CARTA DE BRAGA – “das bizarrias aos livros infantis” por António Oliveira

Esta Carta, mais uma vez e infelizmente, trata do gordo laranja que vive em Washington, porque as suas últimas ‘bizarrias’ nem sempre inócuas, estão a pôr o lado da cá do charco a apalpar a erguer os ombros e despejar os bolsos, para ver se se consegue mantar a cabeça de fora do lamaçal imenso em que ele nos quer soterrar.

Parece que esta embirração com a Europa tem raízes profundas, nas palavras do poeta e jornalista australiano John William Wilkinson, a viver em Barcelona há 40 anos e que, num escrito recente, o define assim, (definição a que não tirei nem acrescentei qualquer palavra), ‘Para Trump, a União Europeia deve parecer pouco mais do que uma bagunça política, militar, linguística, culinária e cultural, insuportável e intolerável. Repugnante, na verdade! Não vê nada atraente nessa união ridícula de estados atrofiados, alguns com monarquias absurdas e ultrapassadas, todos afectados pelo veneno do socialismo ou do comunismo, que até a Rússia e a China repudiaram. E, para piorar tudo, liderada por mulheres!

Decidi-me porque este alaranjado, ‘o primeiro e com toda a certeza do último dos ignorantes que passou pelo Congresso dos states’ ter escrito hoje mesmo (22 de Dezembro) na própria plataforma a que se atreveu chamar ‘Truth Social’– a nomeação de Jeff Landry, governador da Louisiana, como seu enviado especial para a Groenlândia– por considerar o território estratégico devido à localização no Árctico, bem como pela riqueza dos recursos naturais, e a ameaça de anexação paira sobre tal ilha já há uns meses.

Mas os últimos dias, a partir da passada quinta dia 18, têm sido férteis em notícias sobre o tal alaranjado, principalmente desde que ele resolveu divulgar uma nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN), onde a Europa aparece desta maneira– uma montanha de problemas económicos, mas alertando estarem ofuscados por uma preocupação maior, a perspectiva do desaparecimento da civilização e cultura em menos de 20 anos–. E quando isso acontecer, não se saberá se alguns países terão economia e forças armadas para continuarem aliados confiáveis, pelo que ‘O objectivo de Washington terá de ser ajudar a Europa a corrigir a trajectória actual’.

As reacções à divulgação deste documento, são muitas e variadas e limito-me a algumas, indicando apenas a personalidade e a data da declaração, que recolhi de órgãos de comunicação diversos; e começo por Alfredo Pereira da Cruz, Tenente-general Piloto aviador, Membro do OS&D da SEDES, O OS&D (Observatório Segurança e Defesa) da SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), no dia 18, ‘A Estratégia de Segurança Nacional Americana, um Cenário de Incerteza para a Europa’.

Eusébio Val, jornalista e correspondente em Paris, no dia 21, vai até ao final da II Guerra Mundial:De Gaulle estava certo em não confiar nos Estados Unidos’ e, mesmo depois dos milhares de mortos nas praias da Normandia e durante a libertação, De Gaulle sempre defendeu a auto-suficiência total em defesa; argumento que repetiu em 17 de Abril de 1975, já a França tinha a bomba atómica, em que, num discurso pela televisão, afirmou ‘A nossa independência exige, na era atómica em que vivemos, termos nossos próprios meios para deter um potencial agressor, sem prejuízo de nossas alianças, mas sem que nossos aliados tenham nosso destino em suas mãos’.

A correspondente em Berlim, María-Paz López, também no dia 21, distribui as palavras do chanceler Friedrich Merz, num discurso no congresso da União Social Cristã (CSU), ‘A nostalgia não nos ajuda aqui […]. As coisas são assim: os americanos estão defendendo ferozmente os seus interesses, e não podemos responder de outra forma senão a defender também os nossos’.

Mais certeiro é Ramon Aymerich, o editor internacional do ‘La Vanguardia’ no mesmo dia 21, e a propósito da nomeação do tal Landry. Num artigo com o título ‘Dinamarca o país que nunca dorme’ refere que os dinamarqueses são os europeus que mais rapidamente aceitaram que os EUA não são um aliado confiável, pois na Primavera passada, o Ministério dos Estrangeiros criou um serviço de vigilância nocturna que opera das 17h às 7h. A sua missão é monitorizar as declarações e as postagens nas redes sociais de Trump e de outros membros de sua administração, enquanto Copenhague dorme.

Convém não esquecer que uma pesquisa publicada pelo semanário ‘Sermitsiaq’ em Janeiro passado, refere que apenas 6% dos habitantes da ilha veriam com bons olhos uma hipotética anexação pelos EUA, em comparação com 85% que se opõem a ela. Assim, o tal Landry vai ter de enfrentar uma tarefa difícil.

O correspondente em Londres, Rafael Ramos, publica também no dia 21, ‘O governo britânico não é tão ingénuo a ponto de não perceber o significado do documento estratégico preparado pela Casa Branca, até por fazer parte da Europa, mesmo não sendo membro da União Europeia; mas está perpetuamente dividido entre o europeísmo (a tendência do Partido Trabalhista) e o atlantismo (para onde os Conservadores se inclinam). Até agora, conseguiu transitar entre os dois lados, mas com a nova posição de Trump, mais amigável com Moscovo do que com Bruxelas, Starmer optou, por enquanto, por apaziguar Trump e mantê-lo o mais satisfeito possível’.

E da Venezuela, todos nós sabemos que o petróleo é a prenda de o tal gordo laranja se quer oferecer a si próprio, por os media terem sempre o maior porta aviões do mundo na primeira página ou no primeiro minuto da emissão.

E só por isso, vou terminar com uma notícia que antecede tudo o que escrevi até aqui, por ter data de 16. Mas convém juntá-la ainda e agora, por serem as declarações bombásticas de Susi Wiles, chefe de gabinete do trumpa, uma senhora com 68 anos, por muitos considerada como a mulher mais poderosa do mundo; numa entrevista à ‘Vanity Fair’, falou com excepcional franqueza sobre o patrão, salientando que o presidente Trump tem uma ‘personalidade de alcoólatra’ porque opera com a ideia de que ‘não há nada que ele não possa fazer’ E no ‘Le Monde’ lê-se ainda ‘Absolutamente nada. Até mesmo concorrer novamente em 2028, em violação à Constituição? Mas ela não acredita nisso; e voltando à ‘Vanity Fair’, ainda se pode ler, ‘Qualquer psicólogo clínico que saiba muito mais do que eu, refutaria o que estou prestes a dizer. Mas os alcoólatras funcionais, ou os alcoólatras em geral, exageram a sua personalidade quando bebem’, afirma Wiles, cujo pai era alcoólatra.

Termino com mais uma das impossibilidades que o gordo laranja se crê capaz de fazer.

O Nascimento de Jesus’, in Revista Infantil ‘In Patufet

La Vanguardia’, 25.12.19

E do escrito que acompanhava a foto, tirei este excerto onde se poderá ter uma ideia da mentalidade de tal fulano, por ser a sua voz narrando o nascimento do Filho de Deus num livro infantil.

É um daqueles livros infantis com um botão em cada página que activa uma voz para narrar a história, neste caso, com a dicção do ‘seu presidente favorito’.

Quando José e Maria finalmente chegaram a Belém, tudo estava lotado, como um dos meus hotéis de luxo’.

No fim, um estalajadeiro ofereceu-lhes o seu estábulo para dormirem junto aos animais’, lamenta o hoteleiro de ouro.

Tudo narrado no tom humilde que o Natal exige: ‘Nestas páginas’, lemos na introdução desta nova publicação, ‘vai ouvir o maior presidente da história americana, compartilhando seus pensamentos sobre o nascimento mais importante que o mundo já conheceu, o nascimento de Jesus Cristo”.

Saliente-se ainda, dizia o escrito de onde traduzi, ‘A voz de Trump –cujo volume pode ajustar– é criada pela entidade chamada divindade, inteligência artificial. Capturámos a sua voz e estilo inconfundíveis, para dar vida a esta história sagrada e alegre’, escreve a editora ‘President’s Bible’, parte da constelação de editoras presidenciais.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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