CARTA DE BRAGA – “dia 25, um dia de todas as coisas!” por António Oliveira

 

Li num dos jornais, dos que consulto diariamente, um artigo do catedrático de Filosofia em Castilla la Mancha, Jesus Parra Montero, apoiando-se no neurologista, político e escritor David Owen, que centrou o seu ensaio ‘Na doença e no poder’ editado já em 2008, nos líderes políticos que, mesmo sem sofrerem de um qualquer tipo de doença mental, desenvolvem o que ele classifica como ‘síndrome da arrogância’, ou mais coloquialmente, ‘a embriaguez do poder; mas Parra Montero explica o que ele entende por este síndrome –a persistência no erro e a incapacidade de reconhecer e corrigir os seus erros e equívocos.

E não é necessário procurar nenhuma enciclopédia ou tratado de saúde mental, para logo nos chegarem à cabeça nomes e imagens de um largo número de dirigentes mundiais –deste ou do outro lado do charco– que até nem quero citar, para não sujar esta Carta, logo ao segundo parágrafo. Mas, acrescenta Parra Montero, ‘Quem desenvolve tal síndrome tende a aumentar a probabilidade de também afectar as suas decisões políticas que, na maioria dos casos, terminam com resultados perigosos ou catastróficos, não para si mesmos, mas para os outros’.

David Owen é mais explícito, ‘Os líderes assim afectados, afectados por essa síndrome param de ouvir, só acreditam nas suas ideias, nunca reconhecem os seus erros e preferem rodear-se de bajuladores que não hesitam em os saudar, mesmo quando erram, repetindo sempre como a sua presença é salvífica, à frente dos destinos do estado’.

Um exemplo claro desta afirmação de Owen, foi dado no passado 25 de Outubro por Martin Barão, ex-editor do ‘Washington Post’, ao criticar o que quer ser o dono de todas as opiniões lá do sítio, ‘quando ameaça a liberdade de expressão nos EUA com o assédio a vozes críticas. É o que está acontecendo hoje por lá. Os factos estão sob ataque, enquanto o governo exige que suas ficções sejam propagandeadas sem questionamento. O que Trump e seus aliados desdenham abertamente, é a razão pela qual os fundadores da América escreveram a Primeira Emenda da Constituição’.

O catedrático em História Contemporânea Pedro Luis Angosto, salienta também a 25 deste mês, ‘Em Gaza os assassinatos continuam, a ocupação é mais brutal cada dia que passa, os palestinos continuam a fugir sem saber para onde, e os EUA continuam a vender armas e a impor a sua preponderância inclusive na União Europeia (entidade que não precisa de se armar até os dentes para ser respeitada, mas sem líderes capazes de defender o que a Europa representa no mundo, ainda hoje). E nisso, tanto a Presidente Ursula von der Leyen, como Mark Rutte, o Secretário-Geral da NATO, demonstram uma lamentável falta de lealdade à Europa, com o seu compromisso inabalável com o bruto que reside na Casa Branca’.

No mesmo dia 25 e no mesmo jornal, o ‘Nueva Tribuna’ daqui ao lado, Walter C. Medina refere tal indivíduo num artigo sob o título ‘A dança dos idiotas’. Mas tem o cuidado de explicar a seguir, ‘Digo idiota no sentido que melhor se encaixa a este apresentador de televisão que se tornou chefe de Estado; aquele que tem sua origem etimológica no grego idiotes, o que quer dizer apenas ‘a pessoa alheia aos assuntos públicos, que não se preocupa com o Estado ou com a comunidade, mas apenas com seus assuntos privados; e vai ainda vai mais longe ao citar Michel Foucault, ‘A humilhação é o instrumento mais subtil do poder, por impor obediência sem ninguém pedir, a ver na ilustração gráfica da vergonhosa actuação de von Leyen e Ritter diante de seu mestre, a que votam uma admiração mórbida’.

Volto a Parra Montero por uma explicação com origem na cultura clássica, ‘O termo grego ‘húbris’, significa orgulho ou arrogância. Os gregos usavam esse termo para descrever a arrogância humana frente aos deuses, que os levava a acreditar que, embriagados pelo poder, poderiam alcançar qualquer coisa; mas também acrescenta que a historiadora e vencedora de um Pulitzer, Barbara Tuchman, escreveu muitas vezes que, nem damos conta de como ‘o poder gera loucura, e o poder de comandar frequentemente impede o pensamento, que a responsabilidade do poder diminui à medida que seu exercício aumenta, quando a responsabilidade geral do poder é governar da forma mais razoável possível, no interesse do Estado e de seus cidadãos’.

A juntar a todas estas coisas e pegando agora no ‘El País’ também do dia 25, a dissolução da USAID poderá causar 14 milhões de mortes até 2030, de acordo com um estudo do Instituto IS Global, das quais I4,5 milhões seriam crianças. O estudo contou com a colaboração de pesquisadores do Brasil, Moçambique e EUA.

Mais quatro milhões morrerão de HIV, se não pararem os cortes de financiamento, os cortes na luta contra a tuberculose também acabarão com a vida de outros dois milhões, agora de acordo com a OMS, no relatório anual sobre a doença infecciosa mais mortal deste mundo.

E a tremenda injustiça e venda que o tal bruto está a fazer do território da Ucrânia, ao seu sócio czarista, com as condições divulgadas também no mesmo dia 25?

Não quero falar de outro 25, o daqui, de Lisboa e da muita gente envolvida, de quem ainda ouvimos e lemos muitas mentiras, e até verdades inconvenientes para a direita que por cá vai crescendo e, por isso, prefiro terminar com uma expressão que ouvi na gravação de uma entrevista com o humorista Berto Romero, também naquele mesmo dia 25, deste mês –Desejo que a quantidade de cretinos a nível mundial deixe de crescer, e volte a atingir níveis compatíveis com a vida humana.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

Leave a Reply