Inteligência Artificial – Introdução (2ª parte)
Ainda o drama da Inteligência Artificial e do Ensino Superior em Portugal
8 min de leitura
Coimbra, 16 de Julho de 2025
|
Diálogo entre um trabalhador diferenciado e um trabalhador indiferenciado – A inteligência artificial não pode tirar-lhe o seu emprego se o seu emprego nunca precisou de inteligência. — Não entendo! – Ah, está salvo |
Muito recentemente fui alertado para o extrema gravidade do problema da IA e o ensino por me caírem na caixa do correio e quase em simultâneo vários textos de autores americanos sobre o tema e, azar meu, fiquei incomodado por, na mesma altura em que recebia estes sinais de alarme, ter tido conhecimento de uma Iniciativa realizada na FEUC (conforme explicado no meu texto anterior), em princípio a defender a Inteligência Artificial no ensino, e digo estar a defender a utilização da IA no ensino, uma vez que um dos oradores principais dessa Iniciativa da FEUC era um representante da Microsoft.
Pasmei face ao que lia no cartaz da FEUC, em que país vivo eu, questionei-me eu imediatamente, mas a resposta foi rápida. Vivo num país governado por muito catedráticos de aviário, de gente tipo Tiago Sequeira, Pedro Godinho, de diretores como Álvaro Garrido, (ex-diretor da FEUC) José Manuel Mendes (atual diretor) e de muita outra gente semelhante que procura sobretudo estar no quadro do atual sistema a subir de ratings, mesmo que isso signifique para os outros andar às arrecuas até se encontrar a gente ignorante sobre quem Adam Smith e Marx fazem largas referências.
Esse é o caminho a que nos pode levar à intensificação da utilização da Inteligência Artificial no ensino, conforme nos indicam os textos da presente série “Inteligência Artificial”. Relembro aqui o que nos disse premonitoriamente Boaventura Sousa Santos sobre a IA no seu trabalho AI, a sociological approach:
(…) [A] “ IA é a promotora final da pensée unique (o pensamento único). Dada a sua natureza estatística, a IA privilegia a quantidade em detrimento da qualidade, ignorando formas minoritárias, alternativas, criativas, emergentes, inovadoras, heterodoxas de ser, pensar, conhecer e sentir. Dessa forma, tende a ratificar e legitimar o pensamento dominante, o estado atual das coisas (o status quo), por mais injusto ou perigoso que ele seja. Mais eficientemente do que nunca, são os interesses dominantes escondidos por trás de ideias dominantes. Pode-se dizer que outros dispositivos eletrónicos de informação já fazem isso (por exemplo, a Wikipédia). No entanto, parece que dispositivos de IA como o ChatGPT fazem isso com uma intensidade qualitativamente diferente.
A IA e as prioridades científicas. A corrida pela IA na qual os países centrais estão empenhados está a mudar as prioridades científicas tanto em nível nacional quanto internacional. A ciência básica, as ciências sociais e as humanidades estão a ser deixadas de lado para que os recursos financeiros limitados sejam canalisados para a inovação tecnológica e industrial da IA. Considerando que a “aprendizagem” (memorização) das máquinas de IA se destaca na descrição e na previsão, mas é incapaz de formular mecanismos causais ou leis físicas, temos uma noção da dimensão do estreitamento do espectro de interesses científicos e do dano epistémico daí resultante. Esse processo é tão intenso, vasto e rápido que o cenário universitário e da pesquisa científica mudará a ponto de se tornar irreconhecível em uma ou duas gerações.(o sublinhado é nosso)
Karl Marx escreveu certa vez que, enquanto os filósofos estavam preocupados em entender a sociedade, a tarefa mais importante a partir de então seria transformá-la. Penso que a IA leva ao extremo o desequilíbrio oposto: foco demais na transformação, com pouca ou nenhuma compreensão. Relacionado com isso está o lamento de [Nicholas] Carr, formulado na pergunta “O Google está a deixar-nos estúpidos?”: “a internet está a corroer a minha capacidade de concentração e contemplação. A minha mente agora espera absorver informações da mesma forma como a internet as distribui: em fluxo rápido de partículas.” Carr prossegue citando uma passagem interessante de um relatório sobre pesquisa online: “Está claro que os utilizadores não estão a ler online no sentido tradicional; de facto, há sinais de que novas formas de ‘leitura’ estão a emergir, à medida que os utilizadores ‘navegam de forma rápida e ’ horizontalmente por títulos, páginas de conteúdo e resumos.” Procurando ganhos rápidos. Quase parece que vão para a internet para evitar a leitura no sentido tradicional.” (Nicholas Carr, 2008 [1] )”. Fim de citação
Inverter esse processo, o que é urgente fazer, exige outra ideia de responsabilidade pública, de missão pública, exige outro tipo de ensino, outro tipo de catedráticos, outro tipo objetivos que não sejam os de agora: altas notas com gente a colocar gente diplomada no mercado cujos diplomas podem atestar na melhor das hipóteses uma ignorância esclarecida e reconhecida, ou suma, diplomas desvalorizados.
Porque é urgente inverter a dinâmica das instituições instalada desde as últimas décadas, é urgente a publicação de textos que denunciem o que se tem estado a passar que publicaremos os múltiplos textos desta série.
Sublinho que os dois textos de Bradford DeLong – “Grandes livros sérios podem realmente ser seus amigos intelectuais” e “Os Sete Trabalhos do Macaco Académico” – fazem um todo. São textos relativamente elípticos: vejam, por exemplo, a forma como ele critica o objetivo maior dos professores universitários de hoje: publicar, publicar, utilizando o filósofo Kierkegaard, vejam ao forma como ele descreve o estado de desânimo das Universidades, vejam como ele fala da necessidade de mudar de paradigma na missão de professor quando nos diz que a defesa contra a degradação do ensino provocada pela IA passa também pela mudança do que se passa na cabeça dos professores, passa por mais tempo na sala de aulas, passa por mais professores, por mais dedicação de cada um deles à matéria cinzenta a trabalhar daqueles e naqueles que se tem pela frente.
Nada disto tem a ver com o que se faz hoje e Boaventura de Sousa Santos antecipou no texto acima citado, e muito bem, o que se está agora a passar. Esta história da Iniciativa da FEUC a promover a Microsoft não lembraria sequer ao Diabo, mas lembrou aos nossos doutorados de agora. Ou há coragem de tomar medidas frontais contra o tsunami que se avizinha sobre as Universidades, as medidas enunciadas por Bradford DeLong são claramente insuficientes, ou então, por mais galões que ostentem os seus catedráticos de aviário, isso não protegerá as Universidades. De resto como se tem visto, as Universidades estarão tanto mais desprotegidos quando mais galões ostentarem em sua defesa, mas isso significa que estaremos a atingir a situação já anunciada por Boaventura Sousa Santos no seu último trabalho, A necessidade de pensar o impensável. Neste trabalho, diz-nos Boaventura de Sousa Santos:
“O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.
O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos
Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.
E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.”
Mas repare-se, como nos diz Boaventura: “uma vez que a IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano”. Chegados aqui diremos que ao substituir o pensador é este que deixa de ser formado, é este que não se faz, nem se desfaz, simplesmente não se cria, e os embriões dessa criação feitos ainda ao nível do secundário, extinguem-se na chegada à Universidade. Simples ironia do destino, acabo de publicar uma série de textos sobre a morte anunciada da Universidade, escritos em março de 2025 e por razões de calendário só agora publicados no blog A Viagem dos Argonautas e de que também dei conhecimento aos professores Alvaro Garrido (então diretor da FEUC) e responsável pela reforma das FEUC) e José Manuel Mendes, o atual diretor e o sustentáculo da reforma feita pela direção que o precedeu.
Se queremos salvar a Universidade há, pois, um longo caminho a percorrer, há, pois, inúmeros obstáculos e resistências a vencer. Em nome dos nossos filhos e netos, no fundo, em nome do futuro do país que é o nosso, não desistamos de lutar por um ensino melhor.
Esperamos que a série Inteligência Artificial cuja publicação se inicia amanhã possa de algum modo constituir um contributo neste sentido.
E é tudo.
______________
[1] In the Atlantic Monthly July August issue 2008, accessed in March 2023 https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/306868/


