(Belíssimo texto de Marcos Cruz, apresentando a exposição de fotografias de rostos, de NUNO MARCELINO, no Museu Soares dos Reis. Fotos da máquina, de Marcos Cruz e de Manel Cruz, presentes na exposição).
NO RASTO DOS ROSTOS
por Marcos Cruz
A primeira vez que contactei com os retratos do Nuno Marcelino foi ao passar na Cooperativa Artística do Bonfim. As imagens expostas na montra chamaram-me a atenção. Detive-me a observá-las pela inquietação que me geraram, antes ainda de me ter apercebido de que alguns dos retratados eram meus conhecidos. Havia um mistério a envolver aqueles rostos, mesmo os que me eram familiares, ou até sobretudo esses, porque nunca os olhara assim. Pareciam vindos de outro tempo. A névoa de onde assomavam à realidade, como fantasmas que essa mesma realidade declarava impossíveis, chamava-me a uma dança com a imaginação, de cujos passos eu pensava já ter perdido o léxico. Ver aquelas chapas fez-me dançar para dentro delas, reabitar também eu os lugares diferentes que aqueles edifícios humanos se tornaram aos meus olhos. Uma qualquer verdade profunda precisava de ser descortinada. Cada rosto deixava um rasto. Lembrei-me da frase de Picasso: “A arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”. Como se para atracarmos junto a uma essência fosse preciso remarmos pelas águas da fantasia. Aqueles retratos já estavam dentro do meu barco, agora era sulcar o rio da massa cinzenta por entre as margens do preto e do branco. Mas eu ainda não existia no outro lado do espelho, não habitava o mundo daqueles rostos. Voltei, em momentos distintos, ao encontro deles, como quem visita companheiros na prisão, até que uma noite, aparentemente do nada, o Nuno Marcelino me convidou para o ritual de passagem. Aceitei sem pestanejar, ou se pestanejei foi no instinto fotossensível de fechar um acordo que me expunha a tanta luz. Três dias depois, lá estava eu com o mestre de cerimónias. Precedia-me a noção de que tudo começa antes de começar, mas a preparação mental a que me dedicara foi cortada como um fio pelo instante em que me vi defronte da caixa de madeira para onde era suposto um eflúvio da minha alma transladar-se. Há algo de litúrgico neste processo, uma aura de confessionário que nem a graciosidade terrena do Nuno desmancha. Mais do que as suas indicações cirúrgicas ou a mecânica do instrumento colocado nas minhas costas com esse propósito, foi o abraço quente de um halo hierático que me ajustou a verticalidade da postura e a firmeza da expressão. Como uma calibragem de espírito reflectida no corpo. Habituei-me também à intensidade do foco luminoso que me fazia semicerrar os olhos e senti-os acomodarem-se, desejando cada vez mais a progressão hipnótica pelo oráculo em que a objectiva já então se transformara. Estava pronto para testemunhar a magia de uma subtracção sem perda, na queda da guilhotina que corta uma vida em duas. Clac… tchhk! E tudo as reticências levaram. De repente, senti-me como a âmbula vazia de uma ampulheta, mas o imediato “anda cá” do Nuno fez-me perceber que a inversão do processo já estava em curso. O tempo corria agora sobre a chapa, para onde se projetava toda a minha atenção. Após o banho, o “outro eu” recém-nascido ia-se revelando, numa alquimia tão despida e transparente quanto miraculosa. O eu de cá acompanhava passo a passo os cuidados e ensinamentos do parteiro, sem saber se era pai, filho ou irmão daquele presente, apenas cristalizado nele como se o passado e o futuro tivessem conspirado para sair juntos em pezinhos de lã. A luz emergira das trevas e as formas de um novo dia assumiam a cada segundo maior nitidez. Pouco a pouco, fui tomando consciência de que aquele era tanto o meu retrato como o de Dorian Gray. Uma vida própria nas profundezas da imaginação – a nação da imagem. Saí do estúdio com a sensação de que algo de mim já lá crescia. De agora em diante, quando voltar a visitar os retratos do Nuno Marcelino, sei que estão abertas as portas do tempo e do espaço. Espalhem a palavra, pois é na língua comum da liberdade que a identidade de cada rosto se desenha.




