CARTA DE BRAGA – “dos sinais da História” por António Oliveira

Aumentam, em todo o mundo, as dúvidas sobre o que o termo ‘Gaza’ quererá dizer: um território israelita, um território ‘trumpista’ ou um território de ‘ninguém’. O tipo que, com os ultras religiosos, determina as vontades e os destinos de Israel, sabe que sem terra e sem população, é difícil que um qualquer estado possa ser definido, por muito que tenha sido reconhecido internacionalmente.

Convém ter em conta que 92% das casas de Gaza foram destruídas, que é impossível acampar nas proximidades das ruínas do que noutros tempos foram habitações. Lá, nas ruínas, jazem milhares de corpos irrecuperáveis, que nem constam nos números de palestinos eliminado por Israel. Por outro lado, ninguém acredita que Netanyahu desista do controle sobre mais de 80% do território de Faixa de Gaza e, mesmo que isso aconteça, tem meios para o poder recuperar outra vez.

Mas há um enorme problema de difícil solução, pois a maioria da população –sem água nem alimentos– já teve de mudar de poiso várias vezes, enquanto os soldados israelitas vão bombardeando os acampamentos de barracas e tendas, que eles vão inventando um pouco por todo o lado, apesar de não haver um único lugar seguro para os palestinos em todo o território da Faixa.

Mas recomeçaram as conversações entre o Hamas, com 48 possíveis reféns israelitas, estes com mais de 67.000 mortos reais, e a aumentar cada dia, desde que o trumpa apresentou um novo plano de paz. Mas o jornal israelita (não alinhado com o governo) ‘Haaretz’, dizia no passado dia 5, ‘mesmo sem um acordo de paz regional, Trump já decidiu quem vai remodelar o Médio Oriente. E certamente não serão os árabes, muito menos os palestinos’.

Gufo – ‘A Paz de Trump

Le Monde’, 25.10.02

De qualquer maneira, escreve o cronista Juan Antonio Sanz, no ‘Publico.es’ do mesmo dia, ‘Para Netanyahu o exército será redistribuído de tal forma que continuará a manter todo o controlo nas profundezas de Gaza, como disse dia 4 à noite’. A menos que, acrescenta Sanz, ‘a rendição do Hamas contemple o plano de Trump, que leva à aniquilação total dos guerrilheiros palestinos, e às condições impossíveis para realocar os dois milhões de deslocados, levem à sua saída de Gaza ou ao internamento em campos de concentração reais, como já tinham proposto Netanyahu e seus aliados no governo’.

Saliente-se que no Cairo, as negociações entre israelitas, Hamas e intermediários egípcios, é uma negociação contra o relógio, porque Trump, o arquitecto deste plano de paz para acabar com a guerra e genocídio em Gaza, deu apenas algumas horas para confirmar a libertação dos reféns, ao mesmo tempo que continua a pressionar Netanyahu, para parar o massacre ‘imediatamente’.

Escrevo esta Carta às 17 horas do dia 7, sem saber como as coisas vão terminar; mas não acredito em nenhum dos dois ‘mandantes’ citados, nem nos representantes dos rebeldes palestinos que Netanyahu ajudou a criar, mas sei e acredito que o maior problema, é um sistema internacional a permitir que um estado opere contra as normas de tal sistema, perante o silêncio, se calhar ‘colaborante’, do chamado mundo ocidental, mas também de outras potências que nem preciso salientar.

Aliás, como o escreve Marta Nebot no ‘Publico.es’ de 27 do mês passado, ‘Perdemos o sentido da História. Fazemos isso o tempo todo; nossa própria história, a história nacional e a história mundial. Numa democracia –sabendo ou não, participando ou abstendo-se– só fazemos isso (…) A história não pára. Ou as Nações Unidas servem para mais do que têm sido até agora, ou os Netanyahus, os Putins e os Trumps do mundo, continuarão a ganhar terreno e continuará a espalhar a ideia de que a humanidade não está a avançar’.

Por alguma razão ‘desleixaram’ o ensino da História e das Humanidades, e deixámos de lhes poder ‘ver e entender as luzes e as sombras’. O termo ‘Ontem’ passou a ser passado e perdeu toda a capacidade semiótica. A esse propósito, aqui deixo um pedaço da reflexão do encenador e Mestre em Artes Cénicas, Jorge Castro Guedes, no Linkedin, ‘Lembraram-se de traduzir (!!!!!!!!!!!!!!!) o Eça para o que chamam português simplificado (eufemismo para iliteracia). Pensando tratar-se de um golpe comercial baixo, enganei-me. É mesmo para os alunos! A partir daqui, que se pode dizer? Eu tenho dito que me foi mais trabalhoso fazer o antigo 7º ano dos Liceus (final do secundário) do que o Mestrado. Agora é mais difícil ter feito o exame da 4ª classe a fazer o 12º ano. Não estou a brincar, nem hiperbolizar’.

Por tudo isto, sem querer ser ‘ave de mau agoiro’, como se dizia antigamente, é melhor começar a pensar no que fazemos, porque em breve vamos ter de decidir. Convém não esquecer que, às vezes, o problema vem à nossa procura, sem se importar com o sítio onde estivermos enfiados.

António M. Oliveira

Não respeito as   que o Acordo Ortográfico me quer impor

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