A VELHOTA E O CÃO
uma velhota tropeça
e deixa cair os dentes
no meio da multidão de plantas.
as plantas são a multidão na sala da velhota
onde a solidão escorre das paredes.
uma velhota tropeça
e deixa cair os dentes
no meio da multidão de plantas.
no televisor
um repórter do canal oito observa a cena
e prepara a notícia com os joelhos.
estão no chão os dentes.
os de cima
encostados à perna de uma cadeira.
os outros
um pouco mais à direita
junto ao vaso da espada-de-são-jorge.
a passadeira verde e antiga e desbotada
ficou uma língua na boca que nasceu
entre as duas filas de dentes.
a boca ri-se para o cão.
o cão assustado
deixa de lamber os testículos
e sai da posição de regueifa.
a velhota senta-se no sofá rafado pelos invernos
e tira vagarosamente um arco-íris
do avental.
chove idade dentro do seu corpo
mas vale-lhe o sol
na página cinquenta e nove
de um livro antigo.
a velhota pega no comando
e desliga o televisor.
de boca ainda vazia
ri-se do acontecido.
e chama:
– “schenupi!”
num ápice
setenta dentes saltam-lhe para o colo.


