CARTA DE BRAGA – “quem somos e como partimos” por António Oliveira

O cartoonista Antonio Fraguas, mais conhecido como ‘Forges’, partido há já sete anos, mas bem conhecido pelos cartoons e ‘charges’, escreveu um dia, a propósito do país aqui ao lado, mas que bem se poderia referir também a este ‘à procura de si próprio’, pela grandeza e alcance das suas palavras, ‘Sentimo-nos como ibéricos, tememos como celtas, pensamos como gregos, rimos como romanos, trabalhamos como hebreus, amamos como árabes e acreditamos como ciganos. Como pode haver um espanhol racista?

Basta substituir o espanhol por um luso, um lusitano, um português ou um tuga, para nos sentirmos em casa, tal o caldinho de que somos feitos, tal a quantidade de gentes que aqui veio ter ou que trouxemos para cá, de Lagos a Caminha, mais os rios e enseadas de bem entrar e aportar que encontraram por toda a nossa abençoada orla marítima.

E Forges acrescenta, que é nessa diversidade, nas suas origens e culturas, naquelas gentes que foram e vieram, ‘É nelas que reside a nossa grandeza perante um mundo cada vez mais autoritário e violento, para com os vulneráveis, os pobres… Porque, no fim de contas, é isso; é isso que é o fascismo, e parece inacreditável que tenha de ser contado de novo, um século depois’.

O historiador e professor Luis Angosto escreveu também num jornal também daqui ao lado, há já umas semanas, ‘O capitalismo nunca quis a democracia; O seu objectivo foi sempre a exploração, a lei do mais forte, do mais poderoso, do mais canalha, dos sem escrúpulos, sem o menor remorso, sem o menor ressentimento. Um dos grandes debates filosóficos do nosso tempo continua a ser a Ética como parte inerente do ser humano, um elemento-chave no seu desenvolvimento, a fronteira contra a brutalidade. Para Kant, a Ética era agir de tal forma que nossa conduta pudesse servir de exemplo para os outros’.

E o jornalista e professor Fèlix Riera, escreve no mesmo dia e no ‘La Vanguardia’, ‘A maioria social construída com o trumpismo, e sua forma de exercer o poder minando os valores democráticos, devem levar a esquerda a pensar-se, não apenas como uma força de mudança, mas como uma garantia da estabilidade democrática’.

E o problema alarga-se a todo o mundo, pois de acordo com crónicas de analistas diversos, tanto de cá como de lá fora, a volta à Casa Branca de um líder excêntrico, com pouca ou nenhuma compreensão do capitalismo, articulado globalmente, levou a China a acabar com a hegemonia ocidental, e o Sul global a ameaçar reforçar a ideia de uma crise sistémica.

A Europa, agora uma das partes mais frágeis de tal sistema, mesmo com os esforços de alguns políticos e instituições, não conseguiu, melhorar a sua situação de dependência dos states, nem a sua posição, tanto em termos de defesa, como tecnológica e financeira, levando muitos a questionar-se sobre a sua autonomia, desta dita financeira, até à cultural.

E apareceram também e ainda, notícias de acordos entre Paris, Londres e Berlim, para uma nova política de defesa, mas diz um dos cronistas que li, ‘Não é coincidência que esse trio de poderes seja composto por três governos que pertencem às três famílias do consenso centrista, Democratas Cristãos/Conservadores (Alemanha), Liberais (França) e Sociais-Democratas (Grã-Bretanha)’.

Para terminar e deixar uma nota diferente, aqui fica uma sentença para muitos dos que ‘dizem governar-nos’, da autoria de um português, José Saramago, que se assumia, pelas suas origens, da mesma maneira daquele Forges com que comecei esta Carta, ‘Tentei não fazer nada na minha vida, que envergonhasse a criança que fui. Quando eu for deste mundo, partirão duas pessoas: sairei de mão dada com a criança que fui’.

Quantos, daqueles que passam por lugares de mando, terão a suficiente tranquilidade interior, para repetir Saramago?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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