CONTA LÁ OUTRA VEZ por Luísa Lobão Moniz

 

A Criança nasceu e chorou, foi para o colo dos pais que a miravam com a certeza que aquele ser tão pequenino seria feliz e que nunca ninguém lhe faria mal. Embrulhada em mantinhas e beijinhos foi para casa, refúgio contra qualquer contrariedade mal resolvida, local onde as interações familiares se faziam com respeito mútuo, local de apaziguamento com os males do mundo, local onde se sentia feliz e brincava.

Era em casa que ouvia os avós contarem lindas histórias com personagens boas e más, e quando os avós diziam FIM a criança respondia “conta lá outra vez”.

A criança nasceu, mas não trazia livro de instruções de uma educação para o amor, para a liberdade, para o respeito e conhecimento do outro. Não nasceu com livro de instruções para se posicionar perante um mundo feito de muitos monstros, mas também de muitas fadas e gigantes.

Os gigantes eram sempre bons e as fadas resolviam sempre os desejos das crianças. Mas como?

As crianças e os adultos sem infância não sabem que nos movemos num labirinto de fronteiras invisíveis, para além das visíveis. Voavam por toda a parte e aprendiam a separar o bem do mal.

O Gigante tinha a sorte de se colocar em cima das fronteiras e saber o que se passava do outro lado. E que via ele? Via um mundo diferente…

E as fadas?

As fadas voavam por todo o lado, ignorando aqueles que estavam do outro lado da fronteira visível, fronteira que era necessário derrubar porque ninguém sabia como se vivia do outro lado do muro. E porque havia um muro?

Os adultos com infância sabiam ensinar o que separa os grupos sociais, as relações de poder, o saber reconhecer no outro a diferença, os adultos com infância sabiam conviver com os limites, com as sanções sociais.

O ser passivo ou ativo perante o mundo em que a criança vive vai aparecendo, na sua vida, à medida que vai crescendo, à medida que encontra os limites aceites pela sociedade.

Ninguém diz que viver pode e deve ser muito bom, mas também pode ser doloroso.

A vida da criança e do adulto é uma constante feita de dúvidas sobre o porquê das fronteiras, dos limites, como mantê-los ou como derrubá-los.

A fronteira pode ser um espaço de separação em que de um lado temos violência e exclusão, e do outro inclusão, com identidades enriquecedoras, tudo depende das relações de poder.

A fronteira pode ser um espaço não desenhado geograficamente, mas inscrito nas atitudes de quem lá vive, a fronteira pode separar, pode unir.

Nos espaços fronteiriços não é fácil lidar com os hábitos culturais.

Há que ter em conta os limites da alteridade, é preciso entrar na fronteira e fazer emergir novas identidades feitas por conexões que subtraem a uns o desejo de conservar e aumentar o seu território, custe o que custar, e a outros acrescentam a outros novos limites de acordo o desejo de quem está barricado. Estamos todos barricados.

Das imagens que as crianças veem das guerras, criam-se monstros e fantasmas que algumas vão querer derrubar, vão querer crescer e lutar, de acordo com os seus estádios de desenvolvimento, como os define Piaget.

Das imagens de violência contra os diferentes, dos sem-abrigo que se abrigam no nada da vida…de tudo o que a criança capta do que se passa à sua volta, o medo aparece como solução, o desejo da marginalidade surge, mas também o desejo de mudar o mundo porque pessoas morrem subnutridas, o vulgo “pele e osso”, porque crianças morrem quando nascem; quando sabem que há crianças maltratadas, quando sabem que há mil milhões de batalhões de pessoas capazes de dar as suas vidas na luta contra as injustiças saltando muros, derrubando cargas policiais, organizando ajudas humanitárias.

Os limites que respeitam são os dos Direitos Humanos, as fronteiras que escolhem são as que unem.

A ponte

Para cruzá-la ou não cruzá-la

eis a ponte

na outra margem alguém me espera

com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas

entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira

um livro com os pânicos em branco

e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia

os lenços do mar e das pazes

os tímidos cartazes da dor

as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa

nunca vim com tão pouco

eis a ponte

para cruzá-la ou não cruzá-la

e eu vou cruzar

sem prevenções

na outra margem alguém me espera

com um pêssego e um país

Mario Benedetti “Antologia poética”].

Rio de Janeiro: Record, 1988.

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