As sílabas marginais/ sobre “A PERPÉTUA DURAÇÃO DE UM VERSO”/Nelson Ferraz joaompmachado6 de Outubro de 20256 de Outubro de 2025Literatura Navegação de artigos PreviousNext sobre “A PERPÉTUA DURAÇÃO DE UM VERSO” Descobrimos o poema e ficamos diferentes. O poema fala de nós, das nossas feridas e da nossa incrível solidão. E dizemos: Afinal, é mesmo isto que eu sinto, que eu sempre senti. Um poema é isto? Descobrimos o poema e ficamos diferentes. O poema inquieta, ilumina, acusa, revolta-se com a indiferença, com a injustiça e mostra-nos janelas possíveis para combater as sombras que nascem e renascem nas ruas dos países e nas catedrais da alma humana. Depois, há, ainda, aquela estrada de palavras que o poeta não escreve, mas que estão lá e nos gritam que o sossego, quase sempre, conquista-se. Enfrenta-se o poema, de mão dada com o poeta e ficamos uma bússola de olhos acesos. A nossa consciência é sacudida pelas letras, pelas palavras e pela crueldade ou doçura de cada sílaba. Mergulhamos no quotidiano a romper-se, na barbaridade estúpida de todas as guerras, na insanidade crescente da civilização e nos atropelos à dignidade de todos os seres e de todos os valores. Sim, há poemas que sangram. Sim, há poemas que nos sangram. Mas também há poemas onde as árvores são deusas insubstituíveis, mudas e sapientes, como as avós. Poemas, onde os rios têm sol, onde o sol tem céu e o céu tem aves como as andorinhas que esvoaçam sem mísseis à vista. Há poemas onde a saudade e a solidão, a infância e a velhice são tintas que marcam a nitidez dos olhos, quando já cheios de rugas baças. A morte e a vida são também poemas a perguntar. Sim, há poemas que perguntam. Sim, há poemas que perguntam por nós, a nós. Enfrenta-se o poema, de mão dada com o poeta e ficamos uma bússola de coração aceso. Depois, há um verso que fica e é esse verso que nos permite respirar quando a melancolia nos enforca, ficar em silêncio quando o ruído nos esmaga, sorrir quando a escuridão nos envolve, erguermo-nos quando tudo são ruínas e labirintos, é esse verso que nos permite adormecer quando a noite é uma tempestade a doer, é esse verso que nos acorda quando a liberdade treme, é esse verso que nos permite o amor e a gratidão, é esse verso que nos aproxima da beleza simples de tudo o que realmente importa. É esse verso que fica connosco e anula todas as medidas do tempo. E quando a saúde falha, quando o amor falha, quando a paz falha, quando a alegria falha, podemos não nos lembrar do poema, daquele poema que lemos algures, que ouvimos algures, que espreitámos algures, mas aquele verso, aquele verso que ficou e que, provavelmente, se agarrou à nossa pele, ao nosso sangue, aquele verso que é liberdade pura e nos completa, aquele verso que é um abraço de silêncio e de compaixão, aquele verso que nos aconchega, aquele verso que nos segura como se fosse mãe, árvore, luz… É esse verso que faz de nós um verso. Sim, somos um verso, perpétuo, à procura de outro verso que nos proteja do medo, que nos fale do amor a sério, que nos cure as cicatrizes, que nos abrace com força, que fique connosco quando todas as coisas parecem desabar. Sim, somos um verso, esse verso, perpétuo, à procura de outro verso que não esteja, apenas, de passagem. A poesia, também, é isto: Um verso que nos salva. Um verso que nos salva. Juro. Share this: Share on Facebook (Opens in new window) Facebook Share on X (Opens in new window) X Share on LinkedIn (Opens in new window) LinkedIn Share on WhatsApp (Opens in new window) WhatsApp Email a link to a friend (Opens in new window) Email More Print (Opens in new window) Print Like this:Like Loading...