A minha resposta ao texto de João Miguel Tavares, que incluo no final, publicado a 4 de Outubro de 2025 – por Carlos Pereira Martins

A minha resposta ao texto de João Miguel Tavares,

publicado a 4 de Outubro de 2025 no jornal Público*

por Carlos Pereira Martins

 

Rebater o texto de João Miguel Tavares exige firmeza, mas também profundidade ética, humanista e cidadã. O texto em questão adopta um tom irónico e desdenhoso para com os activistas da flotilha humanitária a Gaza, desvalorizando os seus propósitos com argumentos marcadamente cínicos e ideologicamente enviesados. É precisamente à luz dos direitos humanos, da solidariedade, dos valores da cidadania, da verdade, da ética e da fraternidade que é necessário contestá-lo, ponto por ponto, com clareza e justiça.

Os Direitos Humanos não são um espetáculo: são uma urgência

Ao ridicularizar os activistas da flotilha como “meninos privilegiados” que queriam ser presos “em directo”, o autor ignora completamente o contexto de catástrofe humanitária que motiva tais acções. Gaza está sob um bloqueio opressivo há anos, com consequências dramáticas para a sua população civil — falta de água potável, medicamentos, electricidade, alimentos e, sobretudo, liberdade.

Recorrer à acção directa — como tentar furar simbolicamente esse bloqueio com uma flotilha — é uma forma legítima de resistência não violenta, amparada pelo direito internacional e pela tradição de desobediência civil. Desprezar esse gesto é negar o direito das populações oprimidas a serem apoiadas pela sociedade civil global.

Quando os direitos humanos são sistematicamente violados, como no caso da população palestiniana, é dever ético e cívico da comunidade internacional intervir, denunciar e agir, mesmo que simbolicamente.

 

Solidariedade não é “sentimentalismo inconsequente”

Reduzir uma ação humanitária a “sentimentalismo inconsequente” revela uma visão profundamente desumanizada da solidariedade. É como dizer que a luta de Martin Luther King foi “teatro”, ou que as greves de fome de Gandhi foram “encenações”.

O autor parece esquecer que os maiores movimentos pela justiça social da História foram inicialmente considerados inúteis, exagerados ou provocatórios. A solidariedade é, por natureza, um acto de empatia com os outros, sobretudo com os que não têm voz. E isso nunca é inconsequente, é o que transforma consciências e pressiona estruturas de poder.

 

Cidadania activa exige coragem e implica risco

Apontar o dedo à previsibilidade da acção, “sabiam que iam ser detidos”, como argumento contra a legitimidade da flotilha é um argumento falacioso. Os activistas sabiam dos riscos, mas isso não anula a validade do protesto — antes a reforça.

Não é o conforto que define a cidadania, mas sim a acção consciente em nome do bem comum, mesmo que traga consequências. Uma cidadania que não incomoda o poder, que não desafia a injustiça, é uma cidadania morta.

 

Fraternidade: estar com os que sofrem, mesmo sem os conhecer

O autor trata com sarcasmo a ideia de se “comover com o sofrimento do povo palestiniano”. Mas a fraternidade, um dos pilares da dignidade humana, não exige afinidades, exige humanidade.

A verdadeira fraternidade é estar com os outros, mesmo que estejam longe, mesmo que não os conheçamos pessoalmente, mesmo que não nos afecte directamente. É isso que fazem os activistas da flotilha: colocam-se em risco para denunciar o sofrimento de um povo esquecido. Isso é fraternidade em acção.

 

Verdade e Ética: não há simetria entre opressor e oprimido

João Miguel Tavares tenta criar uma narrativa de simetria: como se Israel e os activistas estivessem em lados igualmente válidos. Mas essa neutralidade é falsa e antiética.

Israel impõe um bloqueio ilegal, destrói infra-estruturas civis, causa milhares de mortes, impede ajuda humanitária e impõe uma ocupação há décadas denunciada por múltiplos organismos internacionais. Os activistas, por sua vez, não lançaram foguetes, não causaram feridos, não usaram violência.

Apelar à verdade e à ética exige nomear com clareza quem é o opressor e quem é o oprimido. E neste caso, a ética exige denunciar os crimes do poder, não atacar os que os expõem.

A Humanidade não vai mal por haver activistas, vai mal por ainda precisar deles

A frase final do artigo : “Se estes são os grandes gestos humanitários do mundo contemporâneo, vai muito mal a humanidade” inverte perigosamente a lógica. A humanidade vai mal porque continua a haver bloqueios, massacres, apartheid e opressão, não porque há quem os denuncie.

Se vai mal, é porque os gestos humanitários ainda são necessários e porque há quem os ridicularize em vez de se unir a eles.

Em conclusão:

A crítica que João Miguel Tavares faz no seu artigo, envolta em sarcasmo e cinismo, erra profundamente ao desvalorizar acções que, mesmo simbólicas, são expressão autêntica de solidariedade, coragem e compromisso com a justiça.

À luz dos valores dos direitos humanos, da solidariedade, da ética, da fraternidade, da cidadania e da verdade, é inaceitável que se trate com desdém quem escolhe agir onde tantos preferem ignorar.

A flotilha não é nem foi perfeita, mas foi e é valiosa no contexto actual. E a humanidade não está “mal” por causa dela, está mal por ainda ter de lutar contra bloqueios, apartheid e indiferença.

*Notas do Editor

Não se reproduz no final o texto de João Miguel Tavares, como o autor do texto que agora se publica o faz no original, por não termos obtido a autorização prévia, que, na verdade, não solicitámos nem a João Miguel Tavares, nem ao jornal Público.

 

 

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