CARTA DE BRAGA – “de Steinbeck a Ronaldo” por António Oliveira

Lembrei-me, há já alguns dias, de procurar uma sinopse da obra maior de John Steinbeck, ‘As vinhas da ira’, porque a situação neste país e noutros desta Europa quase partida, muito me fazer lembrar os states da grande depressão que os afectou, bem como os milhões de pequenos agricultores, que entregaram as terras aos bancos e às corporações, que logo os substituíram por tractores e monocultura do algodão.

Não posso comparar a nossa situação com aquela, mas diz o eurodeputado João Oliveira no ‘Diário de Notícias’ do dia 13, a propósito da calamidade dos incêndios que nos têm afectado, ‘Nem uma palavra sobre a recusa em investir no ordenamento do território, no combate à desertificação do mundo rural, nos meios de protecção civil e combate aos incêndios. Nem uma palavra sobre o abandono das populações do interior, sobre a lei da selva liberal que tomou conta da silvicultura e do ordenamento florestal, sobre o desprezo pelos pequenos e médios agricultores e a agricultura familiar, sobre a secundarização dos bombeiros na protecção civil’.

Não me esqueço também de ter lido algures que um especialista em gestão florestal e, a propósito desta vaga de incêndios, ter afirmado ‘Estamos a viver o choque de dois comboios, anos de abandono e as mudanças climáticas’.

Na realidade, frente à quase indiferença (será que poderei usar esta palavra?), apoio-me num título agarrado num órgão de comunicação daqui ao lado, no passado dia 10, que transcrevo na íntegra, ‘Portugal combate o fogo com meios escassos e território abandonado’ e em subtítulo, ‘Mais de 42.000 hectares queimados até agora este ano, e críticas à falta de prevenção e gestão da paisagem rural’.

Termino este tema com mais um pouco do resumo de Steinbeck, ‘Um milhão de fazendeiros sem casa, sem emprego e sem comida não tiveram escolha a não ser emigrar para as ricas terras da Califórnia, atrás dos folhetos que ofereciam trabalho a quem precisasse’. É um dos outros lados dos problemas que nos afectam porque, diz no ‘Nueva Tribuna’ do dia 2, o historiador e cronista Cándido Marquesán Millán, ‘Uma das questões fundamentais da agenda política é a migração. Tanto que, em grande medida, os resultados eleitorais são condicionados por ela’.

E Millán é mais explícito ‘Aqui ao lado em Portugal, o governo português, nas mãos da coligação conservadora com Luís Montenegro, aprovou alterações à lei da nacionalidade, que vão endurecer a concessão da cidadania portuguesa a estrangeiros com o apoio do Chega, de Ventura’ para acrescentar depois, ‘Este crescimento eleitoral da extrema direita em toda a Europa, sobre a questão migratória, é uma prova irrefutável da imposição e assunção de seu discurso sobre grande parte da cidadania, claro que também em nossa Espanha’.

A jornalista e escritora Isabel Stilwell, vai mais longe no jornal ‘Negócios’ do passado dia 6, ‘Por vontade de Montenegro eu não teria nascido!’, acrescentando a seguir, ‘Luís Montenegro acaba de dizer publicamente que, se fosse por escolha dele, eu nunca teria nascido. E mesmo que tivesse visto a luz do dia, seria noutro país, estando impedida de viver com o meu pai, pelo menos em tempo útil. E era altamente improvável que alguma vez me pudesse chamar portuguesa’.

Recorde-se que, de a cordo com a Lusa, e o jornal ‘Público’, a CNPD (Comissão Nacional de Protecção de Dados) abre processo por divulgação de nomes de menores, ao líder do Chega, por André Ventura (que logo fala em ‘perseguição’), ter lido, no Parlamento, uma lista de nomes estrangeiros de alunos de uma escola de Lisboa, considerando que passaram à frente de portugueses. A deputada Rita Matias fez o mesmo nas redes sociais.

Enquanto estas coisas menores se vão passando, há outros órgãos de comunicação bem preocupados com os milhões do preço do anel de noivado que Cristiano Ronaldo ofereceu à noiva, Georgina Rodriguez! Em que mundo vivemos?

 António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply