Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa — Texto 17. Contra o Império romano que enlouqueceu, o Irão aceitou o desafio. Por Regis de Castelnau

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Texto 17. Contra o Império romano que enlouqueceu, o Irão aceitou o desafio

por Regis de Castelnau

Publicado por  em 16 de março de 2026 (original aqui)

 

 

Num artigo anterior, indicámos que o tratamento sofrido por Israel após o desencadeamento da guerra de agressão contra o Irão poderia suscitar uma certa “maliciosa alegria” (schadenfreude).

Uma breve volta ao mundo na Internet permite constatar que essa alegria maliciosa se estendeu a todo o planeta. A prova disso é o incrível sucesso de uma canção que data, aliás, da guerra dos 12 dias de junho de 2025. Intitulada «boom boom Tel-Aviv», é acompanhada de imagens dos bombardeamentos sofridos pela capital de Israel. As letras remetem obviamente para o que este último fez sofrer aos palestinianos em Gaza. E apresentam os bombardeamentos como um justo retorno das coisas. Utilizada, arranjada, modificada e traduzida em todas as línguas, é objeto de uma difusão colossal da ordem de várias dezenas de milhões de visualizações.

Este fenómeno conta, no fundo, uma história que, embora possa parecer surpreendente, não deixa de ser muito simples.

Há primeiro a evidência da agressão americano-israelita de 28 de fevereiro, no exato momento em que os negociadores americanos e iranianos chegavam a um acordo. Uma agressão que começou com o bombardeamento mortífero de uma escola de meninas e com o assassinato do dirigente religioso supremo do Irão. E depois, ultrapassado esse primeiro choque, a potência inicial da resposta iraniana, exprime a recusa em ceder às admoestações e às fanfarronices cada vez mais grotescas de Donald Trump. A evidência do desânimo americano, cuja expressão mais aterradora foi a famosa oração da Casa Branca, onde se viu um grupo de fanáticos imporem as suas mãos trémulas sobre o corpo do presidente dos Estados Unidos sentado à sua secretária. É preciso reler as declarações de Trump na sua rede social ou perante jornalistas. Ali diz absolutamente qualquer coisa, e vemo-lo suceder-se a si próprio em completas contradições, dando a impressão de que o chefe do hegemon perdeu completamente controle. E o que dizer das intervenções do perfeito estúpido que lhe serve de “secretário de Estado para a guerra”, exibindo o seu prazer perante os massacres que ordena — e revelando a sua estupidez vertiginosa ao afirmar que “o estreito de Ormuz está na realidade aberto, mas que o Irão simplesmente se recusa a deixar passar navios“.

Afinal, como nada corre como Trump e Netanyahu estupidamente pensaram, a aventura começa a assemelhar-se a um fracasso catastrófico com uma derrota americana no fim e uma provável desaparição do projeto sionista. Dissemos aqui que o que se expressava nesta crise era precisamente a contradição principal do confronto entre o resto do mundo e um Ocidente que, afinal, não está assim tão longe da sua queda.

E esta derrota que se perfila, esta derrota que alegra esse resto do mundo, é ao Irão que a devemos. Que recusou curvar-se, e decidiu resistir e enfrentar o monstro. E o mínimo que se pode dizer é que lhe desfere golpes severos. E quer se queira ou não, quer se sinta aversão por um regime teocrático, quer se tenha memória das repressões passadas, somos forçados a respeitar a coragem da antiga Pérsia por ter aceite o desafio e ter concordado em assumir este combate contra este Ocidente que, tendo esquecido todos os seus princípios, já só é capaz de exibir essa parte de brutalidade e violência que sempre foi também a sua.

Fiz a minha primeira viagem ao Médio Oriente em 1969. Ou seja, dois anos após a Guerra dos Seis Dias e seis meses depois do ataque ao aeroporto de Beirute pelo exército israelita, que transformou este país — até então pacífico — numa nação envolvida nas guerras israelitas. No Egito, na Jordânia, na Síria, no Líbano, um retrato estava exposto em todos os cafés, todos os restaurantes, todas as mercearias, ao lado do  respetivo chefe de Estado. Era o de Charles de Gaulle. Porque ele era aquele que, no Ocidente, se havia recusado a dobrar-se perante os americanos. Agora, é o de Khamenei — o aiatola assassinado — que se vê exposto, claro está nos países muçulmanos, mas também doravante na América Latina e na Ásia. Isso diz tudo sobre o que está a acontecer. O confronto do Ocidente em modo Império Romano enlouquecido contra o resto do mundo.

E aos olhos deste último, é bem o Irão que aceitou o desafio.

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O autor: Régis de Castelnau [1950 – ], advogado francês, é licenciado pela Universidade de Paris Pantheón Assas, especializado em direito social e económico. Advogado empenhado, tornou-se próximo do movimento operário francês e nos anos 70 tornou-se um dos advogados do Partido Comunista Francês (PCF) e da CGT. Em especial, liderou a defesa dos trabalhadores da indústria siderúrgica entre 1978 e 1982. A partir desta experiência, escreveu um livro, La Provocation2, escrito com o escritor François Salvaing. Os seus compromissos valeram-lhe no Eliseu a alcunha de “Barão Vermelho. A partir dos anos 90, ao analisar a importância crescente das questões jurídicas no processo iniciado em França pelas leis de descentralização de 1982 e 1983, reorientou as suas actividades para o direito público local.  Foi Vice-Presidente e Presidente Honorário da Associação Francesa dos Advogados do Governo Local. É também Presidente do Instituto de Direito e Gestão Local desde 1997. Ensinou direito urbanístico na Universidade de Borgonha e direito da responsabilidade pessoal dos decisores públicos locais na Universidade de Paris II Panthéon Assas. Publicações e escritos: paralelamente a uma forte atividade doutrinal. Em 2019, aderiu ao Partido da República Soberana de Djordje Kuzmanovic, uma cisão de La France insoumise. Dirige o site Vu du droit.

 

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