As sílabas marginais/RAÍZES DE CAL E PEDRA/Nelson Ferraz

 

 

 

 

 

RAÍZES DE CAL E PEDRA

 

 

a casa é uma tripulação sem madrugada

detritos desiludidos, murmúrios no crepúsculo.

o musgo jaz sem parágrafos sobre degraus caídos.

o tempo atropelou todas as janelas maduras.

sente-se um perfume de cal na melancolia das pedras.

e as pedras são as raízes da casa que chegou ao fim.

não há agasalhos possíveis para os olhos com chuva.

o vazio invadiu o quintal e perseguiu os pássaros.

o pessegueiro morreu numa hora qualquer.

numa hora que tanto fazia ser cedo como tarde.

mas era tarde e as folhas tremeram sob as máquinas.

a casa poisa agora em todas as escadas da infância.

a casa moribunda, triste, sozinha como todos os que ainda são dali.

ei, senhor das máquinas, cuidado com essas pedras, senhor!

atrás delas, debaixo delas, dentro delas

pode estar, ainda, alguém.

junto a mim.

1 Comment

  1. Parabéns, meu amigo! É CERTO QUE O TEMPO ” ATROPELA” TUDO, mas as memórias ficam intactas , mesmo debaixo das ruínas…O seu poema tem tantas leituras!!!Saboreei , com prazer, esta nostalgia que sai de todas as palavras…O meu abraço!

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