As sílabas marginais/ sobre “A PERPÉTUA DURAÇÃO DE UM VERSO”/Nelson Ferraz

 

 

 sobre “A PERPÉTUA DURAÇÃO DE UM VERSO”

 

 

 

Descobrimos o poema e ficamos diferentes.

O poema fala de nós, das nossas feridas e da nossa incrível solidão.

E dizemos:

Afinal, é mesmo isto que eu sinto, que eu sempre senti.

Um poema é isto?

Descobrimos o poema e ficamos diferentes.

O poema inquieta, ilumina, acusa, revolta-se com a indiferença, com a injustiça

e mostra-nos janelas possíveis para combater

as sombras que nascem e renascem nas ruas dos países

e nas catedrais da alma humana.

Depois, há, ainda, aquela estrada de palavras que o poeta não escreve,

mas que estão lá

e nos gritam que o sossego, quase sempre, conquista-se.

Enfrenta-se o poema, de mão dada com o poeta

e ficamos uma bússola de olhos acesos.

A nossa consciência é sacudida pelas letras, pelas palavras

e pela crueldade ou doçura de cada sílaba.

Mergulhamos no quotidiano a romper-se,

na barbaridade estúpida de todas as guerras,

na insanidade crescente da civilização

e nos atropelos à dignidade de todos os seres e de todos os valores.

Sim, há poemas que sangram.

Sim, há poemas que nos sangram.

Mas também há poemas

onde as árvores são deusas insubstituíveis, mudas e sapientes, como as avós.

Poemas, onde os rios têm sol, onde o sol tem céu e o céu tem aves como as andorinhas que esvoaçam sem mísseis à vista.

Há poemas onde a saudade e a solidão, a infância e a velhice

são tintas que marcam a nitidez dos olhos, quando já cheios de rugas baças.

A morte e a vida são também poemas a perguntar.

Sim, há poemas que perguntam.

Sim, há poemas que perguntam por nós, a nós.

Enfrenta-se o poema, de mão dada com o poeta

e ficamos uma bússola de coração aceso.

Depois, há um verso que fica

e é esse verso que nos permite respirar quando a melancolia nos enforca, ficar em silêncio quando o ruído nos esmaga,

sorrir quando a escuridão nos envolve,

erguermo-nos quando tudo são ruínas e labirintos,

é esse verso que nos permite adormecer quando a noite é uma tempestade a doer,

é esse verso que nos acorda quando a liberdade treme,

é esse verso que nos permite o amor e a gratidão,

é esse verso que nos aproxima da beleza simples de tudo o que realmente importa.

É esse verso que fica connosco

e anula todas as medidas do tempo.

E quando a saúde falha,

quando o amor falha,

quando a paz falha,

quando a alegria falha,

podemos não nos lembrar do poema,

daquele poema que lemos algures,

que ouvimos algures,

que espreitámos algures,

mas aquele verso, aquele verso que ficou

e que, provavelmente, se agarrou à nossa pele, ao nosso sangue,

aquele verso que é liberdade pura e nos completa,

aquele verso que é um abraço de silêncio e de compaixão,

aquele verso que nos aconchega,

aquele verso que nos segura como se fosse mãe, árvore, luz…

É esse verso que faz de nós um verso.

Sim, somos um verso, perpétuo,

à procura de outro verso que nos proteja do medo,

que nos fale do amor a sério,

que nos cure as cicatrizes,

que nos abrace com força,

que fique connosco quando todas as coisas parecem desabar.

Sim, somos um verso,

esse verso, perpétuo,

à procura de outro verso que não esteja, apenas, de passagem.

A poesia, também, é isto:

Um verso que nos salva.

Um verso que nos salva.

Juro.

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