Vou começar esta Carta por uma bravata de um daqueles espertos que os americanos tão bem ‘fabricam’, Arthur Finkelstein de seu nome, que foi conselheiro de candidatos como Nixon e Reagan, nos anos setenta e oitenta; e numa explosão de sinceridade, este senhor que exerceu tal ‘ofício’ para outros candidatos conservadores e de direita nos Estados Unidos, Canadá, Israel, Europa Central e Oriental, afirmou um dia, ‘Disse que queria mudar o mundo, fiz e piorei’.
O jornalista e escritor Juan Antonio Molina, apresenta-o devidamente: ‘Netanyahu em Israel e Orbán na Hungria, praticaram a fórmula Finkelstein de campanhas negativas, atacando sem decoro o oponente, ao fazer dele alguém tão odioso que seus próprios apoiantes optariam por se abster’. E Molina acrescenta ainda, ‘Finkelstein era um mestre em projectar campanhas fora do debate de ideias e derrotar o outro com fantasmagorias emocionais, e o sucesso da sua estratégia acabou por ser a derrota da democracia e da decência’. Vejam-se as notícias dos jornais ou dos ecrãs, pequenos ou grandes, para sabermos como a mentira está banalizada e normalizada na vida política. Penso e escrevo aqui, ser nesta altura, uma situação inquietante, pois uma amoralidade quase inamovível, ameaça a frágil democracia em que ainda vivemos.
Lembro ainda que Aristóteles dizia e escreveu que o homem era um animal político, uma afirmação que, ainda hoje, continua a dar origem a muitas e muitas páginas nos domínios da Filosofia, da Sociologia e da própria política, mas e ao mesmo tempo, nos impõe a necessidade de saber exactamente a nossa posição na sociedade, para não cairmos naquela ligeireza dos absurdos bem longe da democracia como ‘Todos os políticos são iguais’ ou ‘O que é que adianta ir votar?’ e outras insanidades como ‘São sempre mesmos, só muda o nome do partido!’
Estas expressões e outras de igual qualidade, poderão ser enquadradas naquilo que a que muitos estudiosos destas coisas até já chamaram ‘antipolítica’; se repararmos bem entram nesta classificação, todo o tipo de slogans e piadas, vãos e sem conteúdo, mas fáceis de entender e de exprimir também, por não exigirem grandes falas, e poderem, até por isso, alargar o número de ‘clientes’ do mesmo tipo, ou então para denegrir socialmente os que se lhes opõem, embora sejam também o reflexo da falta de investimento na educação, por serem os pior educados e mesmo ignorantes, os passa-palavra de tais dichotes.
A juntar a todas esta coisas, que nem precisam de grandes tratados para serem devidamente confirmadas, e parece mais uma complicação de origem tecnológica, a ‘ChatGPT’ e, agora a IA generativa, com todas as implicações que tal denominação implica, mas a oferecer mais um sucedâneo para satisfazer a nossa curiosidade, indo um bom bocado mais além das redes sociais, pois num ambiente a abarrotar de informação, mas com pouco ‘alcance’, a curiosidade é mais impositiva que nunca.
Não estou a falar das cidades, vilas e aldeias afastadas mais de 50 ou 60 quilómetros do litoral –onde nunca passa nada, às vezes não há correios, nem centros de saúde, nem caixas de multibanco– mas nas outras mais perto da civilização ‘como já ouvi dizer tantas vezes!’– onde na cultura aportada pelo digital, o bisbilhotar também assume a amplitude da curiosidade, aquela mesma que levou tanta gente a expor toda a sua vida, e olhar a dos outros no Face e afins. E ficamos pela curiosidade ou pela bisbilhotice? Talvez que, se esta pergunta, não levar a comparar as fontes, marque o final daquilo a que alguém já chamou ‘higiene intelectual’.
Aliás Hannah Arendt, salientou bem que a política nasce da esfera pública, do discurso partilhado e da participação do cidadão; participação que se pode manifestar nas ruas, com protestos e outros meios, que seria bom para o líder e seus associados ouvir bem, para depois actuar com o devido cuidado ou presteza, porque quando se abandona o diálogo, nem sequer se olham os factos contados pelos media, aumenta cada vez mais a distância entre o poder e o cidadão, por aquele não compreender a força colectiva que terá à frente.
Mas, apesar de no mundo do digital, quase me sentir tal como um simples agricultor, sigo a opinião de gente que entende os problemas que aqueles termos de origem tecnológica (ChatGPT e IA generativa) poderão trazer a uma sociedade mal preparada, tecnológica e culturalmente; diz o filósofo Eric Sadin, cujas investigações nas tecnologias digitais, já o levaram a editar alguns livros, dos quais os mais conhecidos dos quais são é ‘L’ère de l’individu tyran: la fin d’un monde commun’ e ‘Reflexões críticas sobre IA generativa’.
Não há ainda as edições em português, mas Sadin escreve que a IA dá origem a cinco grandes dramas que não param de crescer: o primeiro é o espectáculo de bilhões de indivíduos que renunciam a expressar-se na primeira pessoa, para dar lugar a uma linguagem matematizada e padronizada, portanto necrótica, já que carece de toda vitalidade e subjectividade.
O segundo, são essas mesmas multidões a ser cada vez mais convocadas a interagir com entidades omniscientes (?!?) que as conduzem pela mão, com o objectivo de incitá-las a adquirir produtos e serviços supostamente personalizados.
O terceiro drama é o advento de uma era de indistinção generalizada, onde não mais saberemos a origem nem a natureza de uma imagem.
O quarto é o fim da ‘destruição criativa’ teorizada há quase um século por Schumpeter, ao garantir que as disrupções tecnológicas levavam à destruição de empregos, mas simultaneamente criavam novos, geralmente no sector de serviços. Isso aconteceu a tal ponto que hoje, mais de 70% dos empregos em todo o mundo estão no sector de serviços.
O quinto drama, é a rápida extinção do mundo cultural, onde quase todas as esferas se dedicam agora a mostrar como acções antes realizadas por humanos estão a ser substituídas por processos automatizados.
Eric Sadin vai mais longe e, para nos obrigar a pensar, escreve: ‘Temos uma janela de dois ou três anos para afirmar nossa vontade e evitar sermos reduzidos –e mais ainda, nossos filhos e netos– a cascas vazias, formando assim massas de inúteis. Caso contrário, avançaremos para um ambiente glacial sob o controle de tecnologias, que substituirão todo o discernimento e esforço humanos’.
Note-se, no entanto, no que disse o vice-presidente do ‘Google DeepMind’, Vinil Oriol, ao ‘La Vanguardia’ do dia 3 do Dezembro, ‘A regulamentação não é a solução para os desafios e oportunidades da IA; a educação é. Estou optimista, porque aqui. o nosso nível é muito alto’; outros ‘nomes grandes deste negócio’ já começam a levantar questões sensíveis: Geoffrey Hinton, Prémio Nobel de Física e tido como o padrinho da IA, afirma que, dentro de poucos anos, seremos substituídos por seres superinteligentes e a humanidade se extinguirá. Bill Gates também não perde a oportunidade de expressar preocupações com o potencial malévolo da IA.
E, a propósito destas afirmações, preocupações e de tudo o que consta desta Carta, socorro-me de José Crespo de Carvalho, catedrático em Gestão e colunista do ‘Diário de Notícias’, por no dia 25 do passado mês, ter escrito, ‘Parece óbvio, então, que tens de escolher: queres que a IA pense por ti, ou contigo? A diferença parece simples, mas, no dia a dia, começa a ser cada vez mais complexa. No primeiro caso, serás útil –até deixares de o ser, no segundo, continuarás humano– e livre.
Pensar, hoje, é o último acto de liberdade. Pensa nisto’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


