As estórias em volta do fulano que até dorme na casa mais importante de Washington, que se pinta de laranja a condizer, saíram nos media daqui ao lado no passado dia 7, e mostram bem o nível de tal sujeito, o mesmo que agora se virou contra a Europa, talvez por estar mergulhada numa estranha e rara abulia.
E a primeira conta de um grupo de empresários suíços, a visitarem-no na tal casa, preocupados e nervosos com as tarifas que ele teria imposto ao comércio com o seu país, por ameaçarem o futuro dos seus negócios. Mas como nestas coisas de negócios eles são especialistas, numa pequena e discreta caixa esconderam uma arma secreta para os poder ajudar –uma barra de ouro e relógio Rolex novinho em folha, como soe dizer-se– e o morador da tal casa logo exclamou ‘Bom trabalho’, mesmo antes de anunciar que reduziria as tarifas pela metade. Os suíços respiraram aliviados, pois, como empresários experientes, concluíram que o investimento tinha valido a pena.
Esta estória estava nas páginas do ‘La Vanguardia’ do dia 7, e na ‘Cadena ser’ do mesmo dia, uma outra chamava a atenção: o mesmo sujeito que manda atacar barcos no Mar das Caraíbas e no Pacífico, contando já com algumas dezenas de mortes, ameaça atacar a Venezuela para ‘impedir o fluxo de cocaína para os Estados Unidos’, mas concedeu um indulto ao ex-presidente das Honduras, Juan Orlando Hernandéz, preso nos states, onde foi condenado o ano passado, a 45 anos de prisão, por contrabando de 400 toneladas de cocaína.
Mas, estas estórias não impediram Gianni Infantino, o presidente da FIFA, de lhe entregar o Prémio da Paz desta instituição que manda no pontapé na bola em todo o planeta, ‘em reconhecimento às suas acções excepcionais e extraordinárias para promover a paz e a união em todo o mundo’. Um comentador da ‘Cadena Ser’ afirmou antes da cerimónia começar, ‘Vão anunciar Trump, o homem que realizou operações para deportar imigrantes dos Estados Unidos, imigrantes que passaram anos a construir-lhe o país, que disse a Netanyahu, com um largo sorriso, terem usado bem as armas americanas, que minimizou o assassinato de Khashoggi como ‘uma daquelas coisas que acontecem’ e que, numa colectiva de imprensa, chamou estúpida, por três vezes, a uma repórter’.
Mas, por esta Europa, as coisas não vão melhor. O mesmo ‘La Vanguardia’ na edição de terça feira passada, salta para a primeira página, na coluna de Ramon Aymerich, editor do internacional, ‘A Europa é um obstáculo para os Estados Unidos’ e, no desenvolvimento salienta: ‘Os EUA e a Rússia concordam que os países europeus representam um obstáculo aos seus planos. Washington já está a distanciar-se de Bruxelas e a estabelecer apoio à extrema-direita no continente, como política prioritária’.
E a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, assinada por aquele mesmo trumpa, ‘considera que a Europa está em decadência, que enfrenta a desaparição da sua civilização, pelo que se crê legitimado para a tentar salvar. Pensa fazê-lo com a chegada de forças da extrema direita, a fim de ajudar os governos a corrigir a trajectória actual’; ao mesmo tempo atacou a União Europeia pela multa de 120 milhões de euros imposta à X, a rede social de Elon Musk.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, respondeu com veemência, ‘Os Estados Unidos não podem substituir os cidadãos europeus na hora de decidir quais partidos são bons e quais não são. Não podem substituir a visão europeia de liberdade de expressão. Precisamos mais do que apenas novas energias; precisamos nos concentrar em construir uma Europa que entenda como as relações entre aliados e alianças mudaram depois da Segunda Guerra Mundial’, argumentou Costa. Mas acrescentou ainda, ‘Os Estados Unidos já não crêem no multilateralismo, na ordem internacional baseada em regras ou nas alterações climáticas’, o que evidencia as ‘diferenças’ com a Europa nas suas visões do mundo, embora reconheça que os Estados Unidos continuam a referir-se aos países da UE como ‘aliados’.
Del Rosso, ‘Ucrânia, As negociações de paz, nas costas dos europeus’
‘Le Monde’, 25.02.15



