CARTA DE BRAGA – “trumtin” por António Oliveira

Um artigo do ‘Le Monde’, recupera uma crónica de alguns meses do jornalista Alain Franchon, onde afirma, ‘Entre outras semelhanças, Donald Trump e Vladimir Putin compartilham o mesmo desprezo pela realidade. Esta é uma maneira educada de dizer que eles mentem estão a mentir descaradamente. Mentir é provavelmente tão antigo quanto a política. Mas, à frente das maiores potências nucleares do mundo, destacam-se esses dois. Empurram a manipulação da verdade para o nível da obra-prima. Eles governam como artistas, eles criam’.

trumtin

Revista ‘Time’, 25.08.19

Curiosamente, a ‘Time’ apresenta esta capa na edição do dia 19, exactamente no dia em que o autocrata americano se reúne com alguns líderes europeus, mas em que não teve conclusões firmes a não ser (escrevo também nesse dia) uma possível reunião entre Putin e Zelensky, sem qualquer deles abdicar das suas posições e convicções, depois de a Rússia ter bombardeado ontem a Ucrânia com 270 drones e 10 mísseis, num dos piores ataques desde o início da guerra. Entretanto, mantêm-se as ameaças de sanções sobre a Rússia, nada se sabe das crianças que foram roubadas na Ucrânia e para lá levadas, bem como nada se sabe da maneira como Trump encara a União Europeia, para além do seu potencial de compra de armamento.

Aliás, as condições humilhantes aceites pela maioria dos parceiros europeus da NATO, para conseguir que o americano apoiasse a Ucrânia, com o tal aumento de 5% do PIB, parecem também não ter qualquer importância, ou ter apenas a que mostra a capa da ‘Time’ que não deve contribuir grande coisa para a sua corrida ao Prémio Nobel da Paz, com que quatro antigos presidentes dos states já foram laureados.

 Nem contribuirá muito, o facto de a Ucrânia se negar a entregar qualquer parte do seu território (internacionalmente reconhecido), e a Rússia a entregar os territórios que conquistou à Ucrânia desde a anexação da Crimeia em 2014, bem como uma eventual deslocação de tropas europeias para garantir a segurança do país, mas só depois de um também eventual acordo Putin/Zelensky, quando a posição da Europa parece ser cada mais secundária.

O editorial do ‘El País’ do passado dia 14, mantêm uma posição semelhante à ucraniana, pois ‘Os líderes europeus disseram esperar uma reunião frutífera que alcance um cessar-fogo, mas insistiram que o objectivo é uma paz ‘justa e duradoura’, sem concessões territoriais permanentes, e com garantias de segurança que impediriam o Kremlin de atacar novamente o território ucraniano, ou de qualquer outro aliado europeu. A ansiedade é justificada porque não está claro se Trump entende essas linhas vermelhas essenciais’.

O maior problema, referido e defendido por muitos comentadores e estrategistas, está no facto de a Europa conquistar uma independência estratégica, de acordo com a sua identidade democrática na ordem internacional.

Se continuarmos assim (e nós quem somos?), talvez acabemos todos a pensar como no poema de Saramago ‘Demissão’, integrado em ‘Os poemas possíveis’, publicado em 1977

Este mundo não presta, venha outro.

Já por tempo de mais aqui andamos

A fingir de razões suficientes.

Sejamos cães do cão: sabemos tudo

De morder os mais fracos, se mandamos,

E de lamber as mãos, se dependentes

 

António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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