Espuma dos dias — Drones na Europa: foram presas pessoas sem ligações com os russos. Por Davide Malacaria

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Drones na Europa: foram presas pessoas sem ligações com os russos

 Por Davide Malacaria

Publicado por  em 6 de Outubro de 2025 (original aqui)

 

 

A histeria sobre drones russos em locais sensíveis na Europa aumenta, juntamente com o apelo às armas contra Moscovo. Por agora esses apelos são brandidos, mas com perspectivas sombrias para o futuro. Não há nenhuma prova de uma ligação entre os drones ameaçadores e a Rússia, a não ser as declarações de líderes europeus incendiários, que brandem a alegada ameaça para alimentar a corrida ao rearmamento.

Sobre esta questão está o desenvolvimento preocupante da Roménia, cujo Parlamento está a aprovar uma lei para a aquisição de 216 tanques Abrams, um monte de veículos blindados que poderiam ser utilizados num futuro conflito com Moscovo, que o rearmamento europeu, em vez de afastar, aproxima.

Sobre os drones, diz um artigo de Strana [n.t. popular meio digital de notícias ucraniano]: “vários países europeus prenderam indivíduos que sobrevoaram aeroportos com drones. As forças da ordem não estabeleceram quaisquer ligações com a Rússia. Isto é relatado na imprensa alemã. De acordo com o Bild, três cidadãos alemães foram presos na Noruega em 2 de outubro por terem pilotado um drone sobre o aeroporto da [vila de] Rossvoll. A polícia também deteve um cidadão chinês na Noruega por ter pilotado um drone sobre o aeroporto da cidade de Slovaer. Já foi deportado do país. Não foi assinalado qualquer envolvimento russo neste caso.

Ver aqui

Segundo o Deutsche Welle, em 3 de outubro foi detido um piloto amador croata em Frankfurt am Main após tentar testar um drone civil e fazê-lo voar sobre o aeroporto. A polícia disse que o piloto enfrenta uma multa de 10.000 euros. Ele não tem ligações com a Rússia.”

Notícias que não encontraram destaque adequado na grande imprensa dominante porque reduziriam a pressão anti-russa.

Sobre o conflito, as revelações da ex-chanceler Angela Merkel, que declarou que em 2021 queria retomar os acordos de Minsk para avançar para negociações diretas com a Rússia, tendo percebido que esses acordos agora eram ineficazes. Mas a Polónia e os Estados Bálticos opuseram-se, frustrando a tentativa e abrindo caminho para a invasão russa…

Quanto ao conflito real, dois desenvolvimentos recentes: o truque de criar um muro de drones da NATO nas fronteiras russas, tão absurdo que durou alguns dias, e a possibilidade de os Estados Unidos fornecerem a Kiev mísseis de longo alcance Tomahawk.

Uma ideia irrealista segundo Responsible Statecraft:

Os mísseis Tomahawk podem ser disparados de três maneiras, a partir de um contratorpedeiro de mísseis guiados; ou de submarinos da classe Ohio, Virginia e Los Angeles; ou usando o novo sistema Typhon baseado em terra, que foi desenvolvido pelo Exército dos EUA. A Ucrânia não tem nenhum destes recursos e tem hipótese zero de os adquirir a curto ou médio prazo.

(…) a Marinha da Ucrânia é pequena e carece de combatentes de superfície, submarinos de ataque e pessoal para operar. Com a construção de navios e submarinos dos EUA sob pressão, é improvável que Washington considere vender essas plataformas para a Ucrânia.

A Ucrânia pode ter o pessoal necessário para operar o novo sistema terrestre Typhon, mas é igualmente improvável que o Pentágono concorde em vender este novo equipamento à Ucrânia. Os Estados Unidos têm apenas duas baterias Typhon em funcionamento, com uma terceira em curso. Dois destes sistemas destinam-se a ser utilizados na Ásia e um destina-se a uma eventual implantação na Alemanha. Os Estados Unidos não concordaram em vender o sistema avançado a qualquer aliado ou parceiro — em parte devido à escassez e em parte devido à sensibilidade da tecnologia — e é difícil imaginar que a Ucrânia seja a primeira.

Se os Estados Unidos se oferecessem para vender à Ucrânia um sistema Typhon, não sobreviveriam por muito tempo no campo de batalha do país. A bateria Typhon é enorme e difícil de mover. Requer um C-17 para o transporte a longas distâncias e, embora seja móvel por via rodoviária, a sua dimensão facilita a localização por satélite ou mesmo por drone de vigilância. Por outras palavras, seria um alvo atraente e vulnerável para os ataques aéreos russos.

Sem meios para lançar os mísseis, dar ou vender Tomahawks à Ucrânia seria inútil. Mas há outras razões para duvidar que os Estados Unidos considerem fazê-lo. Em primeiro lugar, os próprios mísseis são escassos e demoram dois anos a produzir. Com um estoque total dos EUA estimado em menos de 4.000 mísseis e depois de desperdiçar várias centenas numa campanha inútil contra os Houthis no Mar Vermelho, o Pentágono estará receoso de se separar da valiosa munição, especialmente nas quantidades necessárias para a Ucrânia alcançar efeitos estratégicos.

Isto é especialmente verdadeiro dado o papel crucial que o míssil desempenhará em qualquer campanha no Pacífico e o facto de que, na maioria dos anos, são produzidos menos de 200.

Em segundo lugar, os Estados Unidos venderam o míssil até agora apenas a aliados próximos: Austrália, Grã-Bretanha, Dinamarca e Japão. Nem mesmo Israel foi autorizado a comprar mísseis Tomahawk até agora. Parece improvável que os Estados Unidos estejam dispostos a partilhar a arma e a sua tecnologia sensível com os ucranianos, especialmente com o risco de o míssil ou os seus remanescentes caírem nas mãos da Rússia.

Finalmente, há a questão da escalada, que Trump e a sua equipa de segurança nacional continuaram a acompanhar de perto. Fornecer à Ucrânia um recurso que possa atacar profundamente a Rússia cria um risco tremendo, especialmente porque o uso desses mísseis exigiria assistência de inteligência e de direcionamento por parte dos EUA. Se Moscovo pensar que existe uma ameaça real aos alvos do regime ou a partes de sua infraestrutura nuclear, o potencial de escalada nuclear pode tornar-se intoleravelmente alto. (...)

Se se pretende exercer pressão sobre Moscovo, conclui RS, devem ser colocadas ameaças credíveis, “tanto política como militarmente. A proposta de enviar Tomahawks à Ucrânia não é nenhuma delas, e é mais provável que evoque mais risos no Kremlin do que medo”.

Putin, no entanto, não se riu. Ele disse que o possível envio de Tomahawks representaria um ponto de ruptura com os EUA e que a Rússia reagiria. Não se trata tanto da ameaça representada pela enésima arma mágica, mas o sinal que seria enviado. De facto, seria um sinal de mudança de rumo, com o regresso da mortal escalada controlada da era Biden.

 

___________

O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole Note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.” Piccole Note está ligado por afinidades eletivas ao InsideOver.

 

Leave a Reply