A Vida é um longo caminho a percorrer, ora por chão sem armadilhas, que não nos façam cair, ora por chão com pedregulhos, por vezes invisíveis, ou tardiamente visíveis.
É esta a Vida que encontramos quando saímos da barriguinha da nossa mãe feliz e sonhadora prometendo dar amor e carinho ao seu bebé.
Mas a sirene faz-se ouvir e o bebé, enrolado nos primeiros panos, ao colo de sua mãe, sente os primeiros pedregulhos que a Vida lhe oferece…
Mas o que é a Vida tantas vezes oferecida pela violação de sua mãe na guerra, na cidade ao virar de uma esquina, na sua casa pelo pai, tios ou mesmo amigos dos pais?
Mas o que é a Vida quando nascemos num ambiente de calma, carinho, afeto e perspetiva de vidas facilitadas pelo poder, ou seja, pelo acesso ao conhecimento e ao conforto?
Ruth Benedict, antropóloga, argumentou que as pessoas que não se enquadravam no carácter dominante da sua cultura eram oprimidas por essa cultura.
A Vida é assim determinada pelos comportamentos que as pessoas escolhem e que melhor servem a sua sobrevivência num mundo feito de verdades e não verdades.
Mas onde está a verdade? Aceitar a Vida como verdade revelada pelas sociedades maioritárias, dominantes e poderosas é conformismo que em nada ajuda as boas relações culturais entre as diversas culturas. A aceitação da não verdade leva a uma maior autoestima, à criação de uma força de não aceitação e que faz girar o Mundo rumo a uma vida melhor para todos baseada na inclusão.
Mas o que é a Vida tantas vezes vivida no silêncio de palavras pensadas, comparadas, baseadas em teorias que o tempo permitiu ler e estudar, ou com histórias contadas pelos seus antepassados, no meio do ruído de concursos embrutecedores saídos de uma televisão que não bate à porta, não pede licença para entrar porque sabe que o silêncio, dentro das famílias, está à espera de se rever nas obscenidades, nas atrocidades, nos crimes, nos assaltos, no discurso que gostariam de fazer, o discurso da exclusão… da repressão… do ódio pelos diferentes…
Pelos diferentes? Os meios de comunicação social, o senso comum, as famílias, as escolas não os referem, nem estão particularmente interessados em desconstruir as representações sociais baseadas em factos relatados com não verdades, por omissão ou por mentira. Afinal, porque somos culturalmente outros?
Pelos diferentes que aqui desaguam na esperança de terem uma vida melhor? Ou pelo eu que aqui nasci e que eles, os meus diferentes, me vêm diferente.
E a dúvida acontece. Quero ser como o diferente, como os que encontro nos novos caminhos cheios de armadilhas? Nesse caminho andamos todos, de todas as origens culturais, territoriais, religiosas, organização social…
Diferente é diferente, não é melhor nem pior.
Pelo caminho vamos deixando as nossas marcas positivas e negativas relativamente às nossas vidas sociais, aos nossos modos de trabalho, à nossa constituição familiar, à nossa religião, ao nosso modo de educar…
Mas a aceitação não implica mudança, para mudar é preciso aprender com os outros, subtrair comportamentos (Deleuze), mas a História tem mostrado que, por vezes, é necessário o caos para a aceitação da mudança.
O que é a verdade e a não verdade?
A verdade passa a ser verdade quando um facto é aceite pela maioria, mas também é feita pelo silêncio daqueles que se sentem em minoria e têm medo de represálias, sanções, afastamento. no entanto, esse silêncio não é estático, é dinâmico e pode construir um contra- poder.
A escolha de alguns segmentos do arco de comportamentos, que abarcam todo o nosso ciclo de Vida, faz a individualidade de cada pessoa que escolhe o que lhe parecer relevante para a sua subsistência, ignorando os restantes, ou até mesmo condenando-os; pode escolher como relevantes os aspetos ligados à sobrevivência, ao bem-estar, ao excesso, ao reconhecimento positivo, à rutura com o outro…
A personalidade individual não se explica por caracteres biológicos, mas pelo modelo cultural e familiar particular de uma dada sociedade.