CARTA DE BRAGA – “do tipo da Casa Branca à sobrevivência europeia” por António Oliveira

As estórias em volta do fulano que até dorme na casa mais importante de Washington, que se pinta de laranja a condizer, saíram nos media daqui ao lado no passado dia 7, e mostram bem o nível de tal sujeito, o mesmo que agora se virou contra a Europa, talvez por estar mergulhada numa estranha e rara abulia.

E a primeira conta de um grupo de empresários suíços, a visitarem-no na tal casa, preocupados e nervosos com as tarifas que ele teria imposto ao comércio com o seu país, por ameaçarem o futuro dos seus negócios. Mas como nestas coisas de negócios eles são especialistas, numa pequena e discreta caixa esconderam uma arma secreta para os poder ajudar –uma barra de ouro e relógio Rolex novinho em folha, como soe dizer-se– e o morador da tal casa logo exclamou ‘Bom trabalho’, mesmo antes de anunciar que reduziria as tarifas pela metade. Os suíços respiraram aliviados, pois, como empresários experientes, concluíram que o investimento tinha valido a pena.

Esta estória estava nas páginas do ‘La Vanguardia’ do dia 7, e na ‘Cadena ser’ do mesmo dia, uma outra chamava a atenção: o mesmo sujeito que manda atacar barcos no Mar das Caraíbas e no Pacífico, contando já com algumas dezenas de mortes, ameaça atacar a Venezuela para ‘impedir o fluxo de cocaína para os Estados Unidos’, mas concedeu um indulto ao ex-presidente das Honduras, Juan Orlando Hernandéz, preso nos states, onde foi condenado o ano passado, a 45 anos de prisão, por contrabando de 400 toneladas de cocaína.

Mas, estas estórias não impediram Gianni Infantino, o presidente da FIFA, de lhe entregar o Prémio da Paz desta instituição que manda no pontapé na bola em todo o planeta, ‘em reconhecimento às suas acções excepcionais e extraordinárias para promover a paz e a união em todo o mundo’. Um comentador da ‘Cadena Ser’ afirmou antes da cerimónia começar, ‘Vão anunciar Trump, o homem que realizou operações para deportar imigrantes dos Estados Unidos, imigrantes que passaram anos a construir-lhe o país, que disse a Netanyahu, com um largo sorriso, terem usado bem as armas americanas, que minimizou o assassinato de Khashoggi como ‘uma daquelas coisas que acontecem’ e que, numa colectiva de imprensa, chamou estúpida, por três vezes, a uma repórter’.

Mas, por esta Europa, as coisas não vão melhor. O mesmo ‘La Vanguardia’ na edição de terça feira passada, salta para a primeira página, na coluna de Ramon Aymerich, editor do internacional, ‘A Europa é um obstáculo para os Estados Unidos’ e, no desenvolvimento salienta:Os EUA e a Rússia concordam que os países europeus representam um obstáculo aos seus planos. Washington já está a distanciar-se de Bruxelas e a estabelecer apoio à extrema-direita no continente, como política prioritária’.

E a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, assinada por aquele mesmo trumpa, ‘considera que a Europa está em decadência, que enfrenta a desaparição da sua civilização, pelo que se crê legitimado para a tentar salvar. Pensa fazê-lo com a chegada de forças da extrema direita, a fim de ajudar os governos a corrigir a trajectória actual; ao mesmo tempo atacou a União Europeia pela multa de 120 milhões de euros imposta à X, a rede social de Elon Musk.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, respondeu com veemência, ‘Os Estados Unidos não podem substituir os cidadãos europeus na hora de decidir quais partidos são bons e quais não são. Não podem substituir a visão europeia de liberdade de expressão. Precisamos mais do que apenas novas energias; precisamos nos concentrar em construir uma Europa que entenda como as relações entre aliados e alianças mudaram depois da Segunda Guerra Mundial’, argumentou Costa. Mas acrescentou ainda, ‘Os Estados Unidos já não crêem no multilateralismo, na ordem internacional baseada em regras ou nas alterações climáticas’, o que evidencia as ‘diferenças’ com a Europa nas suas visões do mundo, embora reconheça que os Estados Unidos continuam a referir-se aos países da UE como ‘aliados’.

Del Rosso, ‘Ucrânia, As negociações de paz, nas costas dos europeus

Le Monde’, 25.02.15

O correspondente internacional Andrea Rizzi, mostrou a sua satisfação com estas declarações, ‘Acho que são apropriadas. Não podemos ficar constantemente de olho quando há provocações flagrantes, como este documento oficial que fala em interferir em nossas fronteiras. Devemos responder de forma clara e calma. Não nos podemos calar. O silêncio de Von der Leyen é um erro’, adiantou.

Só para terminar aqui deixo, e a propósito, um texto imperdível do filósofo alemão Jürgen Habermas –A improvável integração política da União Europeia é vital– e acrescenta ainda a ser amargo o balanço da situação mundial:A China está à procura de uma ordem mundial chinocêntrica, os Estados Unidos a liquidar a democracia e os regimes autoritários a crescer; frente a este panorama desolador, a Europa deve voar só e mais unida. É uma questão de sobrevivência!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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