Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre (continuação) – por Júlio Marques Mota

Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre (continuação)

por Júlio Marques Mota

 

 

Nota introdutória

Aqui vos deixo uma segunda carta aberta enviada ao Ministro da Educação, Fernando Alexandre, e que objetivamente é a continuação da primeira pelo que tem como título “Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre (continuação).

Esta segunda parte da Carta Aberta é um texto mais fácil de escrever porque não é dirigido a um antigo aluno, mas apenas ao atual ministro da Educação. Pode não parecer, mas é sempre difícil escrever a um antigo aluno e a criticá-lo duramente. Quando assim é, podemos dizer que estamos a rasgar a nossa própria pele, a ferir a nossa própria alma, porque uma e outra são socialmente reflexo do que fomos e, no caso, tentei ser o melhor possível para com um aluno de muito boa qualidade e de elevada maturidade. Ponto final na questão.

Na nota que escrevi ao Ministro e que segue em anexo, esta segunda carta é dirigida expressamente apenas ao Ministro da Educação, ou seja, assumi-me apenas como um cidadão que se revolta com o que vê, com o que lê, com o que ouve, com o que sente no seu dia a dia, sobre a atividade governamental e as declarações do Ministro da Educação na Figueira da Foz são disso um bom exemplo e são altamente preocupantes, uma vez que em nome da credibilidade da atividade docente se pretende que os docentes estejam calados, silenciados.

Essas declarações mostram-nos que estamos perante um trumpismo em versão portuguesa, elas são o que isto significa, mas lê-las ditas por alguém que foi da sua estima pessoal dói, dói muito, uma vez que, por mais que eu faça para me distanciar da nova garrafa, a FEUC de agora, do seu conteúdo, o que nela se ensina, da sua rolha, isto é, dos seus mecanismos autoritários, e mesmo misóginos, para se manter naquilo que ele é, esta é a garrafa que a reforma que Álvaro Garrido, Tiago Sequeira e outros instituíram, por mais que eu faça, direi mesmo que mantenho na alma e na pele as marcas do rótulo que roubei da garrafa antiga[i], a FEUC antes dos seus 50 anos, que os neoliberais de agora partiram, de conteúdo bem diferente e sem necessidade de rolha, por mais que eu faça carrego comigo a imagem do que foi o ensino daquele tempo e a ideia de fraternidade que nele se sentia e dele se recolhia, assim como o sentimento de pertencer a um conjunto de muita gente empenhada num projeto coletivo de ensino. Ter sentimentos sobre essa realidade de outrora ainda não é proibido, mas mesmo que o fosse… Não é cómodo escrever isto.

Quanto aos professores do Ensino Superior, o ministro nem precisa de lhes dar essa sugestão: na sua maioria, estes já estão silenciados desde a reforma dita de Bolonha. O ministro não precisa de se incomodar com eles, se quiser manter a sua trajetória pessoal de uma política de terra queimada quanto ao ensino de futuro de que o país e a nossa juventude precisam urgentemente.

Neste contexto, não podemos deixar de assinalar que não é verdade o que um amigo meu me dizia há tempos, que os talibãs já chegaram às portas da Universidade. Não, não, eles não só já chegaram, como já entraram, como estão já a ocupar lugares-chave na Universidade e a vontade de os servir foi e é tanta que à sua entrada a maioria dos que se lhes poderia opor estendeu a passadeira vermelha, curvou-se à sua passagem e dizendo-lhes: sejam bem-vindos. Bem pior, afinal, do que o que nos anunciava Cavafy com o seu poema À Espera dos Bárbaros.

É destes professores que nos fala o texto O Bajulador de Lorna Finlayson que vou partilhar com todos. Porque o partilhei, dos textos sugeridos ao ministro envio-vos apenas o texto Reflexões sobre a IA na Sala de Aulas (original aqui) Como Não Estamos a Utilizar a IA na Sala de Aula, de Sonja Drimmer & Christopher J. Nygren.

As minhas desculpas pela liberdade tomada e boa leitura. O texto de Drimmer e Nygren é um texto notável.

NOTA

[i] Coloco a questão do rótulo da FEUC em termos pessoais, uma vez que não conheço ninguém, nem dos que saíram, nem daqueles que continuam na Faculdade, que se tenha manifestado publicamente contra a atual reforma da FEUC.

XXX – XXX

 

Senhor Ministro Fernando Alexandre

Mandei-lhe um texto designado em jeito de carta aberta e intitulado :

Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre

Um olhar crítico sobre o ensino em Portugal, sobre a Inteligência Artificial

E aqui segue a continuação:

Com ele, senhor Ministro, apresento o meu olhar sobre o nosso país, o meu e o seu, desde os estudantes universitários que desconhecem o significado de termos banais, como a palavra ocas ou a palavra profundidade, desde uma licenciada em farmácia que  mal sabe manejar uma máquina de calcular para determinar de forma rápida o valor a pagar de uma fatura em que três produtos foram sujeitos ao mesmo desconto, até à falta de ensino profissional de nível médio quando se gastam milhões para esse efeito, até à contrarreforma que os catedráticos de aviário fizeram na escola em que o senhor Ministro se formou, e esta é a escola que me abrigou quase toda uma vida profissional de cerca de 37 anos.

Não teria nada a acrescentar a este texto, como expliquei, tenho estado a trabalhar na compilação de uma série de textos sobre Inteligência Artificial, o buldózer que ameaça desfazer o sistema universitário, reduzindo-o a escombros se não se inverter o caminho que desde há décadas tem vindo a ser seguido e que conta com defensores institucionais para esse trabalho. Nesta investigação deparo-me com um texto excecional, entre muitos outros selecionados para esta série e que tem como título

Reflexões sobre a IA na Sala de Aulas (original aqui)

Como Não Estamos a Utilizar a IA na Sala de Aula

Por Sonja Drimmer & Christopher J. Nygren

editado na Primavera de 2025. Tive conhecimento dele exatamente ontem, mas fiquei radiante, não só pelo texto que vem justificar, com uma elegância de que eu nunca seria capaz de ter, o que está escrito no meu texto em jeito de carta aberta e este último foi escrito em agosto deste verão. Mas mais do que isso, o texto explica algumas das metodologias que é urgente impor nas Universidades de agora e já para amanhã, se queremos enfrentar e anular os malefícios da Inteligência Artificial, quando sabemos todos que esta veio para ficar. Leia, por favor, atentamente esse texto que lhe envio em anexo senhor Ministro, leia-o com a sua mulher e os seus filhos, pensem nele e, quanto a si, pense na juventude deste país, respeite-a, ajude-a e tome as medidas que não tem tomado.

Relembremos então a partir desse texto, aulas que teve comigo nos anos 90. Como sabe, e está no texto em jeito de carta, havia um caderno de exercícios que eram resolvidos no quadro e em grupo de 2-3 alunos. Podiam levar a resolução escrita, feita em casa por eles, ou paga a sua elaboração a uma qualquer fábrica de textos (estas ainda não existiam na altura) porque isso era-me indiferente. Tinham de saber explicá-lo e sujeitar-se às minhas perguntas sobre mudanças nas hipóteses. Muitas das respostas eram repostas na turma e sujeitas aos comentários dos alunos.  Não havia nenhuma hipótese de falcatrua. Se existisse, poderiam usar o Chat para o que quisessem, mas não para fazer o exercício. Poderiam utilizá-lo prompt a prompt, comando a comando, para melhorarem as suas respostas, mas nunca para substituir o seu trabalho de estudarem a matéria e de fazerem o exercício. Dito de outra forma, seria útil estarem a estudar com o chat GPT como peça auxiliar no seu estudo e não como substituição do estudo pessoal de cada estudante

Repare no exemplo do texto numa aula de Arte: o aluno fica isolado numa sala em silêncio e com luz adequada (é preciso salas para isso), tem 20 minutos para olhar e estudar um quadro e de escrever as suas notas sobre o referido quadro. Passados os 20 minutos o aluno regressa à sala de aulas, assume-se como o professor, apresenta as suas notas ao professor que está a substituir e aos seus colegas, sujeitando-se aos seus comentários.

Dizem-nos estes mesmos autores:

“A turma, então, reúne-se novamente, não apenas para falar sobre as suas observações, mas também para refletir sobre como foi esse processo. Eles sempre dizem: “é difícil”. Sem exceção, articulam o quão desafiador foi manter o foco quando achavam que não tinham mais nada para escrever e, em seguida, quão inesperado foi conseguir superar uma barreira de estagnação para descobrir mais coisas para ver, pensar e escrever.” Fim de citação.

Há pedagogicamente diferenças entre as nossas aulas dos anos 90 até 2012, por mim orientadas, e o exemplo agora proposto como metodologia, como um dos exemplos possíveis para combater os efeitos nefastos da IA, como propõem Sonja Drimmer & Christopher J. Nygren? Claro que não!

Um outro exemplo: nas minhas disciplinas, para beneficiar da avaliação contínua, era necessário ir às aulas práticas e havia registo de marcação de presenças: era necessário ir a 75% das aulas práticas. Havia uma ficha por aluno, com fotografia para identificação do aluno e havia um registo do seu comportamento como aluno em aula.

Que nos dizem Sonja Drimmer & Christopher J. Nygren sobre isto?

No contexto da “economia da atenção”, todas as pessoas que passam algum tempo online, incluindo os nossos alunos, estão constantemente sujeitas à brutal competição pelos seus olhares. Um outro retorno aos métodos tradicionais é tornar a frequência obrigatória e equiparar presença com atenção. Drimmer frequentemente ministra aulas com grande número de alunos e, implementando uma sugestão de um estudante de pós-graduação do seu programa, recentemente começou a registar a frequência produzindo cartões com os nomes dos alunos, que cada um deles levanta de uma mesa ao entrar na aula e devolve ao sair (os cartões não retirados no início são registados como ausências). É uma solução elegante e de baixa tecnologia que mostrou resultados imediatos: a média das notas nos exames nas turmas de Drimmer aumentou quase dez pontos desde que ela tornou a frequência obrigatória.

“A nossa hipótese é que as notas aumentaram porque agora existe uma tecnologia muito subtil para incentivar os alunos a empenharem-se — tanto literalmente a comparecer às aulas, quanto a dedicarem-se ao conteúdo abordado nelas. A atenção é uma competência que precisa de ser cultivada. Como educadores, tentamos ajudar os nossos alunos a aprender a processar aquilo que é único. Ajudamo-los a aprender a perceber distinções que fazem diferença e a notar graduações subtis que têm impacto máximo. Essa é uma competência verdadeiramente humana.” Fim de citação.

Há diferenças de metodologia quanto a isto? Claro que não!

Estamos a falar de aquisição de conhecimentos e quanto a isto vejamos o que nos dizem os autores citados:

“Acreditamos que aprender é algo semelhante a um processo prolongado de aquisição de conhecimento incorporado, que atravessa a experiência acumulada, o cálculo instantâneo, a aculturação e a educação institucionalizada — fatores estes que, combinados, permitem a alguém operar no mundo. Isso vai desde saber não comer frango cru e ‘não pegar nas coisas compridas e escamosas com pinças’ até ‘colocar o cinto de segurança antes de sair da garagem’. Mas também abrange sentimentos como ‘eu identifico-me com Hamlet porque também já me perguntei como seria cometer suicídio e deixar de existir’ ou ‘como voltamos a fazer literatura após a Peste Negra? Posso imaginar que teria sido difícil fazer «arte» em 1350.’ Todas essas coisas são produto de um processo de ‘aprendizagem’. Parte delas é vivida, parte institucionalizada, e outra parte traduz um instinto humano natural de sobrevivência e empatia. Se é isso que queremos dizer por ‘aprendizagem’, é vital que, a cada passo, insistamos na humanidade desse processo.

Computadores são bons em reconhecer motivos; mas reconhecer motivos e prever tokens não significa aprendizagem. Continuar a chamar a isso de ‘aprendizagem automática’ ou ‘inteligência artificial’ é concordar com uma metáfora falaciosa que coloca em risco danos irreparáveis a estudantes, à cidadania e, por extensão, à humanidade, na forma de uma morte por múltiplas facadas.

Uma definição simples de aquisição de conhecimentos, poderia ser algo assim: uma das formas mais elevadas de aprendizagem é ter desenvolvido a capacidade de olhar para uma situação e imaginá-la de outra maneira. Isso abrange toda a gama da aquisição de conhecimentos, desde o plano ético (teria sido correto estrangular o bebé Pol Pot no seu berço?) até ao plano estético (Beethoven, mas com guitarras elétricas) ou ainda até ao plano histórico (vivo num mundo com vigas de aço, mas consigo imaginar como teria sido entrar numa catedral gótica e não entender como é que o edifício suportava o seu próprio peso enquanto se erguia em direção ao céu?).” Fim de citação.

E como sugestão, senhor Ministro, os autores citados dizem-nos:

“Embora, nos últimos anos, as universidades tenham promovido a ‘produtividade’ dos estudantes (projetos, portfólios online dos seus trabalhos, informações nas redes sociais sobre os seus artigos de investigação, e a lista continua), pouco desses incentivos e esforços para gerar resultados e criar conteúdos irá realmente servir para o objetivo principal da educação, que é fomentar a capacidade de pensar bem, ler bem, ouvir bem e observar bem. O ensino superior fortalece esse processo; se vamos ensinar materiais sofisticados e conteúdos desafiadores, mas para isso os estudantes precisam de aprender a pensar, ler, ouvir e observar à medida que avançam. A ênfase na ‘criação de conteúdo’ é prejudicial à missão educacional. ‘Conteúdo’ é um termo vago que foi definido de tal forma que um trabalho de dez páginas sobre o relicário de Sainte Foy, produzido por um modelo de linguagem computacional (LLM), e que seja gramaticalmente correto, conceitualmente aceitável e procedimentalmente impecável, conta como ‘conteúdo’ aceitável para o estudante entregar em resposta a uma tarefa que lhe foi incumbida.

Um passo concreto em direção à pedagogia após a IA é mudar o centro da nossa atenção do produto para o processo: tanto dos estudantes quanto de nós próprios”. (O sublinhado é meu) Fim de citação.

Senhor Ministro, há um outro facto e altamente relevante que é preciso ter em conta:

“Um facto desconfortável que vale a pena articular é que muitos dos estudantes que chegam a universidades como a nossa foram tão mal-ensinados nas suas escolas secundárias, que os resultados produzidos pelo ChatGPT frequentemente são melhores do que o que eles conseguem produzir (se por ‘melhor’ entendemos ‘corretos do ponto de vista gramatical e ortográfico e aderentes às fórmulas sintáticas e estruturais da escrita académica’). Portanto, a sugestão de fazê-los comparar um ensaio gerado por algoritmo com o próprio ensaio deles ou mesmo com trabalhos académicos publicados corre o risco de frustrar o objetivo do exercício; os nossos estudantes podem, ou concluir que, afinal, podem externalizar o seu trabalho escolar para um código, ou então, considerarem que não têm competência para distinguir um texto automatizado e superficial de um ensaio cuidadosamente argumentado por um académico.

Nesse contexto desafiador, precisamos, então, de nos focar menos no produto e muito mais no processo. Precisamos cultivar a atenção dos estudantes. Eles precisam de aprender a prestar atenção às imagens. Eles precisam aprender a prestar atenção às palavras.” Fim de citação.

Sobre esta citação, fala-se da importância dada às palavras assim como às imagens. Ao reler isto, agora que as estou a reproduzir, pergunto-lhe: lembra-se de 1993? Relembra-se das nossas comemorações dos 60 anos do New Deal que o senhor Ministro, eu, e a Ana Maria Abrunhosa organizámos no Auditório? Era a força das imagens que era transportada para o espaço letivo, através da projeção do filme As Vinhas da Ira de John Ford e do documentário Os Dockers de Liverpool de Ken Loach, uma prática que se aprimorou mais tarde com a Iniciativa chamada Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios.

Um detalhe: no quadro desta Iniciativa, um aluno, referindo-se ao filme, questiona-me com um ar polido dizendo: professor está sempre a dar-nos do mesmo, temas de esquerda! Respondi-lhe: do mainstream tem o senhor informações 24 horas sobre 24 horas e quanto aos documentários que o senhor chama de esquerda e que já viu, sabia alguma coisa sobre essas realidades?  Não, não senhor, foi a resposta que recebi. Bom, então ficou a saber, e é essa a função do Ciclo: dar-vos a conhecer realidades que o mainstream silencia. Se ficou a saber o que não sabia, cumpriu-se o objetivo pretendido com os filmes-documentários, rematei eu.

E voltamos ao mesmo. As propostas para vencer a Inteligência Artificial de amanhã, já foram experimentados num ontem bem longínquo, já foram experimentados inclusive por si, senhor Ministro[i].

Não há aqui nenhuma genialidade nisto. Nenhuma mesmo. Na época ninguém sonhava sequer com a Inteligência Artificial. Trata-se de pura coincidência. Senhor Ministro, eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar, cantou o poeta José Mário Branco, vim de muito mais longe de que o senhor ministro; caminhei, pois, muito mais que o senhor para aqui chegar, caminhei muito tempo descalço. E cheguei. Cheguei como? Primeiro, caminhei descalço, armado com a sólida moral que a Igreja me injetou e a crença na Humanidade, nada mais que isso, e não estou a falar de poesia. Depois, cheguei através da utilização de muitas bengalas, a da fraternidade de muita gente, primeiro que tudo, depois, umas bengalas bem especiais, a literatura, o cinema, o teatro, o ensaio. Foi por aí que aprendi a interpretar a vida duríssima que vivi assim, como a daqueles que comigo se cruzaram. Olhando bem e em paralelo, como imagem, poderei dizer que fiz uma evolução em décadas semelhante à que a Humanidade terá levado a fazer em séculos, tendo culturalmente atravessado muitos dos diferentes estratos sociais da sociedade portuguesa destas últimas 7 décadas.

A partir daqui, bastou-me perceber como é que foi a minha aprendizagem na vida e para me situar nela, bastou-me ainda perceber como é que os sucessivos obstáculos com que me deparei foram ou não vencidos, para ter uma ideia do que foram os instrumentos mais fortes na minha aprendizagem de cidadão. O que fiz depois como docente foi transpor para o espaço de ensino esses mesmos instrumentos adaptando-os ao público a que se destinavam. Isto é intemporal como aprendizagem, daí a sua extrema utilidade na luta contra os processos de degradação intelectual que a IA pode representar amanhã. Não inventei, pois, coisa nenhuma.

Retomando os autores citados, estes concluem:

O poder de aprender a escrever não está no produto escrito em si-mesmo, mas no processo de aprender a escrever. No fim das contas, a IA interrompe esse processo e, ao fazer isso, viola todo o contrato educacional.

Se isso soa como propostas pouco empolgantes: ótimo. Uma das seduções do tecno-solucionismo é a promessa de novas ferramentas emocionantes para avançar o projeto de aprendizagem e melhorar a experiência dos estudantes na educação. Essa sedução, na maioria das vezes, é apenas banha da cobra Não existe nenhuma aplicação informática revolucionária, nenhum truque mágico, nenhuma astúcia genial, nenhuma solução milagre. Talvez precisemos de abandonar a ideia de que isso existe. “Fim de citação.

Estes últimos excertos remetem-nos para o nosso texto “Em jeito de carta aberta” e levar-nos-ia  muito tempo a falar sobre isso. Limito-me a citar alguns pontos:

  1. A escrita

Os estudantes precisam de escrever, de aprender a expor, e até de aprender a escrever, mas cada vez mais se fazem pontos de resposta múltipla. Inacreditável e o que é curioso nisto é que seja defendido por reitores de r minúsculo, como o de Coimbra, ou de diretores, como os da Faculdade de Medicina ou de Economia de Coimbra. Pelos vistos as neurociências serão ignoradas na faculdade de Medicina? Serão?

  1. Dizem-nos os autores:

“Um passo concreto em direção à pedagogia após a IA é mudar o centro da nossa atenção do produto para o processo: tanto dos estudantes quanto de nós próprios.” (O sublinhado é nosso)

Repare-se bem nesta frase tão curta: os estudantes precisam de ser reprogramados tanto nos seus modos de estar na vida, como nos modos de estudar. Dizia-me um dono de um café o seguinte: os estudantes chegam à segunda-feira, vêm cansados, vão beber uns copos à noite para relaxar e esquecer a solidão de fins de semana em família fora daqui. Ficam cansados. Dormem até ao almoço de terça. Mas as saudades da noite são muitas. Repetem a dose na terça à noite até menos tarde. Quarta-feira é para estudar. Quinta feira idem aspas. À noite despedem-se da cidade e da noite em Coimbra. Sexta dormem de manhã e depois vão para as suas terras e o ciclo repete-se até que cheguem os exames. Aí é estudar até à exaustão. Repito: reparem nesta frase tão curta. Diz-se os professores também eles precisam de ser reprogramados. É preciso olhar para os processos de ensinar. E tem que se dizer adeus às aulas de powerpoints, tem que se dar aulas a olhar os alunos de frente e a dá-las com alma, com giz, com o cérebro e também com afeto, com o coração. Tem de se colocar os estudantes a ler e os professores também para além do nicho em que se doutoram. Reformatar o disco duro dos professores, uma tarefa ciclópica para os tempos de hoje e para os políticos de hoje. Uma tarefa que exige uma enorme coragem e, confessemo-lo, uma enorme humildade também.

  • Dizem-nos os autores citados:

“Não existe nenhuma aplicação informática revolucionária, nenhum truque mágico, nenhuma astúcia genial, nenhuma solução milagre. Talvez precisemos de abandonar a ideia de que isso existe”.

Senhor Ministro é preciso, pois, voltar atrás no Ensino Superior, voltar aos seus velhos tempos de aluno universitário consciente, sublinhe-se isso. O problema importante, o mais difícil de todos, é encontrar pessoal qualificado para essa profunda reforma. Garantidamente não pode contar com os reitores e diretores das escolas atuais: esses foram e estão formatados para servir, à boa maneira do Homem do Leme de Kafka, não estão preparados para criar. Terá de ir às velhas reservas da Nação, aos velhos professores, diretores, reitores que estão na reforma e solicitar-lhes o empenho deles na reconstrução total da estrutura do ensino universitário, tudo gente situada entre os 65 e os 80 anos. Nada disto tem a ver com o que o senhor ministro tem projetado como trabalho seu num futuro próximo.

Este problema do ensino superior não é só daqui. O senhor ministro doutorou-se na Inglaterra: Dê-se um olhar sobre a realidade inglesa quanto a este tema e reproduza-se aqui alguns excertos de um artigo publicado na New Left Review (original aqui) com a assinatura de  Lorna Finlayson, onde se diz:

“Toda a gente já ouviu falar que o ensino superior britânico está em estado crítico. Estudantes endividados, funcionários sobrecarregados com salários apertados, miséria por todos os lados. A questão é: quem é o responsável? Alguns fazem um diagnóstico enganador da situação, culpando as políticas de admissão como sendo excessivamente inclusivas (‘considerando assim que algumas pessoas simplesmente não têm perfil para estar na universidade’); outros veem na situação presente o resultado de uma epidemia de ‘wokismo’ (‘Os estudantes hoje em dia não estão dispostos a serem questionados‘). Muito mais sensato é apontar o dedo para os governos recentes e para os reitores e gestores universitários a quem os políticos deram poder. Os danos que causaram são incalculáveis. No entanto, isso também deixa de fora uma parte importante do quadro referido. A verdade desconfortável é que os próprios professores universitários foram cúmplices — e muitas vezes instrumentais ativos na criação da atual situação. É confrangedor dizer isso. Até porque eu sou professor universitário. Durante as greves (que, para crédito limitado dos académicos, se tornaram cada vez mais frequentes — embora tardiamente — nos últimos anos), a solidariedade parece exigir que se deixem de lado as queixas internas. Vitória para o UCU! E tudo mais.

Mas o elefante na sala não pode ser ignorado na sala eternamente: é necessário falar sobre o mundo dos universitários.

Então, a podridão não começou em 2010, quando a coligação Conservadora–Lib-Dem triplicou o valor das propinas, nem em 2004, quando o governo Blair as elevou para £3.000 por ano, nem em 1998, quando as introduziu. As propinas são um desastre, mas o pesadelo mercantilizado de hoje tem raízes bem mais profundas. E então, como agora, os professores universitários não se saem bem dessa história. Em cada etapa, não apenas falharam em montar uma resistência eficaz contra as forças que mutilaram o setor, como também foram ativamente cúmplices nessa mutilação. E eu realmente quero dizer “ativamente” cúmplices. O RAE e o seu sucessor, o Research Excellence Framework (“o REF”), não são feitos para os professores universitários, mas sim, são feitos pelos professores universitários, são feitos por professores altamente posicionados na carreira que formam os painéis e avaliam as “produções”, mesmo enquanto reclamam do peso da tarefa e dos efeitos esmagadoramente negativos do exercício sobre a vida universitária. Repetidas vezes, eles resmungam e ironizam (‘«Impacto»? Ridículo! «Prevenção contra o declínio»? Ninguém pode levar isso a sério…’), e, de novo, são eles a cederem.

Os professores universitários, ao que parece, são como aquele conhecido de quem Dorothy Parker dizia que “fala 18 línguas e não consegue dizer ‘não’ em nenhuma delas”. Contudo, o problema não é apenas o servilismo, mas também uma certa húbris que pode, superficialmente, parecer o oposto do servilismo — como quando os académicos dizem a si mesmos que estão apenas “a tolerar” a gestão, enquanto na verdade procuram com isso satisfazer as suas próprias agendas subtilmente subversivas.

Ainda assim, a ideia de que os professores universitários seriam incapazes de proteger os seus próprios interesses captura apenas parte da verdade. Há um sentido claro em que o comportamento dócil dos professores universitários é autodestrutivo. Mas, é igualmente claro, os professores universitários não estão todos na mesma situação: o professor bem remunerado tem pouco em comum com o docente em contrato temporário.

Outro ingrediente na mistura mental típica do professor universitário (também possivelmente herdado da escola) é um individualismo competitivo profundamente enraizado. É isso que explica a facilidade com que os professores universitários se deixam seduzir por exercícios de auditoria e classificação, e por passar pelos cada vez mais numerosos obstáculos que são pré-requisitos para a sua promoção.

Os professores universitários de lugar seguro, lugar permanente, lugar do quadro, por mais ilusório que seja o seu sentido de segurança, parecem preocupar-se mais com a sua próxima proposta de financiamento do que com o destino do professor precário que será contratado para cobrir o seu período sabático. Como resultado, a marcha desenfreada da precarização está a levar a uma proletarização paradoxal, sujeitando académicos mais jovens a um rito de passagem de insegurança e empobrecimento que apenas os financeiramente independentes podem suportar.

Quem são, afinal, os culpados pela situação do Ensino Superior? É hora de olhar para o espelho. Visto de um certo modo, os professores universitários são os seus próprios piores inimigos. Mas, observado por outro ângulo, o seu fracasso em defender os seus interesses coletivos faz mais sentido: o coletivo não é coisa que os preocupe. Se o objetivo é sobressair em relação ao seu colega do lado, então uma deterioração geral das condições é um custo que pode bem ser suportado. Apesar de todos os lamentos comoventes dos professores universitários sobre o estado das universidades, a realidade pode ser ainda mais desanimadora. Talvez eles gostem afinal do que veem ao espelho.

Senhor Ministro, é tempo para parar, para a seguir ir devagar, com muita cautela, com muita reflexão, o que parece lhe estar agora a faltar[ii], peça o apoio das poucas forças vivas do ensino que ainda nos restam e não queira transformar este nosso país em termos de ensino numa situação ainda pior do que a que se vive atualmente na Inglaterra.

Em jeito de conclusão, deixe-me ficar claro que sou contra a proibição da Inteligência Artificial, ela veio para ficar, e como nos diz o físico Chad Orzel que a define como um caldeirão borbulhante de álgebra linear:

“Concordo que o avanço dos sistemas de Inteligência Artificial, levanta questões profundas e fundamentais sobre o que fazemos no ensino. Mas discordo totalmente da ideia de deter a tecnologia com métodos de terra queimada.”

Ainda na linha deste físico diremos que a proibição da Inteligência Artificial seria apenas uma tentativa desesperada de evitar tratar o verdadeiro problema com que o Ministério se deve confrontar e que é o desajustamento entre o que a sociedade deve exigir de cada formação que valida e aquilo que as Instituições fazem, ou dito de forma menos abrangente, é o desajustamento entre o que os estudantes desejam e o que as instituições de ensino superior lhes estão a oferecer[iii]. Mas este debate pode ser e deve ser levado a todos os níveis de formação de responsabilidade pública. É imperioso, necessário e urgente, diremos. Terá a coragem para isso?

“Nós fomos ingénuos”, declarou o ex-ministro da educação da Suécia, Johan Pehrson, sobre a digitalização do ensino levada a cabo na Suécia, nós somos burros, direi eu, se em Portugal continuarmos na trajetória degradante que temos vindo a seguir. As responsabilidades são múltiplas, há que saber assumi-las, senhor Ministro.

NOTAS

[i] Este foi um trabalho coletivo intenso, e tão intenso que não é hoje repetível, que contou com a empenho extremo dos meus dois assistentes, Luís Peres Lopes e Margaridas Antunes. Neste contexto e na opinião de Nicolau Santos nós éramos um pequeno grupo de gauleses e a Universidade de Coimbra podia ser encarada como uma pequena região da Gália. Hoje, para este trabalho e com esta metodologia, seria necessária uma equipa docente de 4 pessoas e não de três, como foi o caso. Isto dá-nos uma ideia dos custos que implicaria ganhar a luta contra a degradação intelectual que a IA pode provocar.
[ii] Uma outra leitura sobre o que o Ministério da Educação tem feito ou projeta fazer e sobre o ministro de tutela é que este se está a adaptar ás circunstâncias dos outros, os políticos da direita pura e dura da AD. Vejam-se as suas declarações na Figueira da Foz ontem relatadas pelo jornal Público: ”Professores em manifestações perdem “aura” da profissão, diz ministro da Educação: “Os professores, durante muitos anos, andaram em manifestações, com razões para isso, mas o professor é alguém que é respeitado na sociedade por ser alguém que sabe, que tem autoridade, que é respeitado por gerações e gerações de alunos. Alguém que anda em manifestações perde toda essa aura”. Senhor Ministro, aqui o senhor está claramente  a defender o servilismo como forma de vida para os docentes, a que se refere duramente a professora Lorna Finlayson como explicação de fundo para a enorme crise do ensino britânico, onde o senhor se doutorou. Levado á letra, o senhor enquanto Ministro da Educação diz que para se manter o prestígio, a aura, o respeito pelo professor, este deve estar silencioso, calado! Bizarra a sua posição.
[iii]Sobre esta diferença veja-se ainda de Chad Orzel o artigo seguinte: The Central Tension of Higher Education (original aqui)

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