As sílabas marginais/A VELHOTA E O CÃO/Nelson Ferraz

 

A VELHOTA E O CÃO

 

 

uma velhota tropeça

e deixa cair os dentes

no meio da multidão de plantas.

 

as plantas são a multidão na sala da velhota

onde a solidão escorre das paredes.

 

uma velhota tropeça

e deixa cair os dentes

no meio da multidão de plantas.

 

no televisor

um repórter do canal oito observa a cena

e prepara a notícia com os joelhos.

 

estão no chão os dentes.

 

os de cima

encostados à perna de uma cadeira.

os outros

um pouco mais à direita

junto ao vaso da espada-de-são-jorge.

 

a passadeira verde e antiga e desbotada

ficou uma língua na boca que nasceu

entre as duas filas de dentes.

 

a boca ri-se para o cão.

 

o cão assustado

deixa de lamber os testículos

e sai da posição de regueifa.

 

a velhota senta-se no sofá rafado pelos invernos

e tira vagarosamente um arco-íris

do avental.

 

chove idade dentro do seu corpo

mas vale-lhe o sol

na página cinquenta e nove

de um livro antigo.

 

a velhota pega no comando

e desliga o televisor.

 

de boca ainda vazia

ri-se do acontecido.

e chama:

– “schenupi!”

 

num ápice

setenta dentes saltam-lhe para o colo.

 

 

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