Imagens de um país sofrido e parado no tempo, Portugal, das suas aldeias, das suas crianças, nos tempos negros do fascismo dos anos 50-60 — Algumas notas finais sobre esta narrativa de um país parado no tempo. Por Júlio Marques Mota

 

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Algumas notas finais sobre esta narrativa de um país parado no tempo escritas a partir de um outro pormenor da minha relação com os meus pais. 

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 27 de Fevereiro de 2026

 

Nota 1

A minha mãe enviuvou muito cedo, em 1966, e naquela época viúva uma vez era viúva para sempre. E nessa condição ainda viveu 36 anos. As vestimentas de preto que ainda hoje se vêem nas mulheres camponesas para lá dos 80 anos são um símbolo disso mesmo. Para mim, um dos sinais ainda mais evidentes é o lenço preto sempre na cabeça, faça calor ou frio, chova ou faça sol. Algures no tempo, por volta de finais dos anos de 70, a minha mãe terá dito à minha mulher algo como isto: há muito tempo que deixei de ser mulher. O que é que isto quer dizer, isso não sei, talvez imagine um pouco, mas um pouco apenas, e esta frase solta, caída por acaso e por expressão da condição de muitas mães deste país, dá a dimensão do sofrimento ou da amputação da alegria de vida, a que muitas das mulheres viúvas deste nosso país estavam condenadas a viver. Mas isto não era só no campo, era igual na cidade e muito vulgar sobretudo em gente de mais baixos rendimentos.

Aqui vos deixo um exemplo. O meu sogro era militar e fez duas comissões no Ultramar. Uma delas por imposição militar, a segunda por opção, com o objetivo de poder pagar o colégio da filha, a custar nos anos sessenta na Cova da Piedade e numa zona onde não havia secundário, cerca de 450 escudos por mês.  Numa das cartas da sua mulher, exatamente de 1966, esta descrevia uma situação de viuvez com que se deparou e que passo a citar:

No dia em que fui ao médico estava uma pequena vestida de preto e com um véu na cabeça que mal se viam os olhos. A mãe é que esteve a contar. O marido dela era sargento-fuzileiro e morreu há três meses na Guiné. Deixou dois filhos pequenos, ela ficou de bebé: estava de 3 ou 4 meses pois ela também estava na Guiné. Assim que o marido morreu veio logo para cá, para o corpo do marido vir para Portugal. Depois do funeral do marido esteve de cama um mês e nunca mais gozou de saúde. A rapariga devia ter casado muito cedo pois apenas tinha 18 anos. Não fazes ideia do desgosto que senti ao ver aquele quadro: o marido morreu e não chegou a saber que ela estava grávida. Até à data o Estado ainda não lhe tinha dado um tostão. Se não fossem os pais, passavam fome.

Mais cedo ou mais tarde a biologia do corpo e os anseios da alma desta jovem marcariam outro caminho e outras desgraças neste contexto terão sido possíveis.  Esta é a sociedade em que eu cresci, parada no tempo e no seu sofrimento.

Desse imobilismo do país e das suas vivências aqui vos deixo um pequeno detalhe relativo à minha mãe.  Como viúva sem rendimentos resistiu na vida com um pequeno negócio, o de compra de queijos de cabra frescos, e respetivo tratamento, com o qual se obtinha o queijo de cura amarela e o “famoso” queijo picante, também dito de “queijo chulé”, devido ao seu cheiro característico, profissão esta que lhe dava para viver, embora à míngua. Tinha um burro, ia aos montes comprar os queijos frescos e depois curava-os, nas duas curas possíveis de então e, se calhar, serão ainda as curas de agora, a cura amarela e de queijo picante.

Em termos de cuidados alimentares, em 1972, depois da invasão do ISEG pela polícia de choque, em que fiquei muito ferido, durante um certo tempo por impossibilidade de mastigar, fui alimentado com uma dieta especial estabelecida pelos serviços técnicos de uma empresa de Alimentação Racional, a Diese. Com os maxilares fixados e completamente imobilizados por arames de aço para consolidação de fratura do maxilar e do côndilo do lado esquerdo, eu era alimentado de comida líquida apenas, e isto através de uma palhinha que me entrava na boca pelo espaço vazio de um dente que ficou partido nessa altura. Tratava-se apenas de comida líquida e nesta dieta entrava leite em pó da Diese que só levantava um problema: era caro, muito caro para a época. Tive, pois, conhecimento deste produto. A minha mãe não bebia leite por lhe dar vómitos, experimentou esse leite da Diese e gostou. Passei, pois, a comprar-lho.

Quando me empreguei, passei a assegurar-lhe um outro tipo de alimentação, e é isto que justifica esta nota. Comprava o peixe e a carne, cortava tudo em refeições singulares, congelava e depois ia ao Fratel levar. Como ela não tinha dentes, a carne tinha de ser lombinho de porco e de vitela. Chegado ao Fratel, carne e peixe eram colocados numa arca de congelação de uma vizinha, e quando precisava ela ia à casa da vizinha buscar a comida. Repare-se no trabalho que isto dava: ia ao talho e à praça do peixe, fazia as compras, era tudo colocado em sacos de congelação individuais e colocados no meu congelador, que ficava por sua conta. Depois, metia tudo numa geleira própria, e ia de Coimbra ao Fratel na camioneta do final da tarde, para proteger a congelação. A camioneta passava a 7 km de Fratel e eu ficava no sítio mais perto, o Perdigão. Depois, ou ia um primo meu buscar-me ou contratava o táxi local para me ir buscar. Dormia lá e voltava para Coimbra no dia seguinte. Na volta, trazia a geleira com lombo e costa (entrecosto) que ela me comprava, e esta carne era de uma de qualidade muito superior à que se comprava na cidade de Coimbra. Porquê superior? Sinceramente não sei. Seria devido à alimentação do animal, incluindo nela a qualidade da água ?

Isto era uma coisa que eu fazia mais ou menos de mês e meio em mês e meio. Quis reduzir o número de vezes que ia fazer periodicamente esta função e questionei a minha mãe, dizendo-lhe: então se me compra lombo de porco e costa aqui, no Fratel, eu escuso de lhe comprar carne de porco, compra-a a mãe aqui, e eu trago-lhe mais carne de vaca e mais peixe, e poupo no número de vindas que venho cá. A resposta deixou-me encostado às cordas, sem fôlego: se não podes vir tantas vezes não venhas, eu cá me arranjo, mas eu não compro carne para mim, eu só compro aqui carne de porco para ti. Mas é a mesma coisa, retorqui. Não, diz-me ela muito séria, Não é a mesma coisa, não. Sou viúva, uma viúva não compra coisas boas para si, é assim, e eu sou assim!

Ser viúva fazia dela, das viúvas daquele tempo e do nosso mundo rural, gente condenada a privar-se de viver com alguma qualidade de vida. O peso da imutabilidade estava ali, bem presente naquela frase, é assim, e eu sou assim. Nada mudou, continuei a ir o mesmo número de vezes e com o mesmo tipo de carnes e de peixes. Nada mudou, nada mudava naquele tempo. Nascia-se pobre de condição e ficava-se pobre de situação – sempre. Ficava-se viúva uma vez, ficava-se viúva para sempre e as viúvas não podiam comprar coisas boas para si, não podiam melhorar a sua própria condição de vida. Nem sequer mostrar o seu penteado podiam!

O preto incomodava-me, a ausência de cores incomodava-me, ainda me lembro dela vestida de blusa colorida a vender queijos, com uma cesta deles à cabeça, mas o que me incomodou mais foi a cena da carne de porco quando me diz num tom pesado: “Sou viúva, uma viúva não compra coisas boas para si, é assim, e eu sou assim!”

Podíamos arrumar esta frase no mundo dos ignorantes, da gente totalmente iletrada, ou até rotular isto de uma posição estúpida, essa não é a minha opinião e uma coisa é certa: esta afirmação representa bem mais do que o imobilismo mental de uma mulher de outros tempos, ela representa o imobilismo social bem presente de uma sociedade parada no tempo, ou melhor ainda, ela representa o peso do passado com todos os seus fantasmas, no presente de cada um que o assume. Era o caso da minha mãe. Foi isso que a extrema-esquerda nunca percebeu no período que se seguiu imediatamente ao 25 de Abril e assim quase tudo em que a extrema-esquerda se meteu deu em desgraça, deu em efeitos perversos. Quiserem sempre dar passos mais rápidos que a própria sombra e a consequência foi obscurecer o sol que poderia brilhar e com isso até a sombra desapareceu.

À volta desta questão recordo um jantar em Paris com Samir Amin, K. Karol do Nouvel Observateur e Rossana Rossanda do Il Manifesto, mais uns intelectuais norte africanos e da África Equatorial. Por ironia, foi um jantar na casa de uma princesa africana e linda como tudo, onde se comeu um arroz como nunca mais comi! Do que se falou? Não exatamente da costa e do lombo de porco da minha mãe, mas da mesma coisa no que ela representa no plano político e social: o marxismo só poderia entrar em África se absorvesse grande parte da cultura local, com os seus mitos, os seus fantasmas, o seu passado: assimilá-lo, não confrontá-lo, transformá-lo, deveria ser a palavra de ordem. Se lermos Branko Milanovic [1], que temos nós? A resposta clara: o marxismo avançou na China ao ritmo que o fez porque se reencontrou com Confúcio e só assim, porque o peso do passado está em tudo o que os chineses fazem e pensam. Vejam isto em confronto com a Revolução Cultural, o efeito desta foi sobretudo perverso!

A história tem o seu peso, a marcar o ritmo a que se pode andar, e esse ritmo não é nenhum de nós que o determina. A história da costa e do lombo de porco da minha mãe pode, pois, também ser vista no plano nacional, no plano regional como é o caso da União Europeia em que a integração apressada de alguns países foi um desastre ou ainda no plano mundial como o fez agora Branko Milanovic ao analisar o caso chinês. A análise da situação da “costa e do lombo de porco” da minha mãe, ultrapassa, e de longe, o imobilismo que aquela realidade traduz, o dramatismo singular que representava a nível individual, e ultrapassar este imobilismo no plano não se faz com um sonho de uma noite de verão como se quis fazer coletivamente em Portugal após o 25 de abril de portas mil. Assim, o sonho foi-se, transformou-se, e ficámos com o seu produto derivado. o pesadelo que cinquenta anos depois enfrentamos.

 

Nota 2

O rio Tejo separa a Beira Baixa do Alto Alentejo. A Beira Baixa fica na margem direita do rio e o Alentejo fica na margem esquerda. O Manuel Ramalhete é do Arneiro, uma aldeia no norte do Alto Alentejo e o pai era pescador profissional e vivia da pesca no período autorizado para a atividade pesqueira. Grande parte do peixe pescado era vendido pelo seu pai ou pela sua mãe. Desciam a encosta do Tejo, tinham um bote (pequeno barco a remos) que os trazia para a margem direita do Tejo e carregando o peixe teriam de percorrer 5 Km para chegarem à minha terra, uma terra onde se vivia com falta de liquidez, para aí venderem o peixe. No fundo, não será faltar à verdade considerar que só vinham vender peixe ao Fratel quando se apanhava muito peixe e não havia capacidade de compra na margem esquerda e nos arredores do Arneiro, e também muitos pescadores eram do Arneiro. Estaríamos assim numa sociedade pré-capitalista ou de capitalismo primitivo, de produtores independentes onde as relações comerciais entre “mundos diferentes” assentavam na comercialização dos seus “quase” excedentes.

Do lado da minha terra havia dois moleiros de profissão, os irmãos Zé e António Martinho, que pescavam para si. Possivelmente as técnicas de pesca não eram as mesmas, o rio, criava assim dois mundos não comunicáveis tecnicamente entre si, o da margem direita e o da margem esquerda, dois mundos de um imobilismo aterrador. É o meu pai, que vindo dos lados do Gavião de Abrantes, introduz no sistema tão imutável como seria o da sociedade de Fratel, a inovação técnica, e esta ia das enxertias, à poda das oliveiras, à abertura de furos para a captação de água (a abertura de poços), à utilização de diversos tipos de rede ou de outros artefactos na pesca. Não será por acaso que durante anos em qualquer almoço coletivo se guardava sempre um minuto de silêncio em sua memória. No fundo, ele transportava consigo o know-how, para utilizar a linguagem moderna, de toda uma região para outra, era o elemento difusor das tecnologias apropriadas aos recursos disponíveis.

 

Nota 3

No meu texto, referi-me ao secretismo que envolveu o meu envio das três cartas ao ministro da Educação de então. Porquê o secretismo, então? Tudo aponta para a ideia de que o meu pai seria, e à sua maneira era, um progressista e nesta qualidade deveria apoiar a minha posição. Não se perceberia o secretismo que envolveu o meu comportamento. Hoje, eu diria com Marx, o homem é também o que são as suas circunstâncias e as suas circunstâncias mentais poderiam não lhe permitir assumir uma posição de confronto tanto com o poder local como com o poder nacional. Estávamos em 1953-1954 e eu era o seu filho.

A dar-lhe conhecimento prévio e pedir-lhe autorização, ele poderia antes optar por não deixar correr nenhum risco ao seu filho, e assumir que isso seria a posição mais correta enquanto pai. Como isso podia acontecer, ele poderia dizer que não, e ele era muito rígido nas suas decisões, decidi deixar tudo a meu cargo e fazer o que fiz, secretamente. Se houvesse alguma consequência, uma vez que eu tinha razão e que ele não seria culpado de nada do que me aconteceria, porque desconheceria tudo, ele estaria ao meu lado, como de facto esteve, quando fui obrigado a ir depor a Vila Velha de Ródão. Se eu lhe desse conhecimento prévio, e se ele me dissesse que não, era sempre uma hipótese, e se eu fizesse o contrário da ordem dada, mesmo concordando comigo, eu não me livraria de levar uma monumental sova, houvesse ou não consequências. Levei algumas, não muitas, mas algumas e bem duras, por desrespeito a ordens dadas quando criança, e aos 18 anos, agradeci-lhe as sovas que me deu, e estava a ser franco no que lhe dizia.

 

Nota 4

Quando fiz 83 anos alguém me ofereceu o livro Lojas Históricas de Coimbra de Ana Filipa Ponte e Sara Reis. E na sua leitura confirma-se o que já se sabia: gente que trabalhou toda uma vida e que hoje se situa acima da casa dos setenta anos é gente que levou uma vida do diabo, pavimentada de sofrimento e de incertezas, foi gente que assumia o que fazia não apenas por obrigação, mas sobretudo por vocação. O livro relata histórias de gente aparentemente trivial, mas que deveríamos olhar como gente excecional e com história a merecerem relatos bem mais desenvolvidos.

Dos muitos casos relatados refiro as histórias da casa Baltazar, da casa Arménio, da Chapelaria e Camisaria Bragas, da casa Pedrosa, o caso das lojas Diorama e do seu criador Arlindo Almeida Santos que foi levado a deixar morrer o seu sonho de vir a ser engenheiro mecânico, etc., etc..

No fundo o livro Lojas Históricas de Coimbra está todo ele cheio de histórias que são tanto ou mais importantes que as relatadas pela nossa narrativa. E isto diz-nos que faço parte de uma geração que foi sacrificada toda ela pela dureza do fascismo e que em cada um de nós há um forte lastro de dignidade humana a ser reconhecido, o que é independente de se ter tido sucesso ou insucesso. As circunstâncias foram o que foram e deram o resultado que deram.

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[1] Branko Milanovic,  As implicações ideológicas do sucesso económico da China: o marxismo na sua versão chinesa e o seu futuro (original aqui).

 

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