenso tossir da poeira dos ideais insubmissos.

Jactância lodosa

leitosa

grudada a translúcidos horizontes

respirando asfixia na secura de todas as fontes.

Dúctil criatura de aço e pés pequenos

em largos sonhos de vibração das manhãs de rosto alvo

sem distâncias nem delírios.

Bem-aventurada palavra

mal-aventurada palavra

viva

morta

sensual

fria

erecta

impotente

vazia

ofegante

sibilosa

rotunda

famélica e fremente.

Eu temo muito o mar

o mar enorme

solene

enraivecido e turbulento.

Se a minha amada um longo olhar me desse

dos seus olhos que ferem como espadas

eu domaria o mar que se enfurece

com a força das palavras estranguladas.

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