Nota prévia:
Não obstante alguns dos comentários feitos a este texto, vale a pena realçar que a invasão dos EUA à Venezuela certamente nada tem a ver com restaurar a democracia, direitos humanos ou conversas quejandas, e muito a ver com o domínio dos EUA sobre a América Latina e o esbulho dos seus recursos e inevitavelmente relacionada com outros pontos do mundo onde estão em causa interesses dos EUA.
FT
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Seleção e tradução de Francisco Tavares
2 min de leitura
As próximas 72 horas serão críticas para o mundo
Publicado por
em 3 de Janeiro de 2026 (ver aqui)
Se os Estados Unidos conseguirem impor um controlo sobre a Venezuela e, por extensão, sobre as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, isso marcará uma viragem importante no equilíbrio das potências mundiais.
Tal medida não teria como objetivo restaurar a democracia ou proteger os direitos humanos, mas sim reafirmar o domínio estratégico sobre a energia, as rotas comerciais e as alianças regionais.
Nesse caso, o Irão provavelmente passaria a ser a principal prioridade estratégica de Washington.
Assegurar o controlo sobre o petróleo venezuelano reduziria a vulnerabilidade dos Estados Unidos às perturbações energéticas no Golfo e proporcionaria uma almofada contra os choques de abastecimento em caso de confronto com o Irão.
Com uma fonte alternativa confiável de petróleo pesado sob a sua influência, Washington estaria em melhor posição para absorver ou compensar a destruição ou paralisação das infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico em tempo de guerra.
Isso reduziria o custo económico da escalada e tornaria a pressão militar contra o Irão mais viável política e economicamente.
Ao mesmo tempo, tal controlo reforçaria a capacidade dos Estados Unidos de moldar os fluxos mundiais de petróleo e os preços, consolidando o papel central do dólar nos mercados energéticos e ajudando a preservar o sistema do petrodólar que sustenta o poder financeiro americano.
A Venezuela tornar-se-ia assim muito mais do que uma questão regional.
Tornar-se-ia um precedente estratégico, uma demonstração de que a pressão económica, a engenharia política e, se necessário, a força podem ser utilizadas para reestruturar Estados soberanos e realinhar o equilíbrio global de poder.
No entanto, se os Estados Unidos se envolverem na Venezuela e enfrentarem uma resistência sustentada, o resultado mudaria radicalmente.
Uma crise prolongada esgotaria o capital político, esticaria os recursos militares e económicos e enfraqueceria a capacidade de Washington de projetar o seu poder noutros locais, nomeadamente no Médio Oriente.
Isso também complicaria o planeamento estratégico israelita, intimamente ligado à influência regional americana.
O que está a acontecer na Venezuela não ficará restrito à América Latina. Isso moldará o futuro do controlo energético, os limites do poder americano e a orientação dos confrontos geopolíticos muito além de Caracas.



