O MUNDO É GRANDE E ESTRANHO por Luísa Lobão Moniz

 

Hoje vivemos o mundo de muitos mundos com tempos desiguais, com viveres diferentes, com desejos iguais de solidariedade, de paz, de bem-viver. As realidades de cada mundo tocam-nos através das memórias esquecidas e dizemos “como é possível!”. Sim é possível, sempre o foi e nada indicia que não volte a ser enquanto o Ter é mais forte do que o Ser.

Na realidade, quando nascemos, é o Ser que nos importa, crescemos a criar a nossa identidade, a nossa especificidade, o nosso Eu que queremos seja reconhecido e aceite pelo nosso espaço, tempo e comunidade de pertença.

A memória diz-nos que o mundo tem estado sempre em mutação para a criação de um Mundo melhor e a verdade é que vivemos num mundo capacitado para ser melhor na Ciência, na cura de muitas doenças, na quantidade de pessoas que têm acesso ao conhecimento, a novas tecnologias que podem melhorar a nossa qualidade de vida e de trabalho, o direito a ter Vida para além do trabalho…ter tempo livre…

Neste entretempo, o mundo em permanente mutação criou novas formas de se organizar, já não só no nosso espaço e tempo, mas a uma escala global e a uma velocidade que não nos deixa incorporar o novo porque outro novo desponta. A nossa existência individual e coletiva deixam de ser as narrativas que nos davam a nossa identidade porque foram substituídas por imagens que surgem a alta velocidade fazendo esquecer o mundo de ontem. Vive-se num mundo de alerta constante porque o medo, esse sim, foi incorporado por cada um de nós.

As imagens que a comunicação social nos mostra são intemporais. Crianças que morrem desnutridas, mães e pais mortos, falta de alimentos e de medicamentos. Terá havido, ou haverá alguma guerra que não seja para matar, humilhar o mais fraco até à morte?

Onde está o caminho para a eliminação do Poder dos homens que não conhecem limites criados pela Natureza: O choro, os gritos, os medos, o sofrimento, a dúvida do porquê da existência humana. Não serão, certamente, apenas as palavras Ter e Ser!

Mas a maioria da população mundial não está a sofrer por causa dos senhores poderosos, estará, talvez, a sofrer outras realidades também sofredoras, mas num tempo que não é o nosso. O tempo não é o mesmo para todos os seres humanos, há quem viva segundo os seus rituais tribais e há quem faça guerra com armas sofisticadas… há quem viva para ser mártir e com isso honrar a família, há quem viva a chorar os mortos…

Mas todos os seres humanos lutam por ter uma vida melhor, para se defenderem dos agressores, todos os seres humanos são solidários.

Perante catástrofes naturais todos se ajudam (incêndios), perante a existência de reféns de guerra não há falta de pessoas que denunciam a violência exercida até à morte, não há falta de pessoas que organizam movimentos de ajuda humanitária. Mas onde está o caminho a percorrer para pôr fim às guerras? Nesse caminho há armadilhas invisíveis, há poder ideológico, há poder económico, há poder bélico, há poder do culto de personalidade…

O Mundo é complexo, é feito de muitas diferenças e de muitas igualdades, é contraditório, não vive todo com o mesmo conhecimento, sofre com a pobreza, mas incita ao lucro e à corrupção. Quer sempre mais fontes de rendimentos, mais luxos, mais coisas, mais descobertas científicas para viver mais tempo, quer ir à Lua, quer ostentar poder, mas na sua contradição existencial quanto mais ricos são mais pobreza existe.

O caminho para a libertação do Ser Humano existe, mas é preciso coragem e acreditar “que todo o mundo é feito de mudança tomando sempre novas qualidades”.

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Camões

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