APRESENTAÇÃO NA UNICEPE, DO LIVRO “PÉS DE BARRO”, DE NUNO DUARTE
por EVA CRUZ
Saúdo todos os presentes e começo por agradecer ao amigo Dr. Rui Vaz Pinto o honroso convite para apresentar este livro tão especial, “Pés de Barro”, de Nuno Duarte. Julgo que merecia uma apresentação mais eloquente do que a minha modesta apreciação.
Não sou nenhuma académica entendida em análise literária, científica, estilística ou formal, embora seja licenciada em filologia germânica com estudo de quatro literaturas, com conhecimentos linguísticos e de teorias de Literatura. Acima de tudo sou uma leitora compulsiva. Digo isto, não para atribuir qualquer valor ao meu trabalho, mas apenas para sossegar o autor e os que me ouvem.
Não conhecia o autor e também não conhecia o livro. Chegou-me às mãos através de uma amiga, também amante da leitura e excelente pianista, livro que, por sua vez, lhe fora oferecido por uma outra amiga comum. Disse-me: Pelo que conheço de ti, sei que vais gostar muito de o ler.
À noite, ao deitar, a minha hora sagrada de leitura, comecei a ler o livro cheia de curiosidade, pondo de lado um outro que já havia iniciado. Fiquei tão surpreendida e encantada logo de início, com a simplicidade e transparência do estilo que não parei. Apesar da dor no braço que me impedia de o segurar e já ensonada, insisti na leitura. Quando tal me acontece, sinto que o livro me prende e pressinto que tenho nas mãos uma coisa boa. Não me enganei. Chegada ao fim, concluí que o livro é mesmo muito bom.
Ao longo do livro, nas suas linhas e entrelinhas, creio que também fiquei a conhecer o autor, o Homem e o escritor, sobretudo por me sentir identificada com muito do que ali encontrei, desde a clareza da escrita, à maneira de sentir, à forma de pensar e de ver o mundo. Procurei então saber um pouco mais sobre Nuno Duarte. Nuno Miguel Silva Duarte nasceu em Sintra, em 1973, e tem uma longa carreira como publicitário, incluindo muitos prémios nacionais e internacionais nesse meio. Este livro é o seu primeiro romance e foi distinguido com o Prémio Leya 2024, uma das mais prestigiadas distinções para romances inéditos em língua portuguesa. O autor admitiu que nunca imaginara vencer um prémio tão importante e que tal conquista foi um verdadeiro “terramoto” na sua vida. Bem-haja o Júri e o seu presidente Manuel Alegre que o souberam distinguir no meio de tanto prémio atribuído ao desbarato, segundo a minha opinião.
Ao centro, Eva Cruz e Nuno Duarte
Nuno Duarte é um grande escritor, diria mesmo, um poeta, já que o livro, como diz o meu irmão, uma das pessoas que conheço que mais têm reflectido sobre a realidade poética, e que também já leu o livro: “Ser poeta não é ser um agente da banalização da palavra e da poesia, que é o que tantas vezes se vê, mas ser dono de um sentimento poético consolidado, muito apurado e afinado, idêntico a qualquer outro sentimento da nossa estrutura neurobiológica. O sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística e qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si o sentimento poético. Para mim, este livro, apesar de ser em prosa, é um poema do princípio ao fim. Repleto de sentimento em relação à vida, consegue, de forma admirável, enobrecer e dar valor aos mais banais momentos da existência, desnudando de maneira clara e simples todas as formas de humanização ou desumanização do ser humano”.
Podemos também considerar este livro, para além de um poema, um romance histórico, um romance político-social, pelo seu conteúdo. Passa-se nos anos sessenta, num Portugal sob uma ditadura feroz, a ditadura do Estado Novo. O cenário é a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, a Ponte Salazar, mais tarde 25 de Abril, onde vão trabalhar cerca de três mil operários, entre eles a personagem principal, Victor Terapicos, um jovem serralheiro de vinte e dois anos recém-saído da prisão do Linhó por ter roubado pão e batatas para matar a fome. Victor Terapicos sai da prisão ao fim de dois anos e retorna à casa dos tios em Alcântara, Lisboa.
Simultaneamente, com o avanço da modernidade simbolizada pela ponte, assistimos à partida de milhares de jovens para a guerra colonial, e cito as palavras do autor:“…enfiados como gado em navios, campónios, analfabetos como ele… carne fresca e pronta para levar ao forno abrasador de uma guerra”, bem como à miséria do País estampada no rosto do pátio de Alcântara, um pátio operário onde Víctor passou a conviver e que constitui o palco central da narrativa e do crescendo de todo este drama humano.
É neste Pátio do Cabrinha que Victor encontra trabalho e o amor de uma jovem muda, a Dália, que trabalhava com a tia Ema na fábrica da Regina, cheirava sempre a chocolate e tinha o dom de ouvir o mundo, escutar o planeta e pressentir catástrofes e tragédias. Toda uma vida feita de relações humanas com muitos protagonistas marcantes como o sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético, o Ângelo, um velho culto “surdo de palavras escritas”, que ensinou Victor a ler e que a velhice condenou a aprender a desler, o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes, a Odete de língua afiada, o desprezível Josué, dono do ferro velho, a Cesaltina e a Cordália que estava sempre doente, a Adélia fadista, o Carlitos viúvo, o Ti Zé Maria, o Manel Cheirinho e outros, como o Lenine a quem aconselharam a mudar de nome porque o associavam a Satanás. Por lá também vagueava o Adriano PIDE silenciosamente no seu Volkswagen verde que deixava sempre um rasto de perfume a funeral. Havia ainda, fora da rotina do pátio, o Quim Terapicos, irmão do Victor que morava em Sintra com os pais, sonhava em ir para a Universidade e ser engenheiro como os americanos da ponte, mister Tudor e engenheiro Todd e que acabou por ficar sem as duas pernas em África, na guerra.
Mais do que um romance histórico, este livro é, como disse atrás, um romance político-social inteligentemente urdido, um romance que trata a realidade económica e política dos anos sessenta com todo o realismo, denunciando a miséria, a fome, a corrupção, o compadrio, a perseguição política. Para além deste realismo histórico é, como também já referi, um romance cheio de poesia, de lirismo nos pormenores do viver comum, nos gestos, nos silêncios, nos cheiros, no humor subtil, no sarcasmo, nos anacronismos intencionais realçando a crítica social e sobretudo nas figuras de estilo, onomatopeias, metáforas e alegorias que o atravessam, a começar pela beleza e simbolismo do título “Pés de Barro”. No fim de contas, tudo acaba por ruir, tal como o regime que parecia tão sólido quanto a ponte. É um romance ao mesmo tempo sóbrio, escrito com a beleza e a arte de uma conversa de café, de leitura simples, que tanto aprecio, apesar de alguma pontuação disruptiva, com um ritmo de tal modo dinâmico que apetece continuar dentro dele, sem sentir qualquer ponta de enfado ou fastio.
Uma obra é sempre fruto da personalidade do seu autor. Nela se introduzem consciente ou inconscientemente todas as suas vivências, todas as suas alegrias e tristezas, todos o seus sucessos e frustrações, todas as suas verdades e convicções e esta não me parece excepção. Todavia, tendo Nuno Duarte nascido em 1973, não vivenciou os problemas do velho regime nem a guerra colonial, e fico espantada com a força anímica, o realismo, o tom crítico, a honestidade emocional e a narrativa satírica desse tempo, com que consegue transmitir o que nunca viveu. Possivelmente, foi no ambiente familiar, na vontade de saber, que alimentou essa força de denúncia da crua e dura realidade dessa época. Impressiona a forma perfeita e a subtileza emocional com que o faz. Revela também um trabalho de pesquisa intenso, eventualmente consultando jornais de época, arquivos e depoimentos locais, de modo a recriar com credibilidade o contexto histórico de Alcântara nos anos 1960. Daí, eu assumir que através deste livro fiquei a conhecer muito que não sabia, e não só o escritor e o homem que está por trás dele. E fico feliz ao reconhecer que a semente que os mais velhos lançaram à terra ainda germina e dá frutos em gente tão nova.
Aconselho vivamente a leitura deste livro. Aos mais velhos dirá muito, relembrando a amargura desses tempos, mas também a luta tenaz e contínua, arriscando a própria vida na conquista da Liberdade. Aos mais novos, vivendo uma época bem diferente, poderá alertá-los para o valor dessa mesma Liberdade e para a necessidade de uma luta contínua a fim de que a memória não esteja assente em pés de barro e o nome 25 de Abril continue gravado na ponte que os trabalhadores construíram.
Oxalá que o final apoteótico e um tanto ficcionado seja um aviso aos vindouros para que não caiam nos erros do passado e construam um futuro com os pés bem assentes na terra, de modo a que os ideais que os empolgam não venham a ser sepultados nos escombros da utopia.
“Haja Esperança” como diz o autor ao terminar o livro.