Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa — Texto 6. Trump II, ano I : por detrás da estratégia funâmbula, as contradições do império.   Por Lotfi El Othmani

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Texto 6. Trump II, ano I : por detrás da estratégia funâmbula, as contradições do império  

Por Lotfi El Othmani

Publicado por  em 2 de Março de 2026 (original aqui)

 

Donald Trump na companhia do vice-presidente J. D. Vance (à esquerda) e do secretário de Estado Marco Rubio (à direita),incarnando respectivamente a tendência isolacionista e intervencionista do seu campo

 

Pela segunda vez no seu mandato, Donald Trump terá bombardeado a República Islâmica do Irão — depois da Venezuela, do Iémen, da Nigéria, da Síria e da Somália. Se o candidato republicano fez campanha prometendo “acabar com as guerras sem fim”, o presidente Trump namorisca com uma retórica de “mudança de regime” para o Irão — que lembra furiosamente a estratégia de George W. Bush em relação ao Iraque. Ao mesmo tempo, permanece relutante a um envolvimento total das forças armadas americanas. Além do carácter imprevisível de Donald Trump, as suas hesitações quanto ao caso iraniano ilustram as contradições de uma hegemonia americana vacilante. Diante do fortalecimento dos BRICS e dos seus aliados, Donald Trump multiplica as medidas coercivas, militares ou financeiras… tornadas mais difíceis por uma população cansada de aventuras militares.

 

Desde o seu regresso à Casa Branca, Donald Trump multiplica os excessos e coloca brutalmente em causa os fundamentos da hegemonia americana. Ao livre-comércio é agora preferida a imposição errática de tarifas aduaneiras; à supremacia silenciosa, a diplomacia de canhoneira estrondosa; à preservação do “privilégio exorbitante” do dólar, o acumular de petrodólares.

Esta modalidade de exercício do poder, fundada no uso da palavra presidencial como instrumento de rutura, contrasta com as antigas nações europeias, sujeitas aos seus pesos institucionais e à mecânica deliberativa deficiente da União. Este ativismo político parece provocar um efeito de estupefação nas oposições — mas também seduzir as tendências conservadoras francesas e europeias, que observam com deleite esta aceleração dos acontecimentos.

O caso do México ilustra o fracasso mais flagrante da política de relocalização. O défice comercial com o vizinho do sul cresceu 10% num ano, atingindo o recorde de 197 mil milhões de dólares.

Esta glorificação da ação política bruta, aliada a uma estetização da violência, engendra uma narrativa triunfal. Mas ela dissimula mal um recuo inequívoco — o consenso silencioso em torno da hegemonia americana está morto — e as contradições em que se encontram enredados os Estados Unidos, levados a empregar a força de maneira crescente.

 

O Retorno do Protecionismo e os seus Limites

De volta à cena política para um segundo mandato em 2024, Donald Trump fez do termo tarifas o seu novo dogma, qualificando-o de “a palavra mais bonita da língua inglesa”. Para o 47º presidente americano, a arma aduaneira constitui o único instrumento capaz de corrigir o défice comercial da primeira potência mundial. O Liberation Day Act, assinado em 2 de abril de 2025, marcou o ápice desta estratégia: a imposição de uma grade tarifária agressiva — e até proibitiva —, concebida como pré-requisito para qualquer negociação e com o objetivo de instaurar uma assimetria aduaneira duradoura, em benefício dos Estados Unidos. A encenação ruidosa desta ofensiva esbarra hoje numa realidade estatística bem mais matizada.

Em primeiro lugar, a aposta numa rutura radical com Pequim não gerou o renascimento industrial prometido. Se o défice bilateral com a China recuou efetivamente em 2025, esta descida deve-se sobretudo a um jogo de vasos comunicantes: as importações tecnológicas simplesmente deslocaram-se para Taiwan, cujo excedente face aos Estados Unidos disparou em proporções quase idênticas. Em paralelo, o défice com o Vietname explodiu 60 mil milhões de dólares no mesmo ano. Este fenómeno põe em evidência o crescimento das estratégias de contorno: numerosas entidades vietnamitas não passam de fachadas para grupos chineses, permitindo-lhes reexportar os seus produtos para o mercado americano, contornando as sobretaxas de Washington.

Em relação à União Europeia, a pressão não produziu o efeito desejado. O défice comercial fixou-se em 218 mil milhões de dólares em 2025, ou seja, uma redução marginal de 16 mil milhões face ao ano anterior. Mais revelador ainda: este nível mantém-se superior aos registados em 2022 e 2023, relativizando assim a eficácia do “método Trump” contra o Velho Continente.

Por fim, o caso do México ilustra o fracasso mais flagrante da política de relocalização. Apesar dos incentivos para repatriar a atividade para o solo americano, o défice comercial com o vizinho mexicano cresceu 10% num ano, atingindo o recorde inédito de 197 mil milhões de dólares. Este montante é três vezes superior ao de 2016, ano da primeira eleição de Donald Trump, provando que a integração das cadeias de valor norte-americanas resiste, por ora, à sua vontade de perturbar os equilíbrios.

Em suma, se a administração Trump pode gabar-se de ter abalado o paradigma do livre-comércio, o veredicto dos números — agravamento do défice comercial em 30 mil milhões de dólares entre 2024 e 2025 — impõe cautela: mais do que uma reindustrialização, é o encarecimento do custo das suas dependências que se faz sentir.

 

Da Hegemonia à Coerção

Acabar com as guerras intermináveis, este slogan, repetido à exaustão pelo candidato Donald Trump no limiar do seu segundo mandato, parece pertencer a outro tempo.

Apesar da encenação da sua força de ataque, o ecossistema trumpiano deixa transparecer linhas de fratura cada vez mais profundas.

Em abril de 2025, a administração Trump ainda pedia ao Pentágono que identificasse setores onde poderiam ser efetuados cortes orçamentais, visando uma redução anual de 8%, ao longo de cinco anos. A reviravolta não tardou: o orçamento da Secretaria da Guerra [novo nome da Secretaria de Defesa a partir de outubro de 2025, N.d.R.] foi afinal aumentado para o ano de 2026. Subiu para um milhão de milhões de dólares, ou seja, 3,5% do PIB americano — um ponto e meio acima da média mundial. Para o ano de 2027, foi mesmo anunciado um aumento de 50%, o que o elevaria a 1,5 milhões de milhões de dólares (aproximando-o, em proporção do PIB, ao nível da época de George W. Bush).

Este aumento decorre de uma dificuldade de peso: a incapacidade de mobilizar um exército vitorioso nas diferentes frentes do império, confrontado com um esgotamento do material militar, nomeadamente antimíssil. Em conformidade com as suas promessas de campanha, Donald Trump deseja evitar operações de longa duração, que implicariam o desdobramento terrestre de tropas. Este estado de coisas materializa-se pelo recurso a bombardeamentos aéreos massivos: mais de 600 ataques foram ordenados contra o Irão, o Iémen, a Venezuela, a Síria, o Iraque e a Nigéria, sem que qualquer avanço concreto e duradouro tenha sido alcançado até à data do ponto de vista da administração americana.

Por fim, a reorientação da atenção militar para a Ásia, com o objetivo de conter a projeção da China agora emergida, conhece certas limitações. Numa primeira fase, Donald Trump quis fazer pesar toda a sua influência para modificar as alianças regionais em vista de um confronto futuro, passando pela dissolução do eixo Moscovo-Pequim. No entanto, lisonjear Vladimir Putin na cena internacional, prometer-lhe a reintegração no concerto das nações e o levantamento das sanções não foi suficiente. Paralelamente, apesar de numerosos tiros de aviso diplomáticos, os Estados Unidos (sob a pressão do lobby militar-industrial que financiou os candidatos republicanos) nunca se retiraram verdadeiramente da Ucrânia.

O seu balanço é mais mitigado na zona indo-pacífica, onde foram obtidos avanços reais. Após longos meses de negociações conduzidas de forma árdua, apoiadas por pesadas medidas coercivas, os Estados Unidos acabaram por arrancar um acordo à Índia. Esta cessou de importar petróleo russo, sob a ameaça de retaliações tarifárias, e aceitou assinar um acordo comercial que reafirma o lugar dos Estados Unidos como parceiro privilegiado.

 

Errância monetária

O segundo mandato de Donald Trump assistiu ao surgimento de um círculo próximo de conselheiros económicos, no qual Scott Bessent e Stephen Miran constituem as figuras de proa. Este duo empenhou-se em edificar um novo corpus estratégico que preconiza uma austeridade orçamental radical, acompanhada de um questionamento do paradigma monetário vigente desde o fim do sistema de Bretton Woods em 1971. Do ponto de vista orçamental, esta ambição cristalizou-se inicialmente sob o acrónimo provocador RAGE (Retire All Government Employees), antes de se traduzir institucionalmente pela criação do DOGE (Department of Government Efficiency).

A direção deste órgão foi confiada a Elon Musk, empresário megalómano, auto-intitulado Technoking no seio do seu ecossistema de empresas. Apesar de uma encenação habilmente orquestrada, esta ofensiva dificilmente consegue dissimular um balanço contabilístico muito aquém das expectativas. Se a “motosserra orçamental” desestabilizou profundamente o quotidiano de numerosos funcionários públicos, o impacto nas finanças do Estado permanece marginal. Enquanto o objetivo inicial anunciava uma redução espetacular de 2.000 mil milhões de dólares nas despesas federais, o balanço oficial, aquando da dissolução do órgão em novembro de 2025, registava apenas uma redução de 175 mil milhões — ou seja, 10% da meta anunciada (cerca de 1,5% do orçamento total dos Estados Unidos).

Estas iniciativas inscrevem-se numa vontade mais ampla de se libertar do «dilema de Triffin». Este conceito descreve a dificuldade, para um país cuja moeda nacional serve de divisa mundial, em conciliar os seus próprios interesses com as necessidades do comércio global. Com efeito, para que as trocas mundiais funcionem, o resto do mundo precisa de dispor do precioso dólar para as suas transações e reservas. Este fluxo de saída de moeda tende a valorizar o dólar, o que pesa sobre a indústria americana, trava a produção nacional e aprofunda mecanicamente os défices comercial e orçamental. A administração Trump encontra-se assim perante uma escolha difícil: continuar a fornecer dólares ao mundo para conservar o «privilégio exorbitante» de um endividamento sem limites, ou proteger o aparelho produtivo nacional arriscando-se a desestabilizar o comércio mundial.

.Esta contradição  encontra-se  no interior da própria administração. Enquanto o presidente do Federal Reserve Bank (Fed, o banco central dos Estados Unidos) afirma querer preservar um dólar forte, Donald Trump incentiva uma política de redução das taxas de juro para estimular a economia e proteger as empresas americanas. Prolongar a hegemonia do dólar ao mesmo tempo que se protege o tecido produtivo americano: aqui também, apenas medidas coercivas são capazes de conciliar estes dois objetivos, à partida contraditórios.

Sem resultados convincentes. Apesar de uma política tarifária agressiva (supostamente destinada a favorecer uma relocalização do capital) e de uma política de taxas baixas que desvalorizou o dólar em 15% (supostamente destinada a favorecer a indústria americana), as repercussões no território nacional continuam a ser mínimas. Para evitar que esta queda do dólar ameace a sua hegemonia, Donald Trump recorreu a uma diplomacia agressiva (na Arábia Saudita, por exemplo), pressionando os países a continuarem a transacionar em moeda americana. Estas demonstrações de força não foram suficientes para manter a confiança no dólar: a quota desta moeda nas reservas cambiais mundiais caiu para 57% no final de 2025, face a 70% alguns anos antes.

Embora a administração Trump tenha acionado várias alavancas da política económica, a direção global permanece volátil. Entre a vontade de romper com uma posição hegemónica que se tornou um fardo e a tentação de manter os atributos clássicos do poder monetário, Washington multiplica as orientações contraditórias. A agitação política dificilmente se transforma em êxitos económicos tangíveis.

 

Base política vacilante

Apesar da encenação da sua força de intervenção, o ecossistema trumpista deixa transparecer linhas de fratura cada vez mais profundas.

Descontente com uma inflação que penaliza o eleitorado popular, uma parte da coligação Make America Great Again (MAGA) censura Donald Trump pelo seu aventureirismo geopolítico — e por trair a sua promessa de se ocupar da “América em primeiro lugar” (America First). Esta nebulosa, até agora relativamente monolítica, fragmentou-se progressivamente em diversas correntes — o que faz emergir a possibilidade de uma cisão num futuro próximo, entre uma ala isolacionista encarnada pelo Vice-Presidente J. D. Vance e uma fação intervencionista encarnada pelo Secretário de Estado Marco Rubio.

Este desencantamento ideológico soma-se a uma rebelião parlamentar que já não se esconde: figuras históricas do trumpismo — como a deputada republicana Marjorie Taylor Greene e o jornalista conservador Tucker Carlson — erguem-se agora contra o aventureirismo militar da administração, nomeadamente na Venezuela e no Médio Oriente.

As eleições meio mandato de novembro de 2026 soarão como o julgamento da legitimidade de um presidente que se afastou das aspirações iniciais de uma parte significativa da sua base. Apresentado como uma sucessão de golpes de efeito, o ativismo trumpiano aparece antes como uma reação aos tiros de aviso da hegemonia americana. À servidão voluntária de grande parte do mundo é agora preferida a coerção. Os Estados Unidos faziam assentar a sua hegemonia na estabilidade e na previsibilidade da ordem mundial: dia após dia, Donald Trump confirma a sua inconstância estratégica, proclamando vitórias cada vez mais ilusórias. O declínio pode, por vezes, falar-se com os adornos do triunfo.

 

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Lotfi El Othmani é um jornalista e colaborador regular de Le Vent Se Lève. O seu trabalho centra-se predominantemente em geopolítica, questões militares e política internacional, com especial destaque para a política externa dos Estados Unidos e conflitos regionais.

 

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