Inteligência Artificial, uma pausa para reflexão — Ainda a propósito da Inteligência Artificial -uma curta nota. Por Júlio Marques Mota

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Ainda a propósito da Inteligência Artificial – uma curta nota

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 29 de Novembro de 2025

 

Um amigo meu de longa data questionou-me sobre o volume de textos a serem editados no blog A Viagem dos Argonautas sobre Inteligência Artificial e pergunta-me se se justificam tantos textos.

No dia seguinte recebo dois textos, um da professora Lorena Barba [1] e um outro sobre a Geração Z, da empresa de consultoria Oxford Economics. Ambos os textos estão ligados à problemática da Inteligência Artificial e esta ligação levou-me a escrever a presente nota, como uma espécie de resposta à pergunta que me foi feita.

É evidente que ele tem razão na sobrecarga editorial que isto acarreta, disso não tenho dúvidas. Mas também não tenho nenhuma dúvida de que estamos perante um acontecimento que vai mudar a vida de muita gente, e a maioria talvez para pior. Estamos a falar tanto do presente imediato, como do futuro próximo e logicamente menos do futuro longínquo e é certo que se sabe muito pouco sobre a matéria. Mas se se sabe pouco, discute-se ainda menos sobre isso.

Como exemplo das muitas interrogações que a IA levanta, e a algumas procuramos dar resposta com a série, temos o longo diálogo entre Martin Wolf, diretor do Financial Times, e Paul Krugman, Prémio Nobel da economia ou mais incisivo temos o texto notável de Daron Acemoglu e Simon Johnson [n.ed. já publicado entre os dias 29 de Novembro e 5 De Dezembro], de que falaremos mais abaixo

Nalguns casos os impactos vão ser terríveis e dada a falta de classe da maioria dos políticos de hoje, maioria essa incapaz de ver para além do que se vê ao seu espelho e pouco mais do que um palmo à frente do nariz, as sociedades serão lentas a responder aos cataclismos que a Inteligência Artificial poderá gerar. E isto politicamente pode ser mesmo muito perigoso tanto económica como politicamente.

A este meu amigo digo que a construção desta série teve como referência uma proposta de Henry Farrel, um dos grandes especialistas sobre a IA, em que este defendia a existência de largos debates sobre a IA nos Estados Undos e explicava porquê. É uma série que tem, por isso mesmo, um bom ponto de partida e relembro alguns dos temas e textos que a compõem e as matérias em que incidem:

  1. Há quem diga que o comportamento dos capitalistas de hoje não mudou face ao capitalismo dos tempos de Ricardo e Marx. Foi para mim encantador e muito significativo que dois Prémio Nobel, Daron Acemoglu e Simon Jonhson, tenham ido ao século XIX, precisamente a Ricardo e à terceira edição dos Princípios, procurar linhas de interpretação para o futuro próximo que se avizinha e que, se não houver cautela, poderá ser aterrador.
  2. Há quem diga que é necessário organizar um plano Marshall para proteger as sociedades dos efeitos da IA. E hoje os nossos políticos são capazes da destruição que justifique um novo Plano Marshall mas são incapazes de o conceber.
  3. Há quem diga que a Inteligência Artificial irá obrigar, se queremos ter um ensino decente, a mudar a prática de quem ensina e de quem aprende no espaço de aulas, irá obrigar a mudar a cabeça dos professores e os hábitos dos alunos se quisermos evitar que as Escolas se transformem em fábricas de produção de cretinos digitais em massa.

Relembro aqui o que nos disse Boaventura de Sousa Santos:

“Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.”

E se tivermos em conta as afirmações de Gonçalo Matias, Secretário de Estado Adjunto e para a Modernização Administrativa, e do Ministro da Educação Fernando Alexandre , quanto à utilização em massa do tutor artificial para se obterem estudantes amorfos e transformados em cretinos, percebemos bem que os atuais governos estão para a Inteligência Artificial como Passos Coelho esteve para com a Troika na destruição do país: mais rápido e mais longe que a Troika. E Passos Coelho foi rápido nesse objetivo de destruir o país, e dessa sua política ainda hoje estamos a sofrer, tal como os governos de agora querem ser igualmente rápidos na destruição da nossa capacidade de pensar, externalizando para as máquinas o dom que levou séculos a criar: a nossa capacidade de pensar, de imaginar!

  1. Há quem diga que uma das primeiras vítimas da Inteligência Artificial será a geração Z, a geração que vota à direita e será esta mesma direita que lhe irá cortar o pescoço com o desemprego em massa que poderá atingir esta geração, se coletivamente não despertarmos a tempo da letargia em que as sociedades têm estado a viver.
  2. Há quem diga que a IA vai modificar a estrutura de produção e de prestação de serviços, levantando novas questões quanto aos equilíbrios sociais, sindicais e políticos. Neste sentido há quem diga ironicamente que a Inteligência Artificial (Carlos Romero) irá primeiramente substituir quer muitos dos trabalhos indiferenciados – o que já está a acontecer -, quer o baixo da escala dos empregos diferenciados, a geração Z – o que também já está a acontecer -, o que vai gerar posteriormente uma incapacidade de substituição de quadros médios e superiores, garantindo a estes a estabilidade de emprego que roubaram aos outros.
  3. Há quem diga que a própria estrutura de investimentos no capitalismo atual vai ser moldada pela IA, pelas centenas de milhares de milhões que o desenvolvimento da IA está a sugar nos mercados de capitais e nos subsídios estatais, porque a corrida na IA existe nos moldes em que tem estado a decorrer porque os EUA, o mercado de capitais mais profundo do mundo, têm de estar à frente da CHINA para poder manter a sua liderança imperial ao nível mundial. Dito de outra maneira, há quem diga que a própria IA está a ser peça chave na geopolítica mundial.
  4. E quanto à expressão há quem diga, poderíamos continuar… daí a minha conclusão, oposta à do meu amigo: ficamos muito longe do desejável em termos de textos para cobrir a vastidão dos problemas levantados pela IA.

 

Assim, e à laia de pausa na série Inteligência Artificial, que retomaremos logo de seguida, deixo-vos três oportunos textos:

  • O testemunho da professora Lorena Barba quanto às linhas de orientação para a necessária e urgente modificação a impor no nosso sistema de ensino, o oposto da macacada que Gonçalo Matias e o Ministro da Educação querem impor. É preciso dinheiro, é preciso professores, professores competentes e com alma, o que começamos claramente a não ter.
  • Um texto da empresa de consultoria Oxford Economics sobre a Geração Z, e
  • Um texto de Robert Reich sobre “A empresa mais perigosa dos Estados Unidos” de Peter Thiel um bilionário ideólogo da extrema-direita e com profundas ligações com o mundo da inteligência artificial.

Boa pausa…. e boa leitura

 


[1] De Lorena Barba veja-se o texto: Inteligência artificial — Texto 15. Experiência na adoção de IA generativa num curso de computação em engenharia: O que correu mal e quais os próximos passos. Texto disponível aqui.

 

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