Impressões sobre a China – Parte 1 por António Gomes Marques

Impressões sobre a China – Parte 1

por António Gomes Marques

I

«Foste à China? E gostaste?», é o que de imediato ouço quando as pessoas se apercebem de que estive, de facto, na China. Mas logo um outro comentário se segue, não em todas essas pessoas, à espera da minha confirmação: «Ainda há muita fome na China, particularmente nas zonas rurais?»

Esta última questão nunca se põe quando se fala dos EUA, onde os pobres — 30 milhões? 40 milhões? — não têm rendimento para as três clássicas refeições diárias.

Há hoje muitos livros sobre a China, muitos mesmo traduzidos para português, que nos podem dar uma ideia do que é, hoje, esse país. Devemos, no entanto, ter algum cuidado com a leitura de alguns deles. Por exemplo, há o livro de Federico Rampini, O Século Chinês (Editorial Presença), cuja leitura recomendo, que me parece um livro honesto, mas já desactualizado, pois não abarca o tempo de Xi Jinping, tempo este que tem sido de um progresso constante em todas as áreas científicas e tecnológicas, culturais, educacionais (aqui farei alguns reparos mais à frente), de desenvolvimento industrial em todas as áreas que se possam considerar como fazendo parte deste sector, sem esquecer a modernização das forças armadas e a construção, na China, de grande parte do seu armamento, onde a tecnologia tem um papel determinante. Sendo a China já a primeira potência industrial do mundo, caminha a passos largos para se tornar uma das maiores potências, ou mesmo a maior, a nível tecnológico graças ao grande desenvolvimento científico, intensificado nos últimos 20 anos. A liderança de Xi Jinping não despreza qualquer hipótese de inovação em todos os campos de modo a cumprir o seu objectivo para 2049, o qual foi verbalizado pelo presidente chinês, a que chama o rejuvenescimento da nação chinesa, uma grande nação socialista moderna que seja próspera, forte, culturalmente avançada, harmoniosa e democrática quando se completarem 100 anos da fundação da República Popular da China.

Quando se fala numa desejável China democrática, presumo que Xi Jinping não está a referir-se ao conceito de democracia que impera no Ocidente, será portanto um conceito de democracia muito chinês.

Para que tal objectivo seja conseguido, ou seja, tornar a China a potência dominante no cenário internacional, torna-se necessário que a China tenha a liderança económica e tecnológica, baseada na inovação, na auto-suficiência tecnológica, o que obrigará a substituir completamente o crescimento baseado em mão-de-obra barata, o que vem sendo feito a grande velocidade, sendo um exemplo as transformações no sector da agricultura, de que falarei um pouco mais à frente; confirmar o seu protagonismo internacional, de modo a participar de forma assertiva na política internacional e na segurança, com o que pretende alterar a ordem mundial actual, objectivo este há muito em avanço (BRICS, Rota da Seda, por exemplo); construir umas forças armadas modernas com capacidade para defender os interesses da China a nível mundial, modernidade essa demonstrada no recente desfile em Pequim e que muito terá inquietado as potências ocidentais e seus aliados, tendo na Tribuna de Honra o seu agora sempre presente convidado especial, Vladimir Putin; garantir um desenvolvimento social e económico, onde a ecologia terá um lugar central (voltarei ao tema), com o que Xi Jinping pensa conseguir reduzir substancialmente a desigualdade interna.

Viajando na China, sente-se que se trabalha para este objectivo. Vai a China conseguir cumpri-lo?

Vou procurar voltar à China de hoje, começando pelo que nos diz Federico Rampini, no livro acima referido, onde nos fala da grande diferença entre a cidade e o campo. Nestes últimos anos a situação dos camponeses terá sido atenuada; a mecanização do sector primário, disseram-me, teve e continua a ter como consequência a migração de milhões de camponeses para as cidades, que não consigo quantificar com rigor, com aldeias, chegando às 300 por dia, que ficavam sem habitantes, camponeses esses que agora encontram emprego nas cidades como criados(as) da burguesia chinesa e também em outros trabalhos com remunerações baixas que não requerem habilitações escolares específicas. A falta de emprego gerou descontentamento e a emigração de milhões de pessoas para as ricas metrópoles costeiras, para a chamada China das ayi, ou seja, das empregadas da limpeza, as camponesas que vendem os seus serviços por salários muitíssimo baixos.

Mas a transformação começou lá atrás, no período de Deng Xiaoping, acentuando-se com Xi Jinping e acelerando após a epidemia do Covid. A historiadora Linda Jaivin, sinóloga, escreve em A Mais Breve História da China (Publicações D. Quixote):

“O Estado desmantelou as Comunas Populares e introduziu o «sistema de responsabilidade», através do qual os agricultores individuais ou grupos de agricultores eram contratados para fornecer os produtos. Ao aumentar os preços que lhes pagava, baixando simultaneamente o preço dos fertilizantes e de outros produtos necessários aos agricultores, o Estado contribuiu para que as zonas rurais saíssem da pobreza, mantendo os custos dos alimentos nas cidades estáveis. Deng deslocou a indústria do interior para as regiões costeiras, que tinham mão de obra abundante e acesso aos portos, e iniciou a transição para a produção de bens de consumo.” (pág. 226).

Thierry Sanjuan, escreve: “Embora o governo chinês tenha tentado inicialmente regular a torrente e só aos camponeses que eram capazes de prover à sua subsistência tenha permitido dirigirem-se para as cidades, de facto, grandes vagas de imigrantes tentaram rapidamente invadir os interstícios urbanos abertos pelas reformas, sem possuírem registo e, por vezes, organizadas em redes administrativas ou de clã.

Perante estas ameaças aos equilíbrios sociais em recomposição e à estabilidade política, o governo chinês, desde o início das reformas, incitou os camponeses a «deixar a terra sem abandonar as zonas rurais» (litu bu lixiang), tendo assim legitimado o surto de industrialização das zonas rurais do litoral.

Muitos camponeses reconverteram-se para actividades industriais mais terciárias: as zonas rurais chinesas tinham 23% dos activos não agrícolas em 2002.

Esta política não impediu a emigração, mas limitou-a num primeiro momento. Desenvolveu-se deste modo a mobilidade no seio do mundo rural à escala local – da aldeia para a vila, da vila para a pequena cidade, da pequena cidade para a cidade – e à escala nacional – das regiões pobres das periferias litorais ou das províncias interiores para os centros da industrialização rural.

Foi apenas nos anos 90 que os fluxos de emigrantes parecem ter claramente aumentado e ultrapassado as capacidades de absorção das empresas industriais rurais, tendo passado a orientar-se principalmente para as cidades.

À diferença que vai aumentando entre as cidades e as zonas rurais acresce sobretudo o divórcio que ocorreu nas próprias zonas rurais chinesas. Deu-se uma fragmentação do mundo rural, provocada por dinamismos internos muito diversos e por uma integração com as cidades e a economia de mercado muito desigual.” (2)

Mas a grande transformação dá-se a partir de 2024 com a mecanização agrícola na China, a chamada modernização da agricultura familiar, coordenando a utilização da Inteligência Artificial, de drones e fabricando maquinaria adequada às pequenas propriedades, aumentando a produtividade e atraindo, com incentivos, jovens para o campo, com capacidade para utilizarem serviços digitais que contribuíram para a revitalização rural. A taxa de mecanização atingiu 73% em pequenas áreas (v. fotografias abaixo).

A implementação de tecnologias como agricultura de precisão, biotecnologia e sistemas de inteligência artificial tem sido crucial para aumentar a produtividade e eficiência chinesa”, são palavras de Luiz Gustavo Denardin, brasileiro, engenheiro agrónomo e doutor em ciência do solo.

“Além disso, o país tem explorado novas técnicas de cultivo, como a agricultura vertical e estufas inteligentes, para maximizar o uso de terras disponíveis e melhorar a segurança alimentar.

Outro aspecto importante é o foco em políticas agrícolas que incentivam a inovação e modernização do sector.

O governo chinês tem promovido reformas estruturais, como a flexibilização das regras de arrendamento de terras e o apoio a pequenas e médias propriedades rurais para adotarem tecnologias modernas.

Ou seja, o sector agrícola chinês é caracterizado por um equilíbrio delicado entre tradição e inovação.com um foco crescente em tecnologias que possam garantir a segurança alimentar e sustentabilidade a longo prazo.” (in: https://digital.agrishow.com.br/artigos/agricultura-pelo-mundo-conheca-agricultura-da-china/).

(Fotografias retiradas de You Tube Brasil de Fato)

Contrariamente ao que era habitual, em vez da criação de latifúndios, a China apoiou as pequenas propriedades, desenvolvendo máquinas e adoptando tecnologias — IA e drones — específicas para a dimensão destas unidades agrícolas, muito por causa da baixa terra arável per capita. Em cima, fotografias de alguma dessa maquinaria. (1)

Há leis que permitem aos pequenos agricultores obter subsídios e incentivos, além de aluguer dos vários tipos de máquinas.

Desenvolveram-se cooperativas que permitem a integração do plantio e, muito importante, o processamento e vendas dos produtos via e-commerce, obtendo rendas altas.

A produtividade teve um substancial aumento com o benefício trazido pela mecanização, a começar pela plantação, que agora gasta poucas horas no que dantes gastava vários dias.

Por detrás de tudo isto está, naturalmente, uma estratégia nacional definida pelo governo, sendo o mesmo dizer-se definida pelos competentes órgãos do Partido Comunista da China.

Ora, quando se fala da pobreza dos campos e dos camponeses na China é apenas por ignorância do que realmente está a acontecer no momento, com o desenvolvimento agrícola a atrair já jovens técnicos que no campo poderão usufruir de boas condições de trabalho e ter uma situação económica estável.

As pessoas que falam de fome na China estão prenhes da propaganda ocidental, espalhada aos quatro ventos pela imprensa escrita e falada, com realce para os canais televisivos. Ouvem e acreditam, mas não buscam o contraditório, não pensam. Como diz o poeta:

                                                            Pensar incomoda como andar à chuva

                                                            Quando o vento cresce e parece que chove mais.

                                                                                      (Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

Em comboio de alta velocidade, percorri quase 3.000 km e atravessei, naturalmente, campos agrícolas. O que vi da janela do comboio eram extensões bem grandes cultivadas, que me pareceram confirmar o que atrás escrevi; no entanto, não me foi possível visitar qualquer daquelas propriedades agrícolas, o que muito gostaria de ter feito e, assim, confirmar com os meus próprios olhos que a realidade agrícola na China é, hoje, como acima descrevo.

Pessoas com fome na China, não vi; pedintes na rua, não vi; pessoas sem abrigo, também não vi. Pelo tempo que estive na China, quase duas semanas, não me sinto autorizado a dar por garantido que nada disto existe na China, até por que a China é, hoje, um país capitalista em grande desenvolvimento, governado por um partido comunista que tem entre os seus dirigentes alguns dos homens mais ricos da China e do mundo, e, como país capitalista, é gerador de desigualdades, o que é inerente a todo e qualquer capitalismo, e, posso neste caso afirmar com base no que os meus olhos viram, essas desigualdades só não são apercebidas por quem não quiser ver. Haverá na China uma melhor distribuição da riqueza produzida do que nos países capitalistas da chamada Civilização Ocidental. Nas muitas consultas que efectuei na internet, encontrei uma unanimidade em todos os observadores da China, informando não haver fome entre os chineses e não haver a pobreza infame que encontramos em outros países capitalistas. Vi vídeos, realizados por ocidentais, a mostrarem zonas mais interiores com bairros pobres, mas também li que estão a ser construídos bairros com as condições mínimas para permitirem uma vida mais saudável a esses chineses não bafejados pela riqueza, onde desenvolvem actividades, algumas artesanais, que lhes permitem um nível de vida bem superior ao que tinham.

Desde 1990 até 2025, a China retirou da pobreza mais de 800 milhões de pessoas, o que significou reduzir a pobreza no mundo em cerca de 70%, dados estes que qualquer pessoa pode encontrar na internet, o que não impede o governo central de pressionar os governos locais a garantir subsídios e assistência a órfãos, a necessitados devido a dificuldades económicas e a desempregados.

A China tem um sério problema, cuja solução está a procurar antecipar, que tem a ver com o envelhecimento da população, dado que 23% da população tem 60 ou mais anos, estimando-se que até 2035 existam na China 400 milhões de idosos, o que levou o governo chinês a incentivar de novo a natalidade para suprir a diminuição da força de trabalho, com consequências, nomeadamente, no sistema de segurança social. Xi Jinping definiu como estratégia um «desenvolvimento de alta qualidade», o que significa uma aposta na tecnologia e na descarbonização, sem o que, a longo prazo, não haverá sustentabilidade. Com Xi Jinping há a preocupação de prevenir definindo metas a longo prazo, mas com a preocupação constante de diminuir o prazo dessas metas. Outra preocupação tem a ver com os recém-formados, cujas expectativas não devem ser goradas, e com as zonas rurais, nas quais não é admissível a diminuição dos rendimentos já alcançados.

II

Quando se escolhe um país para visitar, o património arquitectónico desse país é um dos grandes atractivos e, muitas vezes, influencia sobremaneira essa escolha. Como exemplos, podemos lembrar a Itália, a Grécia, o México, o Egipto, a Rússia e muitos outros. No caso da China não pode ser esse o definidor de uma visita a este país, sendo o seu actual estatuto de uma das três maiores potências — EUA, Rússia, China — o que cria, pelo menos a mim, a curiosidade de ir ver como é a realidade ou, pelo menos, para ficar com uma impressão dessa realidade.

Claro, a Grande Muralha da China e a Cidade Proibida, antiga Cidade Imperial, onde residia o Imperador, assim como os guerreiros de terracota em Xian, parte mínima do mausoléu do Imperador De Qin Shihuang, são património arquitectónico que todo o visitante gosta de conhecer. Há ainda, na minha opinião, uma outra visita indispensável: o Palácio de Verão.

Na minha visita à Grande Muralha da China

A Grande Muralha nasceu para proteger a China dos grupos nómadas da Estepe Euroasiática, estendendo-se por 21.196,18 km, sendo hoje Património Mundial e uma das sete maravilhas do mundo. A sua construção foi iniciada no séc. VII a.n.e. e unida pela dinastia Qin (221-206 a.n.e.), a primeira dinastia imperial da China, após a conquista dos reinos combatentes pelo Imperador Qin Shi Huang, unificando-os. Dinastias seguintes não deixaram de expandir a Grande Muralha, com realce para a dinastia Ming (1368-1644).

Reconhece-se a utilidade da Grande Muralha no controlo, em primeiro lugar, da imigração e da emigração e na cobrança de taxas sobre as mercadorias transportadas pela Rota da Seda.

Confesso ter sentido uma forte emoção ao pisar aquelas muralhas. Mas, olhando para a história, nunca se confirmou a sua necessidade para a defesa do Império; se pensarmos que a sua construção visou essa necessidade, então podemos concluir que tal construção foi inútil.

A Cidade Proibida está situada no centro de Pequim, a Norte da Praça Tian’anmen. Como a conhecemos hoje, a sua construção começou nos primeiros anos do séc. XV (1406-1420), daí resultando um complexo com 70 palácios e 9.000 salas, sendo assim um conjunto de palácios de madeira muitíssimo bem preservado, preservação esta, tendo em conta a estrutura de madeira, que requererá cuidados diários. Mas ali já existia uma estrutura que era a residência dos imperadores, que vinha desde 1368, pois foi ali a residência de 24 imperadores — da dinastia Ming à dinastia Qing — entre 1368 e 1912.

Na Cidade Proibida

Ao fundo, o Palácio da Harmonia Suprema, o maior e mais importante palácio do complexo

Para além dos palácios, há ainda um bonito jardim e pequenos pavilhões onde habitavam as concubinas.

Residência da Concubina Imperial

(fotografia copiada do vídeo da viagem)

Porta de entrada das concubinas para os aposentos do imperador

(fotografia copiada do vídeo da viagem)

Contou o guia que as concubinas, que eram diferentes todos os dias, eram transportadas ao ombro por um eunuco, entrando por esta porta para os aposentos do imperador. Quando a concubina saía, cumprida a sua missão, o eunuco de guarda à porta do quarto do imperador obrigava-a a tomar a pílula anticoncepcional (terá sido uma invenção chinesa?) ou, se havia ordens em contrário, o eunuco anotava qual a concubina que havia estado nos aposentos imperiais e o dia, de modo a saber-se, caso a concubina engravidasse, o dia em que a criança tinha sido concebida e que, seguramente, o imperador era o pai, grau de certeza muito elevado dado que os guardas eram todos eunucos.

Uma das regras seguidas na construção dos palácios era que a casa fosse quente no Inverno e fresca no Verão, o que obrigava a que as entradas principais fossem voltadas para Sul.

O jardim era indispensável, obedecendo ao pensamento chinês de que a presença humana e a paisagem natural assim se complementavam, atingindo a unidade do céu e da humanidade.

Os Guerreiros de Terracota foram encontrados por mero acaso por agricultores que, ao escavarem um poço, encontraram fragmentos de cerâmica, em 29 de Março de 1974.

Presume-se que existam mais de 8.000 soldados, 130 carruagens e mais de 500 cavalos, um exército criado para proteger o primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, após a sua morte, fazendo portanto parte da Tumba do Imperador, tendo esta já sido localizada mas ainda não aberta a visitas, tendo-me sido informado de que a área total do mausoléu tem mais de 50 quilómetros quadrados. A ser assim, haverá muito para descobrir. Em 1987 a UNESCO declarou o local como Património Cultural da Humanidade.

As expressões faciais dos guerreiros de terracota são todas diferentes, como se fossem cópias de seres reais, também diferindo os seus penteados e os respectivos uniformes.

Os guerreiros alinhados e um general

(fotografias AGM)

Visitei o local onde estão os guerreiros, existindo ali também um centro de recuperação, onde se exige um trabalho minucioso para juntar pedaços de guerreiros, de cavalos, de carruagens e do armamento da época com que eram equipados os soldados.

O Palácio de Verão, o Jardim da Harmonia Cultivada (Yihe Yuan), em Pequim, ocupa uma área de 2,9 km², incluindo nesta área um lago artificial de 2,2 km², o Lago Kunming, tendo a dominá-lo a pequena Colina da Longevidade, construída com as terras resultantes da escavação para construir o lago, aproveitando um corpo de água ali existente, avistando-se lá no cimo um Pagode Vidrado Duobao.

Poder ver-se ali um conjunto de palácios, jardins e outras estruturas, onde se reproduziram alguns estilos de arquitectura dos jardins de palácios chineses. O seu nome actual, acima referido, foi-lhe dado em 1888, após ser escolhido como residência de Verão da Imperatriz Cixi.

Uma das maravilhas deste Palácio de Verão é o Corredor Longo, uma maravilhosa galeria com pinturas de motivos chineses desde o início até ao fim do corredor no sentido Este-Oeste, construído em meados do séc. XVIII, tendo um comprimento de 728 metros. Acredite o leitor que é uma verdadeira maravilha!

Pormenor do Longo Corredor (fotografia de AGM)

Em Dezembro de 1998, o Palácio de Verão foi considerado pela UNESCO Património da Humanidade.

Barco de Mármore (fotografia de AGM)

Conta-se que a Imperatriz Cixi agoniava ao andar de barco, não podendo assim desfrutar como gostaria do Lago. Então, mandou construir um Barco de Mármore, sentando-se virada para o Lago no piso 2, assim criando a ilusão de que «navegava» no Lago. (3)

Há transportes públicos a partir de Pequim, sendo os acessos fáceis, quer a partir da 3.ª Estrada Circular, pela Ponte Suzhou, quer pela Ponte Bridge, a partir da 4.ª Estrada Circular ou, ainda, pela 5.ª Estrada Circular.

Em Xian, tive oportunidade de assistir a um espectáculo misto de ópera e acrobacia, em que os actores mostraram um grande domínio da técnica teatral e da técnica circense, cheio de luz, cor e movimento. Trata-se de um drama de música e dança baseado no Livro Celestial que a Princesa Taiping escreveu sobre a história de vida da sua mãe e das grandes conquistas para obter o mandato do céu para ser o novo monarca.

Cena do espectáculo (Fotografia de AGM)

Não posso deixar de referir uma visita à Grande Mesquita de Xian, fundada em 742, no período da dinastia Tang, localizada no bairro muçulmano.

Dois pormenores da Grande Mesquita (Fotografias de AGM)

Tem uma arquitectura única, com um desenho tipicamente chinês, com pagodes e telhados vidrados com elementos islâmicos, arcos memoriais, destacando-se o Pagode do Minarete, tendo uma estrutura composta por quatro pátios, o Pavilhão Fénix e uma sala de orações, acessível apenas a muçulmanos, com capacidade para mil pessoas. É também diferente de todas as outras mesquitas que conheço, e são bastantes, pelas inscrições em árabe e em chinês, havendo também entre as esculturas dragões, contribuindo para a união das culturas chinesa e muçulmana.

Em Guilin, recordo o cruzeiro no rio Li (Transparente), entre a cidade e a vila ribeirinha de Yangshuo, em que, durante cerca de 5 horas, fomos serpenteando entre formações rochosas, autênticos pilares de calcário, que nos permitem usufruir de um cenário verdadeiramente surreal e observar as jangadas de bambu, umas de pescadores e outras de transporte de turistas, assim como não posso deixar de referir o passeio nocturno num dos lagos da cidade e a visita à Gruta da Flauta de Cana.

No rio Li e, à direita, passeio num dos lagos de Guilin (fotografias de AGM)

Na Gruta da Flauta de Cana

(Fotografia de AGM)

III

A atenção que a China hoje desperta nada tem a ver com o seu património histórico, mas será avisado pensar que a China foi sempre, ao longo da sua longa história, uma das maiores potências e construtora de grande progresso, com excepção de um período de decadência, sofrendo a China, neste período de decadência, várias humilhações das potências ocidentais colonialistas que os chineses não esquecem.

A última dinastia imperial, a dinastia Qing (pronuncia-se Tching), governou entre 1636 e 1912, com Sun Yat-sen, em 1 de Janeiro de 1912, a tomar posse como presidente provisório da República da China.

A dinastia Qing atingiu o seu auge no reinado do Imperador Quianlong, governando entre 1735 e 1796. Após a sua morte, as muitas revoltas internas foram aproveitadas sobretudo pelas potências ocidentais, levando às Guerras do Ópio — 1839-1842 a primeira, 1856-1860 a segunda —, que a China perdeu, sendo de seguida obrigada a assinar com as potências coloniais ocidentais tratados altamente prejudiciais para a China, ficando essas potências com os privilégios comerciais, com os principais portos sob o seu controlo e beneficiando de extraterritorialidade, sendo este, na definição do direito internacional, um estado isento da jurisdição da lei local, mas esse direito deve ser o resultado de negociações diplomáticas, o que não foi o caso, dado que as potências ocidentais colonialistas impuseram-no à China pela força.

A Primeira Guerra do Ópio terminou com o Tratado de Nanquim, em 1842, hoje também designado como o primeiro “Tratado Desigual”, com a Grã-Bretanha a impor à China a cessão de Hong-Kong e a abertura de cinco portos, sendo os principais o de Shanghai e o de Cantão, e ainda o pagamento de uma grande indemnização e a abolição de restrições ao sistema de comércio. Foi o início da dominação estrangeira, uma verdadeira humilhação para o antigo todo poderoso Império Chinês. Hong-Kong já estava ocupada pela Grã-Bretanha desde 1841, situação regularizada pelo tratado acabado de referir.

Em 1860, a dominação britânica estendeu-se a Kowloon e, em 1898, a Grã-Bretanha alugou os chamados Novos Territórios — áreas rurais e ilhas, também conhecidas como Nova Kowloon por estarem na periferia de Kowloon — por um período de 99 anos (hoje, pode observar-se o grande desenvolvimento suburbano moderno a que Nova Kowloon foi submetida). Em 1 de Julho de 1997 a Grã-Bretanha foi obrigada a devolver à China não apenas os Novos Territórios, mas também Hong-Kong e Kowloon, tendo a China adoptado para estes territórios o princípio um país, dois sistemas, cumprindo-se assim a Declaração Conjunta de 19 de Dezembro de 1984, assinada pela China e pela Grã-Bretanha, havendo o compromisso de que o sistema legal existente em Hong-Kong seria respeitado durante 50 anos, ou seja, até 2047, ficando a política exterior e a segurança do território a cargo da China.

As influências britânicas ainda se sentem, mas a sensação com que fiquei é que, com o tempo, vão desaparecendo. O dinheiro que permite o desenvolvimento é proporcionado pela China e a integração total acabará por acontecer.

O que mais me despertou a atenção em Hong-Kong não foram os seus arranha-céus, mas sim o não haver ali árvores, pois todo o espaço é pouco para os edifícios e, para construir o novo aeroporto, excelente, tiveram de roubar o espaço necessário ao mar (para aterrar no antigo aeroporto, os aviões faziam-se à pista por entre os edifícios).

Hong-Kong é hoje um dos centros industriais, financeiros, comerciais e turísticos do mundo, fundamental para o comércio e os investimentos da China.

O caso de Macau é diferente. Os navegadores portugueses chegaram a Macau em 1553 e ali se instalaram; quatro anos depois, foi permitido pela dinastia Ming o estabelecimento de uma povoação, cobrando por isso uma renda anual, tornando Macau num porto de comércio muito próspero de prata, de seda, de porcelana, produtos muito procurados especialmente na Europa, com quem Macau intensificou trocas comerciais, mas também com o Japão.

Aproveitando-se da decadência chinesa, em especial com as derrotas da China nas chamadas Guerras do Ópio, Portugal deixou de pagar o aluguer e declarou Macau como uma sua Província, o que levou a conflitos com a China, conflitos esses terminados com um Tratado em 1887. Em 20 de Dezembro de 1999, após negociações amigáveis com a China, Macau foi devolvida à China, passando a ser considerada, dentro da China, como Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), mantendo um sistema autónomo até 2049, como ficou consignado no acordo entre Portugal e a China, sistema esse, tal como em Hong-Kong, sob o princípio “um país, dois sistemas”.

A legislação ainda em vigor, com ligeiras adaptações, decididas na Assembleia Legislativa, é a portuguesa e assim se manterá até 2049, como ficou acordado entre os dois países e os chineses têm a boa tradição de cumprirem o que acordam.

Tendo em atenção o que Macau significa para nós, portugueses, vou dar mais alguns pormenores.

Foi promulgada a Lei Básica de Macau que estabeleceu a estrutura política da RAEM, sendo o dirigente máximo o Chefe do Executivo, que representa a Região, mas sendo responsável perante o Governo Popular Central da China e a RAEM, coadjuvado pelo Conselho Executivo na tomada de decisões.

A Assembleia Legislativa é, como o nome indica, o órgão legislativo.

O Governo é o órgão executivo, com a habitual estrutura de qualquer governo, sendo o seu dirigente máximo, naturalmente, o Chefe do Executivo.

Há ainda um Comissariado contra a Corrupção e um Comissariado da Auditoria, assim como os órgãos Judiciários — Tribunais (de Primeira Instância, de Segunda Instância e, ainda, um Tribunal de Última Instância — e o Ministério Público. Todos estes órgãos são independentes, embora os Comissariados respondam perante o Chefe do Executivo.

Hotel Grand Lisboa, à esquerda, e Hotel Lisboa, ambos de 5 estrelas

(fotografias AGM)

Em 1847, o governo colonial autorizou os jogos de azar para, assim, compensar a perda de receitas que estava a fazer-se sentir. Nos últimos anos sob administração portuguesa, Stanley Ho tinha o monopólio do jogo em Macau, sendo sempre muito referido o seu Casino no Hotel Lisboa, mas, desde 2007, há um novo casino, mas o hotel, ao lado do antigo (foi neste que fiquei), foi inaugurado em 17 de Dezembro de 2008, o Grand Lisboa, propriedade da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, dirigida pela filha de Stanley Ho, estando entre os edifícios mais altos do mundo (118º quando inaugurado) e o mais alto de Macau. O monopólio terminou e, hoje, há vários concessionários, existindo em Macau 40 casinos (11 fecharam recentemente). As receitas dos casinos atingiram, em 2025, 247,4 mil milhões de patacas (26,3 mil milhões de euros), um aumento de 9,1% em comparação com o ano anterior, representando a indústria do jogo cerca de 50% do Produto Interno Bruto de Macau (Lusa). Os casinos pagam uma taxa de 25% à RAEM, o que permite, segundo palavras da guia, que os 720 mil macaenses tenham uma boa vida, sem impostos e, nomeadamente, com um excelente Serviço Nacional de Saúde que nenhum outro chinês tem. Macau é o único território onde os casinos são autorizados.

O Centro Histórico de Macau está classificado como Património Mundial da Humanidade, mantendo a sua herança multicultural, como testemunham as ruínas de S. Paulo, ruínas da Igreja da Madre de Deus e do contíguo Colégio de S. Paulo, que um incêndio destruiu em 1835, de que apenas restam a fachada de granito e a escadaria com 68 degraus, assim como o Jardim Camões, onde se assinala a gruta de Camões, com o busto do poeta à entrada.

Macau é um dos territórios mais povoados do mundo, cerca de 20 mil pessoas/km², dado ter uma área à volta de 33 km², sendo que 90% dos seus habitantes são chineses, havendo ainda uma minoria de portugueses, mas nem todos dominam bem a língua portuguesa, e outras nacionalidades minoritárias.

IV

Hoje, a China disputa com os EUA o lugar de Primeira Potência Mundial, não devendo nós esquecer o facto de que o Ocidente, a começar pelos EUA, está em decadência acentuada, enquanto a Leste vemos o contrário, sem esquecer a Rússia e a Índia, para além da China.

Também não podemos fingir que não vemos o que representa para o Ocidente, especialmente para os EUA, a constituição dos BRICS, tornando possível o que mais fere a potência norte-americana, ou seja, mais de 40% das transacções internacionais já não têm o dólar como moeda, que era o grande garante do equilíbrio dos orçamentos dos EUA, cuja dívida, dizem os especialistas, o país não tem a mínima hipótese de pagar, tal é o seu montante. Até um dos mais fortes aliados dos EUA, a Arábia Saudita, já não utiliza o dólar em todas as suas transacções comerciais.

Lotfi El Othmani, num recente artigo, Trump II, ano I: por detrás da estratégia funâmbula, as contradições do império (tradução de Júlio Marques Mota), escreve a dado passo:

“Enquanto o presidente do Federal Reserve Bank (Fed, o banco central dos Estados Unidos) afirma querer preservar um dólar forte, Donald Trump incentiva uma política de redução das taxas de juro para estimular a economia e proteger as empresas americanas. Prolongar a hegemonia do dólar ao mesmo tempo que se protege o tecido produtivo americano: aqui também, apenas medidas coercivas são capazes de conciliar estes dois objectivos à partida contraditórios.

Sem resultados convincentes. Apesar de uma política tarifária agressiva (supostamente destinada a favorecer uma relocalização do capital) e de uma política de taxas baixas que desvalorizou o dólar em 15% (supostamente destinada a favorecer a indústria americana), as repercussões no território nacional continuam a ser mínimas. Para evitar que esta queda do dólar ameace a sua hegemonia, Donald Trump recorreu a uma diplomacia agressiva (na Arábia Saudita, por exemplo), pressionando os países a continuarem a transaccionar em moeda americana. Estas demonstrações de força não foram suficientes para manter a confiança no dólar: a quota desta moeda nas reservas cambiais mundiais caiu para 57% no final de 2025, face a 70% alguns anos antes.

Embora a administração Trump tenha accionado várias alavancas da política económica, a direcção global permanece volátil. Entre a vontade de romper com uma posição hegemónica que se tornou um fardo e a tentação de manter os atributos clássicos do poder monetário, Washington multiplica as orientações contraditórias. A agitação política dificilmente se transforma em êxitos económicos tangíveis.” (fim de transcrição)

Os resultados começam a ver-se; dentro de pouco tempo, a China será a primeira potência mundial, para o que a governação de Donald Trump, penso eu, estará a dar um grande contributo, com a China — e não apenas este país — a desfazer-se dos títulos do Tesouro americano. E não esqueçamos o desvio dos depósitos que eram feitos nos bancos americanos para outros países considerados mais seguros, após o congelamento dos capitais russos, uma das milhares de sanções impostas pela generalidade dos países ocidentais, com graves consequências para os EUA.

Não há hoje qualquer sector de actividade, sem esquecer a ciência e as novas tecnologias, em que a China não dispute a sua hegemonia em relação aos EUA e a vantagem da China, em alguns deles, segundo os entendidos, é já uma evidência. Quer o leitor alguns exemplos? Pense na produção industrial, pense na política externa e na influência que esta dá a cada um dos dois países. E fico apenas por estes dois exemplos.

Na impossibilidade de tratar de forma aprofundada a evolução sectorial da economia chinesa que fez da China a já segunda maior potência mundial, não deixarei de abordar alguns aspectos que me preocupam.

O milagre económico que colocou a China no actual patamar de desenvolvimento, com data já aceite para se tornar na primeira potência mundial, que o governo chinês quer fixar na data do centenário da Proclamação da República Popular da China, 2049, mas há quem preveja que tal meta poderá ser atingida uns anos antes, trouxe muitos problemas, sendo o mais grave o da poluição.

A poluição atingiu valores de uma gravidade extrema, como atesta uma colisão em cadeia, em Agosto de 2004, no porto de Hong-Kong que mandou para o estaleiro de reparações quatro navios devido à falta de visibilidade provocada pela poluição. Hoje tal situação já não ocorre, como pude verificar na minha passagem por algumas das cidades que atingiram picos de poluição, cidades como Pequim, Hong-Kong e Shanghai, mas para isso foi necessário o investimento de muitos milhões pelo governo chinês. Continuam a ser cidades com poluição, como Lisboa também o é, bastando as filas intermináveis de automóveis nas avenidas daquelas grandes cidades para que a poluição não seja totalmente eliminada. Mas não há comparação com a situação anterior.

O desenvolvimento acelerado necessitou de muita energia, que a China não tinha, intensificando as minas de carvão, produto que a China terá como nenhum outro país, mas é também o mais poluidor, mais do que o petróleo, para que se construíssem as necessárias centrais eléctricas. A China é também um dos maiores consumidores de petróleo, o que não contribui para diminuir a poluição, mas a necessidade de mais centrais eléctricas impõe-se, o que leva a China à construção de centrais nucleares, que dizem os seus defensores ser a energia nuclear a mais limpa, mas os perigos, em caso de acidentes, mais frequentes do que as notícias nos referem, são terríveis, começando logo na extracção do urânio, a qual tem provocado que uma enorme percentagem dos trabalhadores que se dedicam a esta actividade acabem por contrair doenças cancerígenas, com a maioria a morrer. As consequências para os trabalhadores das minas de carvão são idênticas, com a agravante de muitas dessas minas não terem as indispensáveis condições de segurança, como se pode verificar com os desastres frequentes que matam muitos mineiros.

Federico Rampini, no livro já aqui citado, informa-nos de que “Em Julho de 2004, num único mês, as importações chinesas de crude registaram uma explosão de 40 por cento.” (…)

“A calendarização estabelecida pelas autoridades chinesas é incrível. Tanto neste ano, como no próximo, a China construirá nove centrais nucleares equivalentes à produção total da Grã-Bretanha. Em termos de electricidade, por conseguinte, em 2005 e 2006, a China «anexará» duas vezes a Inglaterra. É este o género de notícias que alimenta as apostas dos hedge funds dos futuros do petróleo. Em 2004, o aumento dos consumos petrolíferos chineses — entre o gasóleo queimado nas centrais termoeléctricas e a gasolina consumida pelos Audis e Buicks que fazem filas quilométricas nas circunvalações de Pequim — acrescentara 800 000 barris de petróleo diários relativamente à procura mundial de 2003. De quanto petróleo precisará ainda a China em 2005, em 2006 e nos anos seguintes, se o seu crescimento «gera» uma nova Inglaterra todos os anos?”

“A construção das novas centrais eléctricas chinesas é indispensável para manter este ritmo, caso contrário, os blackouts intensificar-se-ão até fazer descarrilar o crescimento. E ninguém poderá suportar os custos duma derrocada financeira chinesa — seguramente não os Estados Unidos, a quem Pequim financia generosamente o deficit através da aquisição de títulos do Tesouro. Até ao momento, a sede energética chinesa não pesou apenas nos poços de petróleo sauditas: a China perseguiu uma forma de auto-suficiência baseando-se na única matéria-prima de que possui reservas nacionais quase ilimitadas, o carvão.”

Diz-nos o mesmo autor que têm sido detectadas poeiras tóxicas vindas da China, não só nos países mais próximos, mas também noutros, até na Califórnia, o que tem levado a protestos internacionais. Escreve ainda F. Rampini: “A China não se mostra insensível a estas pressões, muito pelo contrário. Constrói centrais hidroeléctricas com projectos faraónicos e controversos como a barragem das Três Gargantas no rio Yang-tsé. Acrescenta novas centrais nucleares. (…). 4)

As hidroeléctricas não são uma fonte de energia limpa, como já se pensou. Os impactos ambientais como a decomposição da vegetação que fica submersa dá origem a gases como o metano, o gás carbónico e o óxido nitroso dando origem a mais poluição, com as consequentes alterações climáticas.

Como referi no meu trabalho Em Viagem Pela Indochina, publicado neste blogue, a China não se limita a construir barragens nos seus rios, construindo e financiando outras em outros países, trazendo graves consequências para a vida das comunidades. O exemplo mais evidente é o que se passa no Rio Mekong, que se estende por 4.350 km, nascendo no Sudeste da China, estendendo-se por esta zona geográfica, atravessando também Myanmar, Tailândia, Laos, Camboja e Vietname, desaguando no Mar da China após constituir um dos deltas mais férteis do planeta, o Delta do Mekong — onde os norte-americanos sofreram e provocaram sofrimentos inqualificáveis na ainda muito lembrada Guerra do Vietname, onde os norte-americanos sofreram a mais vergonhosa derrota da sua história —, ao longo do rio, com a sua nascente  na China, o seu leito é interrompido por demasiadas barragens, com as inerentes consequências ambientais.

Num artigo publicado na revista National Geographic Portugal, de Abril de 2019, Grande Dilema no Sudeste Asiático: como aproveitar o rio Mekong, David Guttenfelder escreve: “Há barragens em construção ao longo de todo o Mekong. O Sudeste Asiático precisa de energia eléctrica, mas também de peixe e arroz que um rio não represado proporciona.” E, mais à frente: “China – Em 2012, (…), a construção da barragem de Miaowei já avançara. Quando ela estiver terminada, em 2016, será a oitava barragem erguida no rio Lancang, o nome dado pela China ao troço de 2.100 quilómetros do Mekong no seu território.”

No artigo pode ler-se informação retirada de Centro Worldfish; International Rivers; Comissão do Rio Mekong; Instituto de Botânica Kunming, Academia Chinesa das Ciências: “A sobrevivência de sessenta milhões de pessoas depende do peixe capturado no Mekong e do arroz cultivado no seu delta. No entanto, o rio está a mudar. A China construiu sete grandes barragens nas duas últimas décadas e há mais 21 em construção ou em projecto. A jusante, prevê-se a construção de onze novas barragens no curso do rio no Laos e no Camboja. Estes planos vão confrontar as necessidades de electricidade da região com a sua necessidade de alimento e o modo de vida dos pescadores e agricultores.”

O Rio Mekong tem mais de 500 espécies de peixe e, para além de ser o rio mais extenso do Sudeste Asiático, é também onde os cambojanos e laocianos capturam mais peixe de água doce do que todas as outras nações, fundamental na alimentação de milhões de pessoas. As barragens construídas e em construção, para além das projectadas vão ter um impacto terrivelmente negativo no ecossistema dos territórios que o rio atravessa.

É verdade que também os outros países atravessados pelo Mekong, além da China, necessitam de energia eléctrica para o seu desenvolvimento, mas é urgente que se encontre um equilíbrio que tenha em conta todas as necessidades do Sudeste Asiático atravessado pelo Mekong e não apenas a necessidade de produzir electricidade, de modo a garantir a sustentabilidade das comunidades que vivem à beira do rio, como também das economias locais que dependem do mesmo rio.

Pode ler-se ainda no longo artigo: “A construção de barragens no baixo Mekong é nominalmente supervisionada pela Comissão do Rio Mekong (CRM). Financiada por organizações internacionais do desenvolvimento e pelos seus quatro Estados-membros (Vietname, Camboja, Tailândia e Laos), a comissão guia-se não por um tratado juridicamente vinculativo mas por um interesse partilhado no rio e na paz regional.

A China não é membro da comissão e não está obrigada a consultar os seus vizinhos a jusante sobre as actividades que desenvolve no curso superior do Mekong.”

O poder da referida Comissão é muito limitado, nem sequer conseguindo evitar as muitas tensões que ao longo do rio se têm vivido. Ao que parece, o Camboja suspendeu a construção de barragens no seu território por um período determinado, mas a solução final vai ser ditada, naturalmente, pela toda poderosa China.

Hoje, na China, fala-se muito no combate à poluição. Constituirá isto uma janela de abertura? Se atentarmos no que nos diz o think tank Ember, a produção de energia eólica na China em 2024 correspondeu a 40% da geração eólica em todo o mundo, apesar de ter aumentado a produção de energia eléctrica a partir de combustíveis fósseis.

Em 2025, do esforço da China para a transição energética resultou que a produção de energia eólica e solar, em conjunto, produziram mais de 26% da electricidade do país em Abril, superando o produzido no mês anterior.

A China, no seu grande e rápido desenvolvimento, tem mostrado saber aprender com os outros; agora, há que ter a humildade de também aprender com a Índia, país este que escolheu um caminho bem mais barato, mais rápido e limpo, aproveitando a contribuição de três vectores energéticos agregados: eléctrones, combustíveis fósseis e biomassa, além de outra fonte bem barata que é o calor. Com base nestas fontes de energia, a Índia está a conseguir industrializar-se, sem abusar dos combustíveis fósseis como o Ocidente e a China, servindo-me aqui da informação da Ember. Claro que a Índia não deixa de utilizar também combustíveis fósseis, como a compra de grandes quantidades de petróleo à Rússia o confirmam.

(continua)

NOTAS

  1. Em You Tube Brasil de Fato pode ver-se, em vários vídeos, a variedade dessa maquinaria, assim como tomar conhecimento da parceria China/Brasil, com este último país a importar muitas dessas máquinas;
  2. in: Thierry Sanjuan, Cidades e as Zonas Rurais (As), entrada para Compreender a China Contemporânea – um dicionário, Edições 70, Lda., Lisboa, Abril de 2009, págs. 84-85;
  3. Para mais pormenores, ver, por exemplo, https://pt.wikipedia.org/wiki/Yiheyuan;
  4. in: Federico Rampini, O Século Chinês, Editorial Presença, 2.ª edição, Lisboa, Maio, 2006, págs. 266-268;

 

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